A Rede Social

dezembro 2, 2010

por Pedro Costa de Biasi

É na instabilidade da socialização que recai o enfoque de A Rede Social. Mais especificamente, o diretor David Fincher e o roteirista Aaron Sorkin estudam as influências que as pessoas causam umas nas outras, passando pelo prisma intelectual e emocional. O filme usa a história real de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), inventor do Facebook, para analisar dois conceitos, o de ideia e o de relação interpessoal.

A trama inicia quando o protagonista e Erica (Rooney Mara), alunos de Harvard, terminam o namoro. Na mesma noite ele cria o site Face Mash, onde usuários podem comparar a beleza das estudantes. Ao saber do feito, os gêmeos Winklevoss (Armie Hammer) o convidam para criar um site de relacionamentos para alunos da universidade, o Harvard Connection. Mark, porém, começa a trabalhar com seu amigo Eduardo Saverin (Andrew Garfield) no TheFacebook, bastante semelhante ao projeto dos irmãos.

A analogia entre o Facebook e os clubes privados de universidades se dá na proposta inicial do site: alguém só pode se tornar membro se tem um diferencial. Hoje em dia, qualquer um pode criar um perfil, mas essa mudança só foi realizada em 2006 e ficou de fora do filme. A omissão faz sentido, pois a exclusividade é placidamente deixada de lado assim que entra no caminho do crescimento. Esse é apenas um dos muitos elementos que são descartados para alcançar um objetivo maior.

Zuckerberg acha que deve se privar de muitas coisas para administrar o negócio, como sua vida social – a excelente montagem mostra, nos créditos iniciais, o protagonista correndo entre colegas sem lhes dar atenção. Ele não tem tantos sentimentos atrelados à ideia. Se o Face Mash trazia ranço pelas dificuldades de se relacionar, o Facebook (roubo de propriedade intelectual dos Winklevoss ou não) cresce com ideias que Mark tem durante conversas e encontros casuais. Ele não tenta compensar o real com o virtual, pois é solitário nos dois mundos. O que quer é manter o projeto e expandi-lo, e sua frágil experiência social é só mais um combustível.

Vale dizer que não há uma posição definitiva em relação ao suposto crime. Mark alega não ter usado os códigos do site dos gêmeos, mesmo que as duas propostas fossem bastante parecidas. Por outro lado, a equação proposta-versus-projeto não se resolve. Se os códigos, fáceis para o jovem mas trabalhosos de qualquer maneira, não foram reutilizados, sobra para os Winklevoss o esforço de ter a ideia – que, por sua vez, não se diferencia claramente da mera inspiração para o protagonista. Sorkin mantém o conflito inconclusivo menos para pacificar o Zuckerberg real, e mais para mostrar que a autoria do projeto importa menos que o dinheiro gerado pelo desenvolvimento da ideia.

Apesar de não ser visto trabalhando o tempo todo, o personagem carrega consigo um frenesi produtivo alternado com esgotamento. O excelente Eisenberg consegue unir muito mais que isso. Enquanto Fincher ressalta o contato humano nos raros momentos em que ele existe, o ator trabalha a estranheza dos sentimentos de maneira formidável, seja em seu rosto ou nas significativas pausas em sua fala convulsiva.

Garfield também se destaca, rompendo com a frieza predominante. Ele se mantém suscetível à frieza de Mark, enquanto a maioria, inclusive Hammer com sua sutil energia, encarnam personagens que preferem (ou precisam) ocultar suas crises e frustrações. Quando Saverin ameaça Zuckerberg e enche a boca com um “asshole!”, vemos o que parece ser o fim de uma trajetória emotiva – ao que as reuniões do processo indicam que ele não é capaz de cair na total impessoalidade.

A mais virulenta crítica de A Rede Social é direcionada àqueles que mascaram questões pessoais com trabalho, processos, reivindicações e frases elaboradas. Como Neil Marshall em seu lançamento recente, Centurião, Fincher lamenta seus personagens na medida em que eles esquecem que são pessoas.

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