Abutres

novembro 24, 2010

 

por Janaina Pereira

 

E lá vem a Argentina, de novo, com toda a força para o Oscar 2011. Depois de levar o prêmio de filme estrangeiro deste ano, com o impecável O Segredo dos Seus Olhos, o país pode conseguir pelo menos a indicação da categoria com o pesado Abutres (Carancho), de Pablo Trapero, que estreia dia 3 de dezembroe foi exibido com sucesso no Festival do Rio e na 5ª Mostra de Cinema e Diretos Humanos da América do Sul.

Conhecido por tratar de temas pouco convencionais de forma nua e crua, Trapero não faz diferente neste trabalho. Com Ricardo Darín e Martina Gusman – esposa do diretor – liderando o elenco, Abutres conta a história de Sosa (Darín), um advogado que se aproveita das indenizações pagas a vítimas de acidentes de trânsito em um corrupto esquema que envolve profissionais da saúde e policiais.

Sosa decide deixar a vida de contraventor ao se apaixonar pela paramédica Luján (Martina), moça do interior da Argentina que luta para sobreviver na capital. Mas é claro que abandonar essa vida bandida não será tão simples assim.

Darín e Martina aparecem em atuações impecáveis, mas é a direção pauleira de Trapero que sobressai. Sem dó nem piedade do espectador, ele ‘derrama’ na telona toda a falta de sorte dos personagens em suas vidas problemáticas na periferia de Buenos Aires, mostrando uma realidade cruel e incômoda.

Sosa é um pobre coitado, Luján é uma alma perdida, mas o encontro dos dois acaba dando um sopro de leveza àquela vida complicada, um certo ar de esperança a um mundo cheio de privações e sofrimentos. O casal, apaixonado, tenta superar a mediocridade do sistema; mas o sistema pode ser maior do que tudo.

Em espanhol, Carancho significa ave de rapina, e o título em português remete a isso – embora os nossos abutres não tenham a beleza do carancho deles.

O roteiro de Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre e Pablo Trapero é baseado em dados estatísticos argentinos até então desconhecidos do mundo: no país morrem todo ano mais de oito mil pessoas em acidentes de trânsito, uma média de 22 por dia; e mais de cento e vinte mil ficam feridas. Na última década, 100 mil foram mortos.
 
Os milhões de pesos argentinos que as vítimas e seus familiares necessitam para cobrir os gastos com médicos e questões legais produzem um enorme mercado, sustentado por indenizações das seguradoras e pela fragilidade da lei. Por causa de Abutres, uma nova lei está prestes a ser sancionada, para que este panorama mude. Ou seja, além de grandioso, o filme prestou um bem ao país ao denunciar tamanhas atrocidades.

Surpreendente e cheio de cenas e diálogos fortes, o longa é uma daquelas tramas em que você vai junto com os personagens, torce por eles, se empolga. É um triller com uma envolvente história de amor de pano de fundo. Impossível não gostar e não aplaudir no final mas se prepare: é um tremendo soco no estômago.

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Uma resposta to “Abutres”

  1. […] This post was mentioned on Twitter by João Paulo da Guia and Grupo Paris Filmes, Janaina Pereira. Janaina Pereira said: Abutres (@parisfilmes), por @janaredatora https://cinemmarte.wordpress.com/2010/11/24/abutres/ […]

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