O que Veneza não viu

setembro 12, 2010

Por Janaina Pereira, de Veneza

O Festival de Cinema de Veneza chegou ao fim neste sábado, dia 11, com a premiação de Somewhere, de Sofia Coppola (na foto em entrevista à imprensa após a premiação). Desde sua primeira exibição, no terceiro dia do Festival, o longa era apontado como favorito, e o júri presidido pelo cineasta americano Quentin Tarantino confirmou o que muita gente esperava, mas não admitia: um filme para grande plateia acabou vencendo.

Mas sempre é possível ver um festival de cinema por outro ângulo. Veneza trouxe excelentes produções que passaram desapercebidas e merecem atenção daqueles que gostam de um bom filme e, especialmente, de produções que fujam da mesmice.

O alemão Drei, de Tom Tykwer, foi um desses casos. A história de um triângulo amoroso nada convencional – um casal se relaciona com um homem sem saber da traição mútua – contada de forma delicada e com bom humor, merece uma olhada. Apesar das inúmeras cenas de sexo, o diretor Tykwer brinca com as imagens sem apelar, mostrando que é possível ter bom gosto mesmo quando o assunto é polêmico.

Outro filme interessante é Road to Nowhere, de Monte Hellman. No melhor estilo David Lynch, o diretor conta a história de um jovem cineasta que se envolve com a atriz principal de seu filme que, talvez, não seja exatamente o que – e quem – ele pensa. E o velho “filme dentro do filme” mas que funciona graças à habilidade da câmera de Hellman.

Também vale uma olhada no épico italiano Noi Credevamo, de Mario Martone. Embora o filme exiga muita paciência para o cinéfilo – são mais de três horas de projeção – é uma obra imprencidivel para quem gosta de filmes históricos. Martone narra a unificação italiana de modo grandioso como a própria história do pais, fazendo uma produção que já nasceu como clássica. O próprio diretor afirmou em Veneza que se trata de um filme importante para a Itália, especialmente em um ano que o pais completa 150 anos da unificação.

Embora não tenha ganho prêmios, a Itália teve bons filmes exibidos no festival, nem sempre vistos com a atenção merecida. Outro longa italiano imperdível é Sorelle Mai, novo trabalho de Marco Bellochio, o diretor de Vincere, atualmente em cartaz no Brasil. Mas, ao contrário de Vincere, dessa vez Bellochio faz um filme minimalista, narrando a história de um jovem cineasta em crise e sua irmã que tenta ser atriz e ainda precisa cuidar da filha adolescente.

Imperdível também é o francês Venus Noire, (“Vênus Negra”, em tradução livre) do cineasta tunisiano radicado na França Abdellatif Kechiche. Chocante, porém necessário,  conta a história de uma mulher africana, interpretada pela brilhante atriz cubana Yahima Torres, humilhada devido a seus genitais deformados.

A triste e real história da sul-africana Saartjie Barman, símbolo da segregação racial, é protagonizada com brilhantismo por Yahima, que chegou a engordar 13 quilos para fazer o papel. Aos 30 anos, ela estreia como atriz em um papel forte e difícil, aparecendo nua sem reservas .

Kechiche, autor de O Segredo do Grão, que competiu em Veneza no ano de 2007, saiu do Festival sem o devido reconhecido, mas vale a pena conferir  a história dessa mulher exuberante, que no fim do século XVIII viajou da África à Europa perseguindo o sonho da fama como bailarina, mas que acabou vendida e exposta como um animal, estudada devido a seu corpo e genitália estranhos para os padrões europeus.

O longa é daqueles que incomoda, com repetidas cenas do espetáculo  montado para exibir Saartjie em Londres e Paris, mas Kechiche consegue envolver o espectador. É o típico filme que faz a gente parar para pensar em que mundo vivemos.

O mexicano Martha é outro filme que tem uma mulher como foco da trama. Dessa vez a personagem é uma senhora de 75 anos que perde o emprego de toda sua vida. Ao ser substituída por um computador ela fica desolada e decide se suicidar. Dirigido pelo jovem Marcelino Islas Hernandez, de apenas 26 anos, o longa foi o único representante do México na Semana de Críticos do Festival.

Por fim, a última dica do que Veneza viu – ou não viu como deveria ver – é Post Mortem, do chileno Pablo Larrain. Bastante comentado por aqui, o longa saiu de mãos abanando, sem nenhum prêmio, o que fez ser apontado como o mais injustiçado do Festival.

Larrain faz uma autópsia da morte de Salvador Alende do ponto de vista de um homem solitário que acaba, sem querer, se envolvendo com um dos momentos mais cruéis do Chile: a morte de Alende e a ascensão de Pinochet ao poder.

Opções de filmes interessantes não faltam, agora é esperar que eles cheguem ao Brasil, em Festivais ou em circuito, para que o público possa apreciar o que Veneza esnobou.

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