Mostra de SP – 10º dia

outubro 31, 2010

por Janaina Pereira

 

Depois de causar furor em Veneza, o francês Vênus Negra (Venus Noire), do cineasta tunisiano radicado na França Abdellatif Kechiche, já pode ser apreciado pelo público da 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Chocante, porém necessário,  a produção conta, em 168 minutos, a história de uma mulher africana humilhada devido a seus genitais deformados.

Kechiche, autor de O Segredo do Grão, dirige a trama sem perder o foco nessa mulher exuberante, que no fim do século XVIII viajou da África à Europa perseguindo o sonho da fama como bailarina, mas que acabou vendida e exposta como um animal, estudada devido a seu corpo e genitália estranhos para os padrões europeus.

A triste e real história da sul-africana Saartjie Barman, símbolo da segregação racial, é protagonizada com brilhantismo pela cubana Yahima Torres (na foto com o diretor Abdellatif Kechiche), que chegou a engordar 13 quilos para fazer o papel. Aos 30 anos, ela estreia como atriz em um papel forte e difícil, aparecendo nua sem reservas. O curioso é que Yahima, que conheci pessoalmente no Festival de Veneza, é belíssima, sorridente e carismática, contrastando com a lágrima no olhar que ela carrega ao longo de Vênus Negra. A atriz sustenta o filme com sua expressão de melancolia e angústia, em uma das mais poderosas performances do cinema recente.

O longa é daqueles que incomoda, com repetidas cenas do espetáculo montado para exibir Saartjie em Londres e Paris, mas Kechiche consegue envolver o espectador. É o típico filme que faz a gente parar para pensar em que mundo vivemos e como o ser humano consegue ser abominável.

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Mostra de SP – 9° dia

outubro 30, 2010

por Janaina Pereira

 

Um dos filmes mais esperados na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo já está em exibição no evento, em sessões disputadas. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes este ano, Tio Bonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (que foi exibido no Festival do Rio em apenas duas sessões) é mais um exemplar da peculiar estrutura narrativa, ritmo e trabalho de câmera que marcam o trabalho do diretor Apichatpong Weerasethakul.

Acompanhando um homem à beira da morte que se recolhe com sua família em uma fazenda de floresta tropical no nordeste da Tailândia, o filme é do tipo que pede ao espectador que embarque na experiência sensorial e estética proposta pelo cineasta. Nerm todo mundo vai gostar – eu, particularmente, achei a história muito devagar, chata e cansativa. Mas há quem goste muito, como o diretor Tim Burton (Alice, Peixe Grande) que era o presidente do juri em Cannes. O que comprova aquele velho ditado: “gosto não se discute, lamenta-se.”

Outro premiado em Cannes, Turnê (foto), é o terceiro longa-metragem dirigido pelo ator Mathieu Amalric (O Escafandro e a Borboleta), que levou no festival francês o prêmio de melhor direção. Na trama, Joachim (Amalric), ex-produtor de televisão francês, vive de agenciar espetáculos de neoburlesco. Na turnê do título, ele viaja pela França com um elenco de dançarinas dos EUA, desesperado por não ter achado ainda um lugar para elas se apresentarem em Paris, o final da tour.

Com números musicais que beiram a bizarrice, Turnê não chega a ser ruim, mas é preciso, literalmente, embarcar na história para conseguir entendê-la. Quem consegue, adora; se não conseguir, vai achar o filme chatíssimo. Confesso que não embarquei muito na trama e estou tentando entender até agora o prêmio de direção para Amalric – um excelente ator, mas que como diretor não acrescentou nada em sua cinematografia.

O filme Outubro, de Daniel e Diego Vega, co-produção Peru, Espanha e Venezuela, também levou prêmio em Cannes – o especial do júri na mostra Um certo olhar, para jovens cineastas. A trama acompanha Clemente, um penhorista pouco comunicativo e a nova esperança amorosa de Sofia, vizinha solteira, devota em Outubro ao culto do Senhor dos Milagres.

A relação deles começa quando Clemente descobre uma menina recém-nascida, fruto da sua relação com uma prostituta que desapareceu. Enquanto ele procura a mãe da pequenina, Sofia ocupa-se dela e de fazer a limpeza na casa do penhorista. Com a chegada destes dois seres na sua vida, Clemente terá ocasião de repensar às suas relações com os outros.

O grande mérito de Outubro é não fazer julgamento das pessoas e apresentar, sem pressa, o cotidiano delas. Vale ressaltar que, muitas vezes, a gente espera uma mudança brusca no roteiro de um filme, mas quando ela não aparece, também é benvinda. Portanto, atenção neste filme, aparentemente muito simples, mas que aborda que às vezes o exterior quer que a gente mude… mas essa não é a nossa vontade.

Também vencedor de Cannes este ano com o grande prêmio do júri, Homens e Deuses teve sua primeira sessão cancelada, na noite desta sexta, dia 29. A cópia ainda não chegou a São Paulo e as demais sessões programadas do filme ainda não foram confirmadas. De qualquer modo, o longa de Xavier Beauvois, que foi exibido recentemente no Festival do Rio, tem distribuição em circuito garantida para fevereiro de 2011, pela Imovision. Ele é o representante francês ao Oscar de filme estrangeiro, por tanto vale a pena uma boa olhada neste elogiado trabalho.

Mostra de SP – 8º dia

outubro 29, 2010

por Janaina Pereira

 

A 34ª Mostra Internacional de Cinema oferece filmes para todos os gostos. Aqueles que gostam de blockbusters não devem se decepcionar com Atração Perigosa (The Town), segundo trabalho do ator Ben Affleck como diretor. Exibido fora de competição no Festival de Veneza, e uma das atrações do Festival do Rio, o longa até que distrai, embora se perca em seu final piegas e sem graça.

Todo ano, mais de 300 assaltos a banco acontecem em Boston. E grande parte dos assaltantes mora no pequeno bairro de Charlestown. Um deles é Doug MacRay (Ben Affleck), líder de um grupo de assaltantes de banco que se orgulham de roubar tudo o que querem e sair impunes.

 A única família que Doug conhece são seus parceiros de crime, especialmente Jem (Jeremy Renner), que apesar do seu temperamento perigoso e explosivo, é alguém que Doug pode chamar de irmão. Mas tudo muda no último trabalho da gangue, quando fazem a gerente de banco Claire Keesey (Rebecca Hall) de refém.

Affleck se sai melhor como diretor do que como ator, e tenta imprimir algum estilo como cineasta, mas ainda é muito cedo dizer que ele conseguirá ter sucesso por trás das câmeras. Em Atração Perigosa, pelo menos, ele tenta fazer algo diferente, embora não consiga atingir este intuito por completo.

Para quem busca filmes ‘menores’, uma boa pedida é Um dia a menos, documentário mexicano de Dariela Ludlow sobre um casal de idosos que aguarda ansiosamente a chegada dos filhos a cada feriado. E os filhos só aparecem no final do ano.

Quando o feriado termina, os filhos de Eme e Carmen terminam sua visita e vão embora. O velho casal, que entrou na casa dos 90 anos, começa a contar os dias até o próximo feriado, quando a família voltará a visitá-los. Para Dona Carmen, os feriados demoram a chegar. Ela contempla a quietude de seu apartamento quando só os dois estão lá. E os díálogos entre eles, com as características de quem está perdendo a memória e a vida, são a melhor coisa do filme.

Impossível não se emocionar e não lembrar de um pai, uma mãe, um avó ou uma avó que está ou esteve entre nós. No fundo, sabermos que é assim que vamos ficar é o que causa tanta comoção. Preparem os lenços porque as lágrimas são garantidas.

por Janaina Pereira

 

Motivados pelas técnicas do Teatro da Crueldade do dramaturgo francês Antonin Artaud e por um singular professor, três estudantes de teatro começam a experimentar vivências ao limite numa busca por atingir a perfeição. Misturando realidade e ficção, o filme Drama, de Matías Lira, é muito mais do que parece inicialmente.

Com vários anos de experiência dirigindo programas de televisão, Lira estreia com Drama nos cinemas, marcando presença como mais um jovem diretor chileno a tentar conquistar o mundo. Em entrevista ao Cinemmarte, o diretor, que está em São Paulo participando da Mostra Internacional de Cinema, revela como foi fazer seu primeiro filme.

Cinemmarte- Como surgiu a ideia de filmar Drama?

Matías Lira – Procurei um tema que para mim fora recorrente, eu desejava trabalhar algo que me identificasse. O filme tem 90% de realidade, de coisas que vi e vivi, e 10% de ficção.

Cinemmarte – E por que usar o teatro como pano de fundo da história?

Matías Lira – Como já fui ator de teatro, peguei esse universo. Além disso, adoro filmes que usam o teatro como tema central. Um dos meus preferidos é O Estado das Coisas, do Wim Wenders. Então para fazer meu primeiro filme tinha que ser algo que me encantasse, e o teatro me encanta.
Cinemmarte – Você usa o Teatro da Crueldade do dramaturgo francês Antonin Artaud como ponto de partida da trama. As cenas de ensaio a partir dessa técnica são bastante angustiantes, com os atores passando por momentos exaustivos. O que vemos no filme são técnicas reais ou você exagerou?

Matías Lira – Queria retratar a obsessão destes jovens estudantes por querer ser os melhores, por procurar sua identidade, mas no fundo devem compreender que não existem as pressões e nada é tão importante como a saúde física e psicológica. O que eu queria passar é que não é necessário viver no limite para atingir o sucesso. Em qualquer carreira, os jovens, entre 18 e 23 anos, acham que se não fizerem sucesso nesta época, são fracassados. E isso não é verdade. Mesmo no jornalismo é assim, o jovem jornalista sente essa pressão. Todo mundo tem crise nessa idade, a gente acha que se não conseguir algo vai fracassar para o resto da vida. Então coloquei as cenas de ensaio de teatro mostrando como eles sofrem para atingir o sucesso, quando, na verdade, são inseguros e não precisam fazer sucesso tão jovens.

Cinemmarte –Na realidade o teatro é pano de fundo para um tema recorrente no cinema sulamericano, a ditadura.

Matías Lira- Sim, mais do que retratar o interior das escolas quis mostrar do que muita da gente relacionada com as artes cênicas está ao mesmo tempo muito conectada com a realidade. E mostrar isso e outras coisas no filme me causaram problemas com a censura no Chile.

Cinemmarte – Que problemas?

Matías Lira – Os problemas já começaram no cartaz, que mostra os três protagonistas juntos, na cama, e remete a uma cena do filme. No Chile o cartaz saiu com uma tarja no rosto dos personagens, então não se vê que são dois homens e uma mulher. Além disso Drama faz críticas à igreja, e no Chile há muios casos de padres envolvidos com pedofilia. Falta diálogo no país, e essas coisas continuam acontecendo por causa desta falta de diálogo.

Cinemmarte – Apesar dessa censura, o filme foi bem recebido pelo público no Chile, o que você acha disso?

Matías Lira- Acho que a identificação vem de que, apesar dos personagens principais serem atores, o filme trata de atuarmos na vida. É esta reflexão que deve ser feita e acho que isso tem atraido as pessoas.

Mostra de SP – 7º dia

outubro 28, 2010

por Janaina Pereira

 

Os anos passam mais uma ferida continua bem aberta na América do Sul: a ditadura ainda é exposta pelo cinema com todas as suas mazelas. Na 34ª edição da Mostra de São Paulo dois filmes se destacam com este assunto – o argentino O olho Invisível e o chileno Drama.

Em O Olho invisível (La mirada invisible), de Diego Lerman (exibido no Festival do Rio com um título bem melhor, O olhar Invisivel), a personagem central, Maria Teresa, é contratada como assistente de um colégio de elite em Buenos Aires. Enquanto a Argentina sofre os últimos momentos da ditadura militar, a direção da escola procura manter uma rotina de ensino tradicional e os alunos à parte da realidade do país.

O supervisor chefe vê em Maria Teresa a funcionária que esperava e a instrui para ser o olho que tudo vê. Ela incorpora então o papel da vigilante deste mundo restrito e rigoroso, zelando avidamente pelo cumprimento das lei.  O final extremamente perturbador do filme causa impacto, deixando claro que ainda há muita história sobre a ditadura argentina para ser contada. Vale dar uma olhada ainda no romance “Ciencias Morales”, de Martín Kohan, que serviu de inspiração para O olho invisível.

Usando o teatro como aparente tema central, o longa chileno Drama, de Matias Lira, mostra três jovens que confundem seus personagens no palco com a vida real. Um deles, Mateo, é atormentado pela raiva que sente do pai e o desaparecimento de sua mãe. Desaparecimento este que, já no final do filme, vamos saber que está relacionado com a aterrorizante ascensão de Pinochet ao poder no Chile.

O interessente neste caso é que Drama mostra a ditadura calando os artistas e acabando com a liberdade de expressão, o que não difere dos dias atuais no Chile, onde ainda é preciso lutar para se expressar – o cartaz do longa foi censurado no país, como conta, a seguir, em entrevista para o Cinemmarte, o diretor Matias Lira.

E se há uma coisa que o cinema não faz, definitivamente, é colocar os panos quentes na ditadura. Ainda bem.

Mostra de SP – 6º dia

outubro 27, 2010

por Janaina Pereira

Nem só de brasileiros e argentinos vive o cinema latino-americano. Candidato da Venezuela ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Hermano (Irmão), de Marcel Raquin, aparece como um dos melhores filmes da 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

É verdade que o longa lembra, em alguns momentos, Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, muito mais pelo ambiente de favela do que por qualquer outra coisa. O tema do futebol, outro ponto do filme, pode fazer lembrar Linha de Passe, de Walter Salles. Mas, tirando qualquer semelhança com uma ou outra produção brasileira, Hermano consegue envolver o espectador com seu roteiro que vai crescendo e se encaminhando para um final que, por mais que a gente imagine o inevitável, ainda assim surpreende.

A produção venezuelana fala de dois irmãos de criação, Daniel e Julio. Ainda criança, Julio, nascido em uma favela de Caracas dominada pelo tráfico, encontra o bebê Daniel, e eles crescem unidos pelos sentimento de gratidão e paixão pelo futebol. Daniel, que tem o apelido de Gato, está longe de gozar algum prestígio na comunidade em que mora. É virgem, não é bom de briga e é ótimo aluno na escola. A malandragem sugerida por seu apelido, na verdade, é uma alusão a sua incrível habilidade com a bola nos pés.

Quando está de chuteiras, Gato se transforma em tudo aquilo que está longe de ser sem elas. Ele é a estrela do time do bairro, o Ceniza (cinza, em português) e, ao lado do irmão Julio, forma a melhor dupla de ataque da liga local. Porém, a violência é o que impera no ambiente em que vivem, e uma tragédia vai transformar para sempre a vida dos dois rapazes.

Se eu contar mais vou estragar toda a emoção que o filme é capaz de causar. A trama vai se desenrolando para mostrar a superação de um garoto que “renasció de la ceniza” mas a última sequência é o que torna Hermano realmente grandioso, e faz dele um filme inesquecível, graças, especialmente, ao olhar que o diretor Marcel Rasquin tem por tràs das câmeras. Ele consegue dar ritmo de videoclip às cenas de futebol, e faz drama sem ser piegas.

Não perca a oportunidade de ver esta produção durante a Mostra, pois a exibição em circuito nacional é incerta. A não ser que o Oscar olhe com  carinho para um filme que merece todos os aplausos.

Mostra de SP – 5º dia

outubro 26, 2010

por Janaina Pereira

Enquanto alguns países do mundo, como o Brasil, ainda discutem se oficializam ou não o casamento entre homossexuais, o cinema mostra que estas relações são como qualquer outra, cheias de altos e baixos, afetos e crises. Quase perfeita para abordar as novas relações familiares é a comédia Minhas mães e meu pai (The kids are all right), de Lisa Cholodenko, em cartaz na 34ª Mostra Internacional de São Paulo.

Digo quase perfeita porque, lá pelo final, o longa dá um derrapada grotesca ao excluir uma das partes dessas novas relações do contexto familiar. Essa derrapada, porém, não tira o brilho de um filme que acerta em tantas outras coisas, como a escolha do elenco e a naturalidade como o roteiro e a direção mostram uma relação homossexual.

A trama fira em torno das lésbicas Nic (Anette Benning) e Jules (Julianne Moore) que, aparentemente, têm um casamento estável. A relação vira de cabeça para baixo quando seus filhos, Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), resolvem trazer Paul (Mark Ruffalo), o pai, doador de esperma, para suas vidas. As coisas ficam complicadas quando Jules, sentindo que seu casamento está cada vez mais monótono, se envolve com Paul.

Sucesso nos Festivais de Berlim e do Rio, Minhas mães e meu pai tem como grande triunfo as ótimas atuações de seu elenco, apesar de Anette Benning estar um tanto quanto exagerada em algumas cenas. Julianne Moore, no entanto, compensa tudo, sempre com a versatilidade que faz dela uma das melhores atrizes americanas.

O roteiro também é muito feliz na forma como aborda a relação familiar onde duas lésbicas têm os mesmos problemas que qualquer casal heterossexual, e seus filhos são bem resolvidos mesmo tendo sido criados por duas mães. Ou seja, existe sim normalidade nas relações homossexuais, com direito a todas as alegrias e sofrimentos de uma relação heterossexual.

Se o final decepciona em parte, no todo Minhas mães e meu pai cumpre não só seu papel de divertir, como também de apresentar ao público está mais do que na hora da vida, mais uma vez, imitar a arte.

Mostra SP – 4º dia

outubro 25, 2010

por Janaina Pereira

Exibido em pré-estreia mundial no Festival de Veneza e com passagem de sucesso pelo Festival do Rio, o novo longa de Robert Rodriguez, Machete, está em exibição na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para quem procura diversão com dose certa de ironia, o filme é um prato cheio.

O agente federal e imigrante mexicano Machete (Danny Trejo) cai em uma armadilha arquitetada por seu arquiinimigo, o traficante de drogas Torres (Steven Seagal), que resulta na morte de sua esposa. Três anos depois, Machete, que agora trabalha como operário, aceita uma oferta do empresário Michael Booth (Jeff Fahey) para matar o Senador John McLaughin (Robert DeNiro), que quer expulsar todos os imigrantes ilegais do México.

Machete acaba sendo traído pelos homens de Booth e usado como bode expiatório em um plano arquitetado por McLaughin para retratar todos os mexicanos como terroristas e convencer a prefeitura a construir uma enorme muralha elétrica para mantê-los fora do país. A partir daí, o personagem bai em busca de sua vingança pessoal em sucessivas cenas que misturam, na mesma dose, tiros e sarcasmo.

Crítica ácida ao modo como os ‘chicanos’ são tratados nos EUA, o longa conta ainda no elenco com as beldades Jessica Alba, Michelle Rodriguez e Lindsay Lohan, que faz piada de si mesma. Sem jamais perder o humor, Rodriguez coloca os americanos sob a mira dos imigrantes e destila todo seu veneno em cenas divertidas e, claro, com muito sangue jorrando pela tela.

Não se deixe enganar pelo lado trash do filme. Machete é cult, é pop, mas, acima de tudo, coloca o dedo na ferida sobre quem está do lado de lá e de cá da fronteira EUA-México. E é clássico desde já.

Mostra de SP: 3º dia

outubro 24, 2010

por Janaina Pereira

Se você não viu a primeira sessão de Abel, estreia na direção do ator mexicano Diego Luna (E sua mãe também), não perca a chance de ver o filme ao longo da Mostra de São Paulo. Apesar de um pequeno – mas perdoável – deslize no final, Luna mostra a que veio em um difícil trabalho de estreia por trás das câmeras.

Não se deixe levar pela sinopse de Abel que anda circulando por ai. A história, na verdade, mostra um menino que, devido a ausência do pai, se isola do mundo. Depois de dois anos internado eum um hospital para tratamento psicológico, o pequeno Abel volta para casa e assume, de um jeito muito peculiar, a responsabilidade pela sua família.

Repleto de cenas delicadas – um suposto incesto é tratado com humor e compaixão – Abel é um filme que não faz drama em cima de um roteiro que tinah tudo para ser pesado. A atuação convincente do fofíssimo José Maria Yazpik é , em grande parte, responsável por isso. O pequenino ator dá conta do recado, encantando o espectador com o jeito adulto de ser de seu personagem.

É fácil acreditar que Diego Luna vai ser um grande diretor, se continuar tratando suas histórias com tanto carinho e, claro, se contar com roteiristas habilidosas como Augusto Mendonza, que fez de Abel um filme de trama singular.

Para quem gosta de humor pastelão, Uma mulher, uma arma e uma loja de macarrão, de Zhang Yimou (O clã das adagas voadoras) é, sem trocadilho, um prato cheio. Mas se você curte uma comédia de verdade – e se é fã, como eu, dos irmãos Coen, cuja obra Gosto de Sangue é a inspiração para este longa – passe longe dele.

Uma comédia de erros inspirada num filme dos irmãos Coen deveria ser, no mínimo, inteligente.  Mas não é. A versão chinesa é muito chata, e repete por 95 minutos a mesma piada. Uma perda de tempo, a não ser que você seja o tipo de espectador que se contente com (muito) pouco.

Fazer um personagem tropeçar ou matá-lo mil vezes na tentativa de arrancar uma risada é realmente falta de assunto. Melhor escolher outro filme.

Mostra de SP: 2º dia

outubro 23, 2010

por Janaina Pereira

 

Os paulistanos finalmente vão ver o que os cariocas já viram: o premiado Um lugar qualquer (Somewhere), de Sofia Coppola, é um dos destaques do primeiro final de semana da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Vencedor este ano do Leão de Ouro em Veneza, o longa aborda o dia-a-dia nada glamouroso de John, um ator de sucesso (Stephen Dorff, em atuação inspirada), que vive cercado pelo velho clichê sexo, drogas e rock´n roll. Um belo dia ele precisa passar mais tempo do que de costume com sua filha pré-adolescente (Elle Faming) e arrasta a menina para sua rotina de hotel em hotel.

Não esperem diálogos profundos ou reviravoltas em Um lugar qualquer. O filme se resume aos 15 minutos iniciais, e depois fica se repetindo ao longo de mais de uma hora. Entre silêncios e uma boa trilha sonora, a diretora Sofia Coppola repete e repete a mesma cena mil vezes, reforçando o que todo mundo já tinha percebido: John é um cara extremamente infeliz. A entrada de sua filha na sua rotina patética poderia provocar alguma mudança – e ela até vem, sutilmente, como a própria Sofia é. Autobiográfico a diretora garante que o filme não é, mas assume que fez algo muito pessoal.

O quarto longa da filha de Francis Ford Coppola vai agradar tanto quanto desagradar – foi assim em Veneza e no Rio – mas posso afirmar que o filme é um resumo da personalidade de Sofia Coppola, uma mulher doce, tímida, sutil e com um ‘quê’ de melancolia no olhar. E é este olhar melancólico que Um lugar qualquer transborda do começo ao fim.

Melancolia também é o forte de Cópia Fiel (Copia Conforme), do iraniano Abbas Kiarostami, que deu a Juliette Binoche o prêmio de melhor atriz em Cannes este ano. Ela interpreta uma dona de ateliê que vive com o filho na Itália e acaba se envolvendo com um escritor inglês, de passagem pela Toscana para lançar um livro.

O escritor James Miller (o barítono William Shimell em seu primeiro papel como ator) questiona a originalidade das obras de arte e o valor das cópias, e desperta a atenção de uma mulher (Juliette, mais linda do que nunca). Ao lonfo de um dia eles vão se conhecendo e a relação dos dois, tão íntima quanto perturbadora, se desenvolve entre closes e sequências inteiras de diálogos ásperos. Em uma aula de direção, Abbas Kiarostami envolve o espectador na trama até dar uma rasteira que deixa o mais atento cinéfilo boquiaberto.

Disparado um dos melhores filmes do ano, e certamente o melhor a ser exibido na Mostra, Cópia Fiel pode ser resumido pelo olhar vulnerável de Juliette Binoche, que atravessa todo o filme expondo a fragilidade feminina diante do amor – original ou falsificado, aí fica a critério de cada um decidir. Escrever mais é estragar a surpresa de um roteiro inspirado.

A falta de inspiração, no entanto, parece ter atingido o cineasta japonês Hirokazu Kore-eda. Depois do brilhante Seguindo em frente, exibido no Festival do Rio e na Mostra do ano passado, Kore-eda chegou a Mostra deste ano cercado de expectativas. Seu novo trabalho, Air Doll, lembra muito o episódio de Michel Gondry em Tokyo, só que invertido. Uma boneca inflável, companheira de um homem solitário, ganha vida durante o dia e explora o mundo fora do apartamento em que vive.

Exibido em Cannes, o filme é longo demais (125 minutos) para uma história sem muitas possibilidades. Ok, o ser humano está cada vez mas só, e ver um homem se comunicando com uma boneca inflável – sim, porque ele não a usa apenas para o sexo, ela também é sua companheira – é deprimente. Mas o filme vai além, com muitas cenas desnecessárias que tiram qualquer reflexão sobre o tema. Fica aquela sensação de que o filme devia ter acabado muito antes, sempre precisar se explicar tanto.

Uma pena, porque Kore-eda é um dos mais brilhantes diretores japoneses
da atualidade. Fica para a próxima.