Nosso Lar

agosto 31, 2010

por Pedro Costa de Biasi


Falar que Nosso Lar – estreia desta sexta, dia 4, baseado no mais popular livro do médium Chico Xavier –  é moralista, doutrinador e antiquado é um jeito de perder outras questões de vista. Sim, os três adjetivos servem mais ou menos bem para descrever o filme de Wagner de Assis, mas não é construtivo se limitar a entender a proposta. O moralismo não é mais ou menos pronunciado que o normal só porque a temática é religiosa, e o roteiro é honesto em sua abordagem ideológica. Esta, por outro lado, se confunde com outro processo que se pode aproveitar sem nenhum laço doutrinário.
 
Mas, primeiro, a história: André Luiz (Renato Prieto) morre. Seu espírito desperta no Umbral, uma paisagem desolada e escura, repleta de almas desesperadas. Depois de muito sofrimento, ele faz uma oração e é resgatado por moradores do Nosso Lar, uma cidade espiritual situada 50 km acima da Terra. Lá ele conhece a existência após a vida e o funcionamento da sociedade das almas.
 
Sem a necessidade alguma de se identificar com o pensamento espírita, o espectador pode abordar a história como quem conhece um universo fantástico. Por mais que seja uma crença, Nosso Lar é um território que ninguém pode alcançar, a não ser depois de abrir mão do corpo, da boca que relata e das mãos que documentam. É uma mistura homogênea e ambígua entre verdade inalcançável e ficção.
 
Pode-se argumentar que a apropriação da crença como fantasia e vice-versa também ocorre em filmes como Irmãos de Fé e Maria – Mãe do Filho de Deus, mas há diferenças. Enquanto as parábolas cristãs se firmam no passado mesmo quando querem tratar do presente, Nosso Lar abarca presente e futuro. A descoberta da cidade das almas só ocorre após a vida, e o aprendizado é constante, sempre direcionado para frente. Até a arquitetura futurista passa a noção de avanço e desapego ao que já passou.
 
A inexistência física afrouxa os laços com a realidade em que vivemos, e até mesmo com a História ou com o futuro de nossa vivência. Não importa o que foi real na vida terrena, e sim o que será real depois dela – ou mesmo entre uma encarnação e outra. Quando Assis escolhe manter a trama nos anos 30 e 40, é apenas para criar uma interessante tensão envolvendo a II Guerra Mundial.
 
Infelizmente, quando a dramaturgia demanda um cruzamento entre a vida mundana e a espiritual, o roteiro de Assis se desequilibra. André Luiz é chamado de “suicida inconsciente”, por causa de seus hábitos degradantes, mas esse conceito é espiritual. Dessa forma, nunca se explica a ausência de orações dos familiares após sua morte, uma vez que tudo que o filme mostra são cenas de família-margarina.
 
Embora carismático, Prieto também atrapalha na construção do personagem, pois às vezes lhe falta a intensidade para transformar um sorriso ou um choro no gesto forte que deveria ser. O razoável elenco oferece uma atuação vibrante, de Rosanne Mulholland como Eloisa, mas sua personalidade desafiadora acaba sufocada por truques de roteiro baratos.
 
Todos são vítimas daquela encenação travada que caracteriza muitos filmes brasileiros. Assis ainda trabalha mal os embates ideológicos, não raro saltando para conciliações apressadas que não fazem jus ao crescimento de André – e até exagerando o impacto de questionamentos rasos de Eloisa. Resta o bom uso da trilha do sempre ótimo Phillip Glass, que constrói o deslumbramento e a proposta empreendedora do mundo espiritual.
 
Em vez de agregar valores negativos ao vilão e positivos ao herói, no caso de Nosso Lar, os valores dentro de cada um fazem esse papel. Tirando essa diferença, a produção pode ser classificada como uma mediana aventura de fantasia: um filme cheio de efeitos visuais ambientado em uma realidade alternativa de onde brotam tensões, mistérios e lições de vida.

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(REC)²

agosto 30, 2010

 

por Pedro Costa de Biasi

 

[REC]² – estreia desta sexta, dia 3 – começa exatamente onde o primeiro terminou. Ó céus. Por algum motivo, a continuação dirigida pelos mesmos Paco Plaza e Jaume Balagueró abre com a tomada final do primeiro, em que Ângela Vidal (Manuela Velasco) é puxada para a escuridão. Porém, a linha narrativa é outra. Ou melhor, são outras: um time de policiais adentra o prédio em quarentena com um especialista de saúde (Jonathan Mellor) e um trio de adolescentes enxeridos vai decide fazer algo emocionante com sua câmera de vídeo.
 
Também a frase final de [REC], que já era repetida de um momento anterior no próprio filme, reaparece aqui: “Graba lo todo, Pablo. Por tu puta madre”. A “desculpa” para a gravação contínua dos eventos no apartamento era boa, e continua boa, mas os roteiristas Plaza, Balagueró e Manu Díez acham que não. A quantidade de falas como “É muito importante que gravemos tudo” é extremamente irritante, e não faz lá muito sentido.
 
Por mais que a ideia das câmeras internas à trama sirva para oferecer mais intensidade e realismo para a experiência, ninguém se ilude: a questão é diversão cinematográfica. O título do filme aparece entre uma cena e outra, jogando um rock pesado para descontrair. E quando os diretores não gritam que tudo aquilo é cinema, pelo menos dão a impressão de estarmos à frente de uma TV jogando videogame.
 
Temos a jogabilidade em primeira pessoa, a alternância estratégica de câmeras, objetivos que mudam como fases, armas, itens especiais (a faca com terço, o tubo com sangue) e até a oportunidade de destravar personagens diferentes. Ainda sobra espaço para alguns sustos bem-feitos, mas o suspense fica muito diluído em meio à ação predominante. Também há algum mérito divertido em trabalhar a fórmula com a inclusão de vários “cinegrafistas”.
 
Outra mudança de rumo está na natureza dos humanos infectados. Alguns minutos trama adentro, descobre-se que não é exatamente um vírus, mas uma forma de possessão demoníaca que toma conta dos corpos das pessoas. Antes que zumbizófilos entrem em alvoroço, vale dizer que pouco ou nada, além da nova habilidade de falar, muda nos monstrengos – tudo funciona como num filme de zumbi, até o tiro na cabeça. Sem contar que os tais demônios são a chave do tão almejado clima de videogame.
 
Quando a sensação mais forte é a de cinema, porém, a pouca credibilidade é jogada pela janela. As tensões são extremamente mal construídas, atingindo seu ápice cedo demais e não tendo para onde ir dali em diante. Então, sobram as crises de ter de matar seres que já foram humanos (outra questão típica em filmes de zumbi), que são editadas sem a menor cerimônia ou filmadas com o aviso de “bateria fraca” piscando no alto, como se aquilo fosse supérfluo. Se é ou não é, não fica claro, só fica claro que são cenas ruins.
 
Sem muito a fazer além de caras, bocas e escândalos, o elenco não consegue passar por cima da mutilação dramática. A exceção surge com Ariel Casas, no papel do policial Martos, que já ironiza a tensão apressada com riso e alcança, até ultrapassa, as necessidades emocionais de seu personagem.
 
Com o sucesso em vista, o final deixa um imenso gancho para [REC]³, que Plaza e Balagueró pretendem fazer. Se for lançada diretamente para PlayStation 3, a segunda continuação talvez consiga ir mais longe.

Karatê Kid

agosto 26, 2010

por Léo Francisco

Desde que surgiram as primeiras noticias e informações sobre o remake do clássico da sessão da tarde da década de 1980, Karatê Kid: A Hora da Verdade, muitas pessoas, e até mesmo eu, acabaram torcendo o nariz por achar que com certos clássicos não precisa se mexer.

Bomba à vista. Era isso que todos pensavam e falavam quando surgia uma nova foto, um novo vídeo ou qualquer outro material de divulgação do filme. Para a bomba ser completa, o novo protagonista seria vivido pelo filho do ator Will Smith, sabe? Ele mesmo. O filme tinha todos os temperos certos para ser a bomba do ano, mas não é que o filme é bom?

Desta vez, Daniel LaRusso é Dre Parker (Jaden Smith), um garotinho de 12 anos, que se muda para China por causa do novo trabalho da sua mãe (Taraji P. Henson). Em um novo país, onde ele nem mesmo sabe como se comunicar direito, a dificuldade para fazer amigos e as diferenças culturais acabam fazendo sentir-se sozinho num país estrangeiro.

Para piorar, ele se torna adversário de um garoto da escola, chamado Cheng. A única pessoa que pode ajudar Dre agora é o zelador, sr. Han (Jackie Chan), que, secretamente, é um mestre do kung fu. Juntos, eles começam a treinar juntos, construindo uma amizade até o combate final com Cheng em um torneio de kung fu.

Para quem já assistiu ao longa-metragem original já percebeu que o roteiro é o mesmo, apenas o elenco e o cenário mudou. A Columbia Pictures prova que a história de Karatê Kid: A Hora da Verdade pode ser contada em qualquer época ou local, pois os problemas vividos por Daniel ou Dre são os mesmos que os jovens continuam tendo e vivendo, pois os anos se passaram e mesmo assim, o adolescente continua enfrentando os mesmos problemas, mas de modos diferentes, por isso, que Karatê Kid continuará fazendo sucesso independente do ano em que for visto.

A grande mudança é a troca do Karate pelo KungFu, mas karatê é uma luta onde uma pessoa aprende a utilizar as suas mãos ou outros membros do corpo para se defender. O KungFu é uma arte marcial chinesa que surgiu há mais de 4000 anos e é o termo mais conhecido para designar todas as formas de artes marciais, então de um certo modo, existe lógica do filme se chamar Karatê Kid e trazer o protagonista lutando KungFu.

A nova versão de Karate Kid (The Karate Kid) , chega aos cinemas nesta sexta, dia 27, e é uma produção voltada para família, não sendo o primeiro trabalho para esse gênero do diretor Harald Zwart, que dirigiu O Agente Teen (Agent Cody Banks). Estrelado por Jaden Smith, Jackie Chan e Taraji P. Henson, a nova produção é visualmente muito mais bonita e trabalhada que a original, pelo grande orçamento gasto, mas mesmo sendo um ótimo divertimento, o novo filme acaba pecando para os fãs, que terão a sensação de dejavú, por não trazer nada de novo no roteiro.

A Epidemia

agosto 25, 2010

por Pedro Costa de Biasi

Na cidadezinha de Ogden Marsh (literalmente, “pântano de Ogden”), um vírus misterioso começa a transformar as pessoas em loucos agressivos. Esta é a trama, mas não é o centro de A Epidemia, já em cartaz. O enfoque está no xerife David Dutten (Timothy Olyphant), sua esposa Judy (Radha Mitchell) e seu assistente Russell (Joe Anderson). Enquanto veem sua comunidade se tornar um inferno, tentam escapar com vida e sem serem contaminados, além de buscar as respostas sobre o que causou a tragédia.

Os tropeços do filme são quase todos derivados das convenções do gênero. Breck Eisner tem meios-momentos como diretor de suspense, e há pelo menos um “BU!” a cada 10 minutos, só para irritar, mesmo. Chega a ser risível como o roteiro repete a fórmula (e o timing!) para cenas de perigo, com um personagem sempre surgindo do nada e salvando o outro. A trilha sonora traz acordes didáticos para “intensificar” a tensão, e é tão desinteressante que poderia ser tranquilamente retirada do produto final.

Este é um caso de incompetência convencional e individual, já que Mark Isham também não faz nada de muito memorável ao piano quando o roteiro pede por mais delicadeza. Por outro lado, é notável que haja tanto espaço para cenas dramáticas em detrimento de correria, escândalo e sangue. Os erros grosseiros das sequências de terror e suspense parecem até má vontade de Eisner, que se sai muito melhor quando precisa desenvolver as relações entre os personagens.

Em vez do romance vazio impulsionado pela intensidade da aventura/sobrevivência, temos um casamento firme, amor de verdade. David e Judy estão esperando um filho, ainda por cima, encorpando a ligação afetiva e a luta pela vida. O investimento em Russell, em um papel que poderia ter virado alívio cômico, também demonstra sensibilidade do roteiro. Além disso, a humanidade dos infectados é descartada rapidamente, e não para intensificar o gore, mas sim para voltar a atenção aos dramas individuais.

Tudo isso no contexto macro de uma cidade minúscula que representa literalmente toda a vida para os personagens, e que está a caminho de virar um caos. Mesmo que mostre apenas esse espaço e sua destruição pelo vírus, não há personagens relevantes de fora para mostrar outra existência: aquilo é o fim do mundo para os sobreviventes. Nessas circunstâncias, é perfeitamente crível quando David diz “Se você quiser sentar e morrer, eu vou sentar e morrer ao seu lado”.

Não que isso tenha algo a ver com a interpretação de Olyphant, que constrange em quase todas as cenas com sua postura de herói de filme B. Não que não seja um filme B, mas a irreverência não funciona quando a construção dramática é valorizada. O que mais chama atenção é Anderson, especialmente nos momentos em que está mais vulnerável, expondo a intimidade de Russell. Mitchell faz um trabalho correto.

Como uma cereja no bolo, Eisner se esmera nas composições, criando imagens surpreendentemente belas (a conversa dos Dutten na varanda), pitorescas (a mãe em frente ao veículo de colheita ligado) e até cômicas (a saída do lava rápido). Ele não hesita em filmar fora do padrão, tomando distância dos atores ou criando planos que chamam a atenção para si mesmos, coisa rara .

É um filme que, na verdade, nem precisava ser terror. E seria muito, muito melhor se simplesmente não tentasse.

O Último Mestre do Ar

agosto 19, 2010

por Léo Francisco

Quando estreou nos cinemas dos Estados Unidos, no dia 2 de julho, a mais nova produção de M. Night Shyamalan (Sinais, O Sexto Sentido, A Dama na Água, entre outros), O Último Mestre do Ar (The Last Airbender), foi bombardeado pela crítica norte-americana ficando com apenas 7% de aprovação no site Rotten Tomatoes.
 
Conhecendo apenas por nome e pelo sucesso entre os jovens, resolvi dar uma chance e conferir o filme baseado na famosa série de animação AVATAR: THE LAST AIRBENDER, do canal Nickelodeon. As expectativas eram baixas, tenho que confessar, mas não é que o filme acabou me surpreendendo positivamente e me fez pensar por que ele acabou sendo escorraçado?
 
As adaptações sempre são alvos de críticas dos fãs, que nunca se dão por satisfeitos e acabam achando defeitos em várias coisas, claro que algumas vezes os defeitos são visíveis, como acontece também em O Último Mestre do Ar, mas não precisamos exagerar, pois o longa-metragem também tem seu lado bom.
 
Adaptar uma série de animação com cerca de 30 horas em um filme com atores reais não deve ser uma tarefa fácil. A história é boa e foi bem contada pelo diretor M. Night Shyamalan, isso não podemos negar, mas o filme acaba se tornando cansativo.
 
No longa, que chega aos nossos cinemas nesta sexta, dia 20, a Nação do Fogo, por quase uma década, trava uma batalha mortal para controlar as nações do Ar, Água e Terra, oferecendo a elas as opções de se entregarem ou serem aniquiladas. Dominando a todos, a Nação do Fogo volta suas atenções para a Nação da Água, lugar em que encontram Katara, uma jovem Dominadora de Água, seu irmão Sokka e um garoto chamado Aang.
 
O que ninguém sabe é que Aang, é na verdade é o último Dominador de Ar, o profetizado Avatar, o único capaz de controlar os quatro elementos, e será o único que conseguirá combater a temida Nação do Fogo e restaurar o equilíbrio no mundo. 

O  grande problema da produção acaba sendo a falta de experiência e carisma dos atores, fazendo com que o público não se envolva com os personagens. Mesmo mostrando a tradicional saga do herói, fica difícil se envolver com a história e com os protagonistas. Outra falha é não conseguir encontrar um público, pois, trazendo uma história mais voltada para as crianças, o filme por ser muito longo acabará as entediando e será difícil agradar aos adolescentes com mais de 12 anos.
 
Os efeitos especiais, os cenários, a trilha sonora e especialmente o 3D da produção são o ponto alto da produção, que mesmo com as criticas negativas, poderá ganhar mais dois filmes, fechando a trilogia ou então acabará se juntando a outros filmes como Bússola de Ouro, Eragon, Desventuras em Série, entre outros, que acabaram não ganhando as adaptações das outras obras.
 
Se você for ao cinema esperando uma grande produção comparando com franquias como Senhor dos Anéis, Harry Potter e As Crônicas de Nárnia, vai se decepcionar, pois O Último Mestre do Ar, que será exibido com cópias dubladas e legendas, é uma boa pedida para uma sessão sem compromissos em família ou para divertir a garotada. Além de aguçar a curiosidade pela série de animação.

por Pedro Costa de Biasi

Uma coletiva realizada no CineSesc reuniu jornalistas e elenco da produção Cabeça a Prêmio, que estreia nessa sexta, 20. Estiveram presentes Marçal Aquino, autor do livro homônimo em que o filme foi inspirado; Felipe Braga, roteirista da adaptação; Paulo Schmidt, produtor; Marco Ricca, diretor; e os atores Otávio Müller, Fulvio Stefanini, Cássio Gabus Mendes e Eduardo Moscovis.

Moscovis nem citou que era ator: “Eduardo Moscovis, amigo do Cássio”. Todos os entrevistados faziam questão de se referir uns aos outros como amigos. O diretor Marco Ricca se disse sortudo por ter contado com atores tão talentosos dispostos a trabalhar em seu primeiro longa.

“Fui cercado de uma equipe impressionante”, elogiou, agora também se referindo aos outros profissionais com quem trabalhou. “Não só a gente, como a equipe toda fazia questão de estar ali”, acrescentou Moscovis.

O filme acompanha personagens angustiados, apresentados a partir do desmoronamento de uma situação estável. “Parece que o universo conspira contra esses personagens”, disse Ricca, sobre o enfoque da trama. “(O filme) É angustiante porque a vida é angustiante”, completou, deixando claro que é essa sensação que espera causar no público.

Com um filme voltado para os personagens, o trabalho dos atores foi muito valorizado. Perguntado sobre a base de uma boa interpretação, Fulvio Stefanini disse: “O essencial é ter um bom personagem. Tem que ser um pouco irresponsável, arriscar. O trabalho de ator é o risco que a gente corre.”

A produção, orçada em R$ 4 milhões e 300 mil, foi rodada principalmente no município de Cidrolândia (MT). A pré-produção durou três meses e as filmagens ocuparam sete semanas. Apesar disso, a equipe passou seis meses na cidade, com viagens esporádicas para visitar suas famílias. Iniciado em 2007, o projeto foi finalizado em três anos, tempo relativamente curto para um filme nacional.

O principal problema enfrentado por Ricca foi a captação de recursos. “A iniciativa privada não está fácil. Os editais também, são feitos por amigos de amigos de amigos”, desabafou. O diretor revelou ainda que discorda do modo como o BNDES oferece fundos para o cinema brasileiro. Faz pouco tempo que o cineasta recebeu a primeira parcela do valor prometido para a realização do filme. “Os caras dão o dinheiro quando eles querem”, criticou.

Cabeça a Prêmio estreia nos cinemas brasileiros nessa sexta-feira, dia 20.

Cabeça a Prêmio

agosto 17, 2010

por Pedro Costa de Biasi

 

Tudo em Cabeça A Prêmio, produção nacional dirigida por Marco Ricca que estreia sexta, dia 20, se movimenta para sair do lugar. Muitos percalços depois, o caminho leva de volta ao ponto de onde partira. No entanto, o desvio usado para fugir das situações originais as reencontra potencializadas. De uma condição antes estável, então em seus primeiros estágios de desmoronamento, cai-se nas consequências mais extremas. O filme não é só sobre a derrocada de pessoas e sobre suas tentativas de escapar, mas também sobre a moralidade intrínseca a tais temas.
 
Os vários personagens se mantêm atrelados à família de um rico criador de gado, Miro (Fulvio Stefanini). O ciúme que sente da filha Elaine (Alice Braga) ameaça a relação da moça com o piloto de seu pai, Denis (Daniel Hendler). Ele voa pelas fronteiras do Brasil com cargas ilícitas. A presença do irmão do fazendeiro, Abílio (Otávio Müller), atrapalha os negócios, tornando a relação familiar tensa. Para proteger seus entes queridos, Miro mantém o capanga Albano (Cássio Gabus Mendes) e contrata Brito (Eduardo Moscovis), que tem seus próprios dramas.
 
No mundo ríspido que o diretor Marco Ricca constrói, os afetos não têm vez. O romance proibido de Denis e Elaine, assim como a aproximação entre Brito e Marlene (Via Negromonte) nunca alcançam a plenitude. Não é um ou outro obstáculo, mas toda a existência naquele universo que restringe as emoções humanas. Apenas um dos personagens é capaz de mudar algo com seus “sentimentos”, e a natureza dessa mudança explicita as regras do jogo.
 
Também é curioso como o carinho que Elaine recebe do pai não raro soa incestuoso, mesmo que só na imaginação do espectador. Outro bom indício de como funciona a moral do roteiro de Ricca e Felipe Braga está na forma como Miro tenta cuidar da família. A incapacidade de perceber os problemas da esposa Jussara (Ana Braga) contrasta com a proteção que sufoca Elaine.
 
O aspecto que mais enfraquece o corpo da obra é sua estrutura. Embora a trama se desdobre entre os personagens e seus anseios, a trajetória cíclica nunca é perdida de vista. Esse processo de fuga perde a força na medida em que elementos banais (o romance Romeu/Denis e Julieta/Elaine, o doentio ciúme paterno, as estranhezas de Brito) unem, fragilmente, as formas gerais que Ricca e Felipe Braga pretendem criar.
 
A moral básica da história também acaba danificada. A ausência de uma conclusão definitiva oferece possibilidades que remetem à natureza moralista do roteiro – que não é um defeito. O problema é que, entre corroborar o moralismo, negá-lo, afastar a catarse e duvidar de sua existência, o filme parece fugir de sua postura original de reagir à desumanidade. Tudo aponta para um final, e, quando ele surge, coloca em xeque coisas cuja integridade nunca foi enfrentada, talvez para evitar a alcunha de “moralista”.
 
De outra maneira, pareceria apenas uma continuação da linguagem interessante criada pelo roteirista e pelo diretor. Apesar da predominância das entrelinhas e dos subentendidos, nenhuma informação se perde por falta de clareza, resultando em uma alternativa muito bem-vinda a uma narrativa expositiva. A encenação inteligente de Ricca oferece tempo e espaço para as tensões se desenvolverem em silêncio, indo além do campo/contracampo tanto em olhares unidirecionais quanto em planos abertos.
 
A valorização do elenco também é notável, dando muito mais liberdade de imagem que outro ator-diretor, Selton Mello, deu em sua estreia. A intensidade dos intérpretes é capturada com eficiência, independentemente do formato da cena. Embora não haja elos fracos, merecem destaque as valorosas participações de Ana Braga e de Negromonte, assim como Alice Braga, que vai se intensificando ao longo da história.
 
Com uma potência nítida em cena, Gabus Mendes traz um cinismo efusivo e Moscovis rebate com uma postura lacônica mas muitíssimo expressiva. Cada um tem suas hesitações, mas Albano representa uma conivência com o “lado errado”, enquanto o “bom” Brito se esforça para escapar de um círculo vicioso em que a frieza afasta a ternura, levando a mais frieza. Os dois representam o que há de mais brilhante no elenco, o que diz muito sobre a posição dos roteiristas perante sua obra.
 
É triste que o final, nas variações que consciente ou inconscientemente possibilita, acabe drenando parte da firmeza de um conto de moral bem construído e recheado de ótimos atores.

Os Mercenários

agosto 13, 2010


por Janaina Pereira

Lembra quando Sylvester Stallone gravou no Rio cenas de seu último filme? Pois é, a tal produção finalmente chega às telas nesta sexta, dia 13. Os Mercenários (The Expendables) vem embalado pelas polêmicas declarações de Stallone (que estrela e dirige o longa, além de assinar o roteiro) sobre o Brasil – aquele falatório sobre nós e os macacos – e a curiosidade em torno da participação da atriz tupiniquim Gisele Itié. Sinceramente, nada disso importa. O filme é, na verdade, uma singela e descerebrada homenagem aos filmes – e aos astros – de ação dos anos 1980.

Liderados por Stallone, o elenco formado por atores cultuados em filmes do tipo ‘espreme que sai sangue’ é o grande destaque de Os Mercenários. Dolph Lundgren, Mickey Rourke, Jason Statham e Jet Li têm pelo menos uma boa cena em que fazem sua parte e divertem a plateia. O filme conta ainda com as deliciosas participações de Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger na melhor (e antológica) cena do filme, e Eric Roberts, o vilão da vez.

São os atores, e não a história, que valem a pena. Na trama, o grupo de ‘mercenários’ de Barney Ross (Stallone) é contratado pelo misterioso Sr. Church (Willis) para infiltrar-se em uma ilha latina e assassinar seu ditador (David Zayas, do seriado Dexter). Chegando lá, eles conhecem a rebelde Sandra (Giselle Itié, soletrando para não derrapar no inglês) e descobrem a verdadeira natureza do problema. Barney não quer aceitar o trabalho, mas a preocupação com Sandra faz com que ele mude seus planos.

O resto é aquilo que sempre caracterizou os filmes de Stallone: muita pancadaria, barullho, sangue, suor, tiros, etc e tal. Sly, talvez um pouco menos deformado que Mickey Rourke, não tenta fazer o galã – essa parte fica com Jason Statham que, por sinal, se sai muito bem. Mas, tenho que admitir, o velho Rambo/Rocky ainda sabe fazer mais do mesmo com bastante competência.

Para você que, como eu, cresceu ao som dos bombordeios dos filmes de Stallone nos saudosos anos 1980, Os Mercenários vai ser um prato cheio. O longa é datado, repleto de clichês, mas garante 103 minutos sem ter o que pensar.

Antes de começar as gravações de Os Mercenários no Rio, em abril de 2009, Sylvester Stallone concedeu uma coletiva de imprensa na piscina do Hotel Sofitel, onde estava hospedado. Confira, a seguir, o que rolou no encontro entre Sly e os jornalistas, que contou também com a participação da atriz brasileira Gisele Itié.

 
Por que você decidiu gravar no Rio?
Sylvester Stallone: Porque o filme se passa em um lugar tropical. Precisávamos de um país, uma comunidade cinematográfica sofisticada. E com talento local, câmeras, além da infra-estrutura, e o Brasil tem tais características.
 
Gostaria de perguntar por que você escolheu contratar Gisele Itié, e em que sua decisão foi baseada.
SS:
Primeiro, pensamos em contratar uma atriz americana. Mas quando vim para o Brasil, comecei a conhecer atrizes brasileiras com um talento diferente, que normalmente não teriam a oportunidade de fazer filme desse porte. Naquele momento, eu tinha somente uma hora antes de pegar meu avião, e eles mandaram umas 15 atrizes para eu conhecer. Eu fui pra casa e comecei a escrever, e algumas coisas mudaram no roteiro com a entrada desta personagem. No início pensei que a atriz ideal era uma, depois mudei para outra, mas com todas as mudanças da personagem percebi que Gisele era a melhor. Queria contratar um talento novo, uma pessoa entusiasmada, nova, com paixão e que ainda não tivesse sido mimada demais por essa indústria.
 
O que você acha das atrizes brasileiras?
SS
: São muito boas. Existe um mundo de talento. E Gisele é bem treinada, não só um rosto bonito, uma modelo. É muito séria.
 


 

E para você, Gisele, como está sendo esta experiência com o Stallone?
Gisele Itié:
Está sendo maravilhoso poder trabalhar com cinema americano. E o Stallone é uma pessoa maravilhosa, super sensível. E um ótimo diretor.
 
Mas como está sendo sua experiência com ele, dizem que ele é um cara durão.
GI:
Não! Pelo que já conversamos, ele parece ser durão, mas não é. Ele é muito sensível. Está me mostrando uma visão completamente diferente do Rio de Janeiro. E nossas cabeças estão no momento bem conectadas. Está sendo um ótimo trabalho.
 
Gostaria de saber como a Gisele foi chamada pra fazer esse filme.
GI:
Na verdade, a primeira audição foi com a equipe. A segunda uma surpresa: fui filmar no set. E depois de dois meses fiquei sabendo que fui aceita, e achei o máximo fazer parte disso.
 
Esse filme representa uma retomada dos filmes de ação dos anos 1980, com selva, mercenários, caçadores de recompensa?
SS:
Sim, é um filme da década de 80, com tecnologia moderna. Mas nos filmes dos anos 80, a mocinha era muito indefesa, e tinha de ser salva pelo homem. Mas desta vez temos uma personagem muito forte, e que muda o tempo todo. Mas, excetuando disso, podemos dizer que é um filme do tipo daqueles da década de 1980.

 

Em que locações vocês vão gravar aqui no Rio? Vão gravar em Tavares Bastos, uma favela? E como é atuar e dirigir em um mesmo filme?
SS:
Não é problema se você conhece bem o roteiro, e eu conheço porque fui eu que o escrevi. É um desafio louco que eu gosto porque você sabe exatamente onde estar e o que dizer. É muito cansativo, mas com certeza vale a pena. Sobre as locações, há o Parque Lage, Mangaratiba, que fica a uma hora e meia daqui, e Tavares Bastos. Estamos fazendo muita ação, com umas cenas bem grandes, que nunca tentamos antes. Hoje filmamos no porto, com esses barcos gigantes, com piratas somalianos, mesmo estando no Brasil. Mas é uma ótima locação, este é o problema de ter muita imaginação, todo dia, vemos coisas novas. Esse filme podia durar dois ou três anos para ser feito, apenas adicionando mais e mais e mais e mais…
 
Nos filmes, você gosta muito de brigar, gostaria de saber se vai haver lutadores brasileiros no filme.
SS:
Eu não consigo bater em ninguém (risos). Eu só participo das lutas nos filmes, não brigo na vida real. Ela [Gisele] é durona e gosta de brigar. Estou ficando velho, me machucando o tempo todo.
 
E você sabia que tem um lutador brasileiro, o Rodrigo Minotauro, que é conhecido como o Rocky Balboa Brasileiro?
SS:
Sério?! (risos). Ó deus, só espero que ele não tenha apanhado tanto quanto eu.
 
Este filme trata de ditaduras, gostaria de saber de onde você tirou inspiração para o ditador do filme, se há alguma relação com a América Latina. E também gostaria de saber quando vai abrir as filmagens.
SS:
Estamos todos nervosos. Essa é apenas a primeira semana de filmagens. Eu gosto de abrir o set, mas somente quando a coisa já está engrenada. E sobre os ditadores, eles são absolutamente fascinantes. São loucos. No começo têm algum tipo de filosofia, mas depois, os caras se mostram loucos de verdade. E sobre inspirações, tem Coréia do Norte, Uganda, Cuba, El Salvador, Rússia e alguns exemplos da América Central. Eu fiz uma mistura de todos. O que você vê neste filme é uma mistura de ditadores reais.
 
Geralmente o Brasil é mostrado nos filmes como uma grande selva, com macacos nas ruas. Eu gostaria de saber se corremos este tipo de risco no seu filme. E quais são suas primeiras impressões sobre o Brasil.
SS:
Eu estou gostando muito do Brasil. Estou gostando de todo o processo. Mas, economicamente, foi muito bom filmar no Brasil, porque o governo é muito bom, dá muitos incentivos. Vocês têm o trabalho aqui e coisas que não conseguimos fazer nos EUA. As coisas de ação. Não é permitido, não tem mais espaço. Precisávamos do visual de selva. Precisávamos que os atores e os extras tivessem um visual específico, de um certo um tipo físico. E também tivemos muita sorte de ter ela [Gisele]. E esta é a parte difícil do casting, porque ela representa o coração do filme. É a razão pela qual os mercenários voltam. Não é por dinheiro. É importante para esses caras manterem o que ela representa vivo, protegendo a civilização. Embora os mercenários tenham vendido suas almas, mas no último segundo você diz: “sabe, você tem que retribuir, você tem que fazer algo sem ganhar nada em troca, uma causa pela qual sua morte valeu a pena”. É um tema de redenção. E meu personagem odeia o mundo. E quando eu vejo o que ela faz e as coisas pelas quais passou, meu personagem acorda, passa a se sentir vivo. É muito importante que a protagonista feminina seja super especial, não somente um rosto bonito, isso seria fácil. Mas ter habilidade, beleza e talento para poder passar a emoção, é algo muito raro, então foi muito difícil de encontrar a pessoa certa. Ela nasceu para o papel.

*Confira amanhã a crítica de Os Mercenários, por Janaina Pereira.

Destinos Ligados

agosto 9, 2010


 

 

por Janaina Pereira

 
A narrativa desestruturada, em que várias histórias se cruzam em determinado momento da trama, é uma característica marcante do mexicano Guillermo Ariaga, o roteirista da ótima trilogia sobre acidentes – Amores Brutos, 21 gramas e Babel. O estilo de Ariaga é seguido à risca pelo diretor Rodrigo García (filho do escritor Gabriel García Márquez) em Destinos Cruzados (Mother & Child). O longa coloca em cena três mulheres muito diferentes unidas por um elemento em comum – a adoção.

Elizabeth (Naomi Watts) é uma advogada inteligente e bem-sucedida que usa seu corpo para conseguir o que quer. Graças ao seu charme, ela inicia um romance com o chefe (Samuel L. Jackson). Karen (Annette Bening) é uma profissional da saúde amargurada que se divide entre o trabalho e cuidar da mãe idosa. Lucy (Kerry Washington) é uma mulher casada que não consegue engravidar e resolve recorrer à adoção para ter a família que tanto deseja. As três mulheres – como o título em português entrega – acabam tendo suas vidas interligadas no decorrer da – longa – história.

Não é que Destinos Cruzados seja um filme ruim. É apenas longo demais, repetitivo, melodramático mas com um toque de verdade em algumas situações – reparem na trama de Lucy, é a que revela mais da nossa sociedade preconceituosa com as mulheres que não podem ter filhos. E, apesar do roteiro a ‘la Ariaga’ que tira o encanto da história, o elenco consegue convencer em atuações densas, com destaque especial para Jackson e a envelhecida Annette.

Como fã de Guillermo Ariaga, ficou difícil para mim gostar de Destinos Ligados, pois achei o estilo de García muito copiado do mexicano – e no final tudo faz sentido quando aparece o nome de Alejandro Gonzalez Iñarritu, o diretor da trilogia sobre acidentes e ex-parceiro de Ariaga, nos créditos. Ou seja, apesar do tema da adoação até ser abordado com delicadeza, o filme não emociona e se compromete por causa de sua narrativa. Uma pena.