Mostra de SP 2010 – 14º dia

novembro 4, 2010

 

 

por Janaina Pereira

 

O mundo GLBT nunca mais foi o mesmo depois que o canadense Xavier Dolan surgiu. Ano passado, o jovem estreou como diretor com Eu matei minha mãe, uma histeria sobre o relacionamento problemático de um adolescente (o próprio Dolan) e sua mãe. O longa, exibido com sucesso no Festival do Rio, chegou ao circuito somente este ano, e vem conquistando mais e mais fãs. Confesso que não gosto do filme e criei uma antipatia brutal pelo diretor, mas fui convencida por um amigo a dar uma segunda chance a Dolan.

Foi assim que, quase por obrigação, fui ver Amores Imaginários, segundo filme de Dolan, que passou no Festival do Rio e chegou muito bem cotado à 34ª Mostra de São Paulo. E eu, que admito todas as minhas fraquezas e franquezas sobre o cinema, consegui simpatizar com Dolan e seu universo muito particular. Moderninho, cheio de referências, com uma trilha sonora bacana e um roteiro comum, sem grandes profundidades, o cineasta de apenas 21 anos apresenta um novo caminho, processo natural de amadurecimento para quem pretende deixar de ser apenas mais um na multidão.

 Amores Imaginários mostra a que Xavier Dolan veio – e ele não veio a este mundo a passeio. Selecionado este ano da mostra Un Certain Regard, em Cannes, o longa aborda a mais trivial das histórias: o amor platônico, ou imaginário, como o próprio título diz. A história sobre mais um triângulo amoroso é moderna porque aborda o tema mais comum ultimamente – a mulher e o amigo gay se apaixonam pelo mesmo cara. E esse cara é um narcisista, que manipula os dois apaixonados.

Xavier Dolan é o amigo gay, fofo e carente. A mulher é Marie (Monia Chokri), heterossexual, vintage, carente e que não desgruda do amigo gay fofo. Em uma dessas festinhas na casa de um amigo em comum, eles conhecem e se apaixonam por Nicolas (Niels Schneider), um menino de sorriso encantador e cachinhos dourados. Mas Nicolas sabe que é gatinho e usa isso, supostamente, a seu favor: ele se aproveita da paixão alheia para ter os apaixonados sempre por perto, rodeando e bajulando ele. Os três se tornam inseparáveis, e enquanto os amigos disputam literalmente no tapa Nicolas, esse ( me desculpem a expressão) não fode mas também não sai de cima. Alguém já viveu isso alguma vez na vida? Pois é.

Dolan joga câmeras lentas (meio Closer, como muito bem observou um amigo jornalista), filtro de cores fortes (meio Almodóvar, referência do diretor desde seu primeiro filme) e uma trilha sonora fantasticamente indie. É tudo cool, feito para um público específico, mas que pode ser olhado sob outro contexto para quem não se ‘encaixa’ no perfil proposto no filme. Ok, algumas pessoas podem reclamar que o roteiro não tem muita profundidade, mas isso não chega a ser um defeito porque boa parte dessa geração que está ai é rasa mesmo. O curioso é ver como a piada ”solteiro sim, sozinho nunca’  se repete em algumas cenas, porque sexo não tem nada a ver com amor, e isso a trama deixa muito claro.

Amores Imaginários pode não ir fundo nas relações, mas quem é que quer ir fundo aos 21 anos? O filme está ali para ser absorvido pelos seguidores de Dolan e apreciado por um ou outro como eu, que olha para trás e pensa ‘É, eu também já fui assim.”  Atire o primeiro sapato vintage quem nunca se apaixonou por alguém escroto e não foi correspondido. Esse é o recado de Xavier Dolan para todo mundo, independente de sexo, raça, religião e guarda-roupa.

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