Um lugar qualquer

janeiro 26, 2011

Por Pedro Costa de Biasi

Para que Um Lugar Qualquer fosse um ótimo filme, a roteirista Sofia Coppola teria de alcançar a diretora Sofia Coppola, pois a primeira está muito menos preparada para encabeçar algo do tipo. A história trabalha em volta do tédio, mostrando a vida estagnada de Johnny Marco, grande astro de Hollywood. Acompanhamos sua rotina de mulherengo, ricaço sem raízes e o encontro com a filha de 11 anos, Cloe (Elle Fanning), que ficará com ele por alguns dias enquanto a mãe viaja.
 
Parte do filme se mantém inconclusa, especialmente no quesito familiar. Seria cômodo dizer que a cineasta se furta de resolver os problemas que coloca por preguiça, mas é mais próximo do contrário. Os melhores momentos da obra acontecem quando se pode pensar, e não quando o pensamento já está estabelecido de antemão. Sempre que Coppola parece comentar algo, o faz de forma canhestra.
 
Temos, por exemplo, todas as aparições públicas de Marco, que variam do meramente tolo para o patético. A brincadeira com o ator mulherengo, ao receber um prêmio na Itália, até tem algum mérito relativo, mas a vergonhosa coletiva de imprensa espezinha qualquer elegância. Os jornalistas fazem perguntas de uma criança que ouviu palavras difíceis na televisão, e arrematam convenientemente com uma questão existencialista na qual Johnny engasga.
 
Os esforços repetitivos desses e outros momentos (a solidão do ator quando precisa tirar um molde de seu rosto, o problema com a Ferrari, a escolta policial) são um misto de pequena doses de didatismo com uma imensa porção de ingenuidade, que quase arruínam o filme. Duas cenas próximas do final também mostram os afetos do personagem de forma tola. Mais interessante é o uso das locações, parte essencial da temática por representar a liberdade desregrada de Johnny e o vazio de cada lugar.
 
Essa vagueza também deixa o tom da trama indeterminado. Há menos arroubos dramáticos e mais sentimentos entrecruzados, como desejos rancorosos de contato e momentos de alegria pontilhados de lamentos. Nada disso precisa ser explicado: a química afável e trôpega de Fanning e Dorff fornece tal instabilidade, podendo inclusive indicar que Cloe é a autora das mensagens enfurecidas que Johnny recebe no celular.
 
Aqui Coppola mostra com propriedade que pode dizer muito com um mínimo de recursos. Apenas com a imagem, de fato. A passagem que abre o filme mostra o carrão do protagonista acelerando em uma pista no meio do deserto, entrando e saindo do quadro. Há subtexto de sobra para relacionar as voltas da Ferrari na areia e as de Johnny no dia-a-dia, ao passo que a sequência das dançarinas, pouco depois, confirmará que essa limitação do quadro é uma limitação também de visão.
 
Na seqüência em questão também há o valor da portabilidade: tudo, desde as poles em que as mulheres se penduram até a música, pode ser carregado. O universo enquadrado no filme é repleto de eventos portáteis, efêmeros e redundantes. É possível sentir uma sede excessiva de contemporaneidade, mas a visão é bem defendida em outras frentes. E essa é a ruptura que Cloe representa, pois quer ter uma casa para cozinhar, jogar videogame e passar tempo com o pai.
 
Vale notar que nada disso é dito. É revigorante assistir a uma obra que dá espaço para o olhar e para a interpretação como partes importantes da relação com o espectador. A oposição entre a atenção à pole dancing e à patinação no gelo se dá na montagem, bastante similar nas duas cenas, mas tem na câmera (que deixa as dançarinas saírem do quadro, mas segue a movimentação de Cloe o tempo todo) a diferença definitiva.
 
A grande qualidade do novo trabalho de Sofia Coppola é deixar as imagens respirarem. Quando o afã de fazer uma sátira infantil se esgueira por essas imagens, o filme dá uma guinada perigosíssima, mas o desequilíbrio pende levemente para um resultado feliz.

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