Inverno da Alma

janeiro 27, 2011

Por Pedro Costa de Biasi

O cinema norte-americano está cheio de personagens lançados para dentro de uma rede de mistérios que precisam decifrar para sobreviver ou para revelar uma verdade horrível vislumbrada por acaso. Inverno da Alma não é um exemplo dessa trama, e nem poderia ser. Na realidade, poderia, mas não sem danificar um dos elementos que o tornam uma obra tão fascinante com personagens idem.
 
Habitante dos inóspitos montes Orzak, Estados Unidos, Ree (Jennifer Lawrence) tem de cuidar dos dois irmãos mais novos e de sua mãe de mente frágil, já que seu pai, Jessup, desapareceu há muito. Quando ele retorna, é sob a forma de uma notícia bombástica: a casa onde moram foi usada pelo homem como garantia em seu julgamento. Ou seja, se ele não comparecer à audiência marcada dali a uma semana, a família será despejada de lá. É então que a protagonista mergulha nos segredos da comunidade para descobrir o paradeiro do progenitor.
 
Em uma das muitas interpretações assombrosas do filme, Lawrence mostra a obstinação de Ree com a mesma dureza de seus vizinhos. A atriz passa em cada cena a percepção de que sua audácia é imensa, mas compulsória. Como resultado, a diretora Debra Granik e a co-roteirista Anne Rosellini rascunham uma sutilíssima batalha interior na penumbra dos sentimentos de Ree: uma vontade reprimida, ou talvez apenas temerosa, de saber tudo que puder sobre Jessup. Mas, esperta como é, ela acossa a curiosidade, desmontando suas necessidades às informações mais básicas.
 
Embora fosse um caminho natural, o de opor os segredos dos personagens ao desejo que Ree tem de revelá-los, o roteiro delineia uma protagonista que não se interessa pelo que os outros habitantes da comunidade ocultam. Seu objetivo é puro, assim como sua determinação. Mais que um senso de autopreservação, que a obriga a fazer vista grossa, ela entende que pode resolver sue problema sem revelar qual a ligação entre o xerife Baskin (Garret Dillahunt) e o irmão de Jessup, Teardrop (John Hawkes), ou o motivo de tanto temor a Thump Milton (Ron ‘Stray Dog’ Hall).
 
Devido a algo tão prosaico como um encontro com Milton, a protagonista precisa se sujeitar à carranca de Merab (Dale Dickey) e a agressões cada vez mais diretas. Ao omitir os esqueletos no armário desses personagens, Granik constrói um universo em que apenas a possibilidade de cruzar certos limites já configura como uma ousadia digna de punição.
 
Esse clima é alcançado, em grande parte, graças às personas que rodeiam Ree, embora “persona” seja uma palavra inadequada. Diferente de Lawrence, os outros atores não têm pilares visíveis: não se sabe o que Milton fez para inspirar tanto medo, por que Merab é sua mediadora na relação com pessoas “de fora” ou como era a relação de Jessup e Teardrop. Eles são literalmente faces, corpos e roupas, sem história, com uma presença ameaçadora por convenção.
 
Embora os diálogos carreguem muito dessa aura, é inegável que o elenco beira a perfeição quanto a se tornarem totens de suas reputações. Dickey impressiona com sua grosseria e Stray Dog acerta na assustadora serenidade, mas é de Hawkes, indicado ao Oscar 2011, que reside o maior impacto, por um motivo que nada tem a ver com a qualidade de sua atuação. Com mais tempo em cena, ele alonga o silêncio, mantém a rispidez de suas rugas e pêlos faciais, e, até nos lampejos de sensibilidade, transtorna com sua postura inabalável.
 
Inverno da Alma (em inglês, Winter´s Bone, ou seja, Osso do Inverno, em menção à exposição do corpo, mas nunca da mente) se firma como um filme de superfícies. Os atores e personagens são muralhas, entrincheirados no obstáculo impassível que seus rostos impõem. Um bom exemplo de filme silencioso que sabe por que o é: porque os fracos têm de calar a boca perante os fortes.

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