Avatar – edição especial

outubro 13, 2010

por Pedro Costa de Biasi

Se alguma coisa chama a atenção na edição estendida de Avatar, é o fato de que uma das cenas adicionadas ao relançamento é uma grande seqüência de ação: a caça aos gnulopes (com um acento, “gnúlope”, soa melhor). O filme nunca foi escravo da adrenalina por ter muito mais a oferecer além de coreografias e dublês com o padrão Hollywood de qualidade. O selo Hollywood de grandiosidade, por outro lado, está em cada fotograma da superprodução, e não no sentido pejorativo.
 
A obra de James Cameron, como se pode imaginar, é espetaculosa. Mais do que isso, é um exercício bastante autoconsciente sobre a ideia de deslumbramento com um universo ao qual se tem acesso através do cinema. Foi conhecendo esses mecanismos de descoberta e envolvimento que o filme conquistou seu público. Assim, não é só nas grandiosas batalhas ou nas belíssimas paisagens de Pandora que Cameron encontra meios de maravilhar.
 
Cenas como o ritual para salvar certo personagem, com uma tribo inteira de Na’vi conectada pelas tranças às raízes da Árvore das Almas (Vitraya Ramunong), une um drama mundano a um ritual fantástico, extraindo o máximo de ambos elementos, como uma experiência antropológica ficcional. No fim, muito do que os omaticaya (a tribo principal da trama) fazem e vivem, seus hábitos e suas características biológicas como um todo formam uma experiência genuinamente espetacular.
 
Com invejável coerência, o cineasta também consegue encontrar belos momentos nos gestos humanos. A recusa de Jake (Sam Worthington) em deixar Grace (Sigourney Weaver) ajudá-lo com as pernas ressoa na cena em que a cientista, ao encontrá-lo dormindo depois de dias cansativos, o acolhe na cama. Outro exemplo é quando o ex-fuzileiro vê um galão tombando e o arruma deitado, sabendo por experiência que tudo que está de pé tem maior chance de cair. São pequenos momentos, quase imperceptíveis, que mostram que o diretor não estava apenas atento ao espetáculo.
 
Chega a surpreender que com tamanho controle sobre as pequenas e grandes coisas do filme, o diretor erre a mão exatamente nas fundamentais – roteiro, narrativa, diálogos, dramaturgia e personagens. A bandidagem se limita a frases de efeito e à defesa automática de seus interesses. Isso não é um problema, só passa a ser quando algumas gotas de consciência respingam em gente que antes era um monumento de frieza, como se o Cel. Quaritch (Stephen Lang) fosse o máximo de unidimensionalidade à qual o filme se permite. O intuito real é vilanizar todo e qualquer opositor dos Na’vi.
 
E não é só isso: os primeiros quinze, vinte ou trinta minutos são uma sucessão de erros que vão desde a montagem medonha de acontecimentos e a péssima narração em off de Jake – que se repetirá em momentos convenientes com efeito quase tão ruim – , até as relações frouxíssimas entre os personagens, como o encontro com o avatar sorridente da antipática Grace. Neste quesito, poucos avanços serão feitos ao longo da projeção, e o mesmo deve ser dito dos diálogos, que são duas vezes piores do que pareciam antes.
 
O que segura a gororoba do roteiro são as menções ao processo de adentrar outra realidade. Os robôs AMP dão novas perspectivas à mobilidade dos soldados, os avatares permitem o conhecimento da cultura Na’vi, as árvores Utral Aymokriyä guardam em si as vozes e memórias de vidas passadas, só para citar alguns dos paralelos. Em Avatar, não é só se sentar no cinema e se esquecer da vida. A melhor parte é reconhecer essa transferência de percepções tanto no roteiro quanto na sessão do filme – em 3D, claro, mas mais por ter de usar um acessório de “inserção” do que pela tecnologia em si.
 
James Cameron não acredita que o Cinema é apenas mentira escapista. Para ele, aquelas duas horas e quarenta minutos (correção: e cinqüenta) podem permitir uma viagem real na medida em que o espectador se coloca no lugar do protagonista e descobre um novo mundo. É por causa da crença nessa magia que ele cria algo além de um blockbuster descartável mesmo quando cai em erros típicos.

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