Mostra de SP 2010 – 13° dia

novembro 3, 2010

por Janaina Pereira

 

Se você tiver que escolher um único filme para assistir na 34ª edição da Mostra Inernacional de Cinema de São Paulo, sugiro Quando Partimos (Die Fremde), exibido no Festival de Berlim deste ano e representante da Alemanha na corrida para o Oscar 2011 de Melhor Filme Estrangeiro.  Com uma história pesada e dramática, o longa com direção e roteiro da austríaca Feo Aladag trata de família, cultura, religião, etnia e a busca por independência do ponto de vista de uma mulher que precisa enfrentar a submissão familiar.

A trama começa pelo final: dois adultos e um menino caminham por uma rua sem trocarem palavras. De repente, o rapaz para e aponta a arma para a mulher, que vira de frente para ele. Corta. O mesmo rapaz corre desesperadamente e entra em um ônibus. Suando muito e tentando recuperar o fôlego, algo lhe chama a atenção fora do ônibus. Corta. A mulher, uma alemã de origem turca chamada Umay (Sibel Kekilli) aparece deitada, prestes a fazer um aborto. Ela volta para casa em Istambul, e enfrenta Kemal (Ufuk Bayraktar) um marido bruto e ríspido com o filho, Cem (Nizam Schiller). Farta da vida que leva junto ao marido, Umay decide viajar até a Alemanha para buscar abrigo na casa dos pais, mas terá que enfrentar uma série de problemas, preconceitos e violência em sua busca por liberdade.

Produções que tratam de religião sempre rendem polêmica. Difícil para um ocidental entender, por exemplo, como a corajosa Umay, mesmo sendo renegada por todos, insiste em ter contato com a família. É preciso, então, esclarecer algumas coisas: na cultura islâmica, o respeito pelo pai é supremo e uma mulher divorciada é banida da família. Estes dois pontos são importantes para esclarecer o porquê de Umay insistir tanto no contato familiar.

Também é bom esclarecer que nem todas as mulheres sofrem humilhações a violência – física e psicológica – como o filme relata mas muitas, como Umay, tentam se rebelar e não conseguem. Na cultura islâmica a mulher não tem poder de decisão. O respeito e a dignidade são coisas de homem. O filme não alivia neste sentido, mostrando uma sequência de brutalidade e absurdos. O impacto é forte: ninguém sai impune da exibição de Quando Partimos.

Os espectadores mais atentos devem reconhecer a protagonista deste filme. A espetacular atriz Sibel Kekilli é também a intérprete principal do premiado Gegen die Wand, um dos filmes mais conhecidos do brilhante diretor alemão de origem turca Fatih Akin. Aos 30 anos, é uma das grandes novas intérpretes do cinema alemão. Sibel é o destaque, mas todo o elenco está muito bem no filme.

O grande acerto do longa é mostrar que a realidade da protagonista seria outra se ela tivesse nascido homem. De um modo geral, em um mundo machista, isso funciona igual para todas nós. Mas, em particular no mundo islâmico, isso soa bem pior.

Quando Partimos é uma reflexão sobre a luta da mulher muçulmana por respeito e dignidade. Ainda que elas paguem um preço alto por isso, é importante pensar em várias questões: a violência contra mulher não pode ser aceita; uma mulher não é inferior a um homem por causa de seu sexo; e nenhuma mulher deve se submeter aos caprichos de um homem, de sua família, de sua cultura ou da sociedade.

Que todas as mulheres do mundo entendam desde já que submissão não é o caminho para a felicidade de ninguém. E o resultado dessa submissão é, pura e simplesmente, um poço de ignorância.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: