A Epidemia

agosto 25, 2010

por Pedro Costa de Biasi

Na cidadezinha de Ogden Marsh (literalmente, “pântano de Ogden”), um vírus misterioso começa a transformar as pessoas em loucos agressivos. Esta é a trama, mas não é o centro de A Epidemia, já em cartaz. O enfoque está no xerife David Dutten (Timothy Olyphant), sua esposa Judy (Radha Mitchell) e seu assistente Russell (Joe Anderson). Enquanto veem sua comunidade se tornar um inferno, tentam escapar com vida e sem serem contaminados, além de buscar as respostas sobre o que causou a tragédia.

Os tropeços do filme são quase todos derivados das convenções do gênero. Breck Eisner tem meios-momentos como diretor de suspense, e há pelo menos um “BU!” a cada 10 minutos, só para irritar, mesmo. Chega a ser risível como o roteiro repete a fórmula (e o timing!) para cenas de perigo, com um personagem sempre surgindo do nada e salvando o outro. A trilha sonora traz acordes didáticos para “intensificar” a tensão, e é tão desinteressante que poderia ser tranquilamente retirada do produto final.

Este é um caso de incompetência convencional e individual, já que Mark Isham também não faz nada de muito memorável ao piano quando o roteiro pede por mais delicadeza. Por outro lado, é notável que haja tanto espaço para cenas dramáticas em detrimento de correria, escândalo e sangue. Os erros grosseiros das sequências de terror e suspense parecem até má vontade de Eisner, que se sai muito melhor quando precisa desenvolver as relações entre os personagens.

Em vez do romance vazio impulsionado pela intensidade da aventura/sobrevivência, temos um casamento firme, amor de verdade. David e Judy estão esperando um filho, ainda por cima, encorpando a ligação afetiva e a luta pela vida. O investimento em Russell, em um papel que poderia ter virado alívio cômico, também demonstra sensibilidade do roteiro. Além disso, a humanidade dos infectados é descartada rapidamente, e não para intensificar o gore, mas sim para voltar a atenção aos dramas individuais.

Tudo isso no contexto macro de uma cidade minúscula que representa literalmente toda a vida para os personagens, e que está a caminho de virar um caos. Mesmo que mostre apenas esse espaço e sua destruição pelo vírus, não há personagens relevantes de fora para mostrar outra existência: aquilo é o fim do mundo para os sobreviventes. Nessas circunstâncias, é perfeitamente crível quando David diz “Se você quiser sentar e morrer, eu vou sentar e morrer ao seu lado”.

Não que isso tenha algo a ver com a interpretação de Olyphant, que constrange em quase todas as cenas com sua postura de herói de filme B. Não que não seja um filme B, mas a irreverência não funciona quando a construção dramática é valorizada. O que mais chama atenção é Anderson, especialmente nos momentos em que está mais vulnerável, expondo a intimidade de Russell. Mitchell faz um trabalho correto.

Como uma cereja no bolo, Eisner se esmera nas composições, criando imagens surpreendentemente belas (a conversa dos Dutten na varanda), pitorescas (a mãe em frente ao veículo de colheita ligado) e até cômicas (a saída do lava rápido). Ele não hesita em filmar fora do padrão, tomando distância dos atores ou criando planos que chamam a atenção para si mesmos, coisa rara .

É um filme que, na verdade, nem precisava ser terror. E seria muito, muito melhor se simplesmente não tentasse.

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