A Origem

julho 30, 2010

  
por Janaina Pereira

  

A Origem (Inception) é o filme do ano. Dificilmente as estreias previstas para os próximos meses conseguirão superar o impacto do novo longa de Christopher Nolan (Amnésia, Batman Begins, O cavaleiro das trevas). A Origem é, também, um forte candidato a filme da década. Exagero? Se você gosta de cinema inteligente sem ser mirabolante, vai perceber logo nos primeiros minutos que este veio parar marcar época.
 
O último filme que, de fato, me entusiasmou foi  O Segredo dos seus olhos. Lá se vão dez meses em que vi pela primeira vez a obra de Juan José Campanela. De lá para cá, Up, Distrito 9, The Burning Plain, Ilha do Medo e Toy Story 3 até me empolgaram bastante… mas nada comparado ao já cult A Origem.
 
Sou suspeita para falar de Christopher Nolan. Adoro seu jeito classudo e brincalhão de dirigir, montando e desmontando o filme com habilidade e frescor. Sempre criativo, o diretor mostrou mão firme no ótimo Amnésia (Memento), sobre um homem que sofre de perda de memória recente – ele esquece o que acabou de acontecer. Assim, o filme é contado de trás para frente, em um simples, e ao mesmo tempo original, roteiro.
 
O estilo atrevido de contar histórias fez de Nolan sucesso imediato em Hollywood – e quando ele foi dirigir Batman Begins eu torci o nariz. Fã do homem morcego mas também do cineasta, achei que o diretor tinha se vendido para um projeto comercial. Quebrei a cara. Nolan – que não é fã de quadrinhos – conseguiu entender a alma do homem morcego fazendo dois brilhantes filmes (o terceiro vem ai em 2012), o que lhe deu bala na agulha para tocar seu projeto pessoal – uma história sobre seu assunto preferido: a mente humana.
 
Este projeto se transformou em Inception, um filme de mais de duas horas de duração e com um único defeito: o título brasileiro soa esquisito – inception é início, bem melhor do que origem. Na trama, Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) comanda uma equipe que invade os sonhos das pessoas para roubar segredos do inconsciente que possam ser utilizados por empresas concorrentes.
 
Um poderoso empresário (Ken Watanabe) procura o serviço de Dom para propor algo diferente: que ele implante uma ideia no cérebro do herdeiro de outra companhia (Cillian Murphy). Dom, que já não consegue mais ser arquiteto dos sonhos por causa da esposa, Mal (Marion Cotillard), contrata uma nova arquiteta, Ariadne (Ellen Page). Ele recruta ainda velhos aliados – Arthur (Joseph Gordon-Levitt) e Eames (Tom Hardy) – e novos companheiros – Yusuf (Dileep Rao) – para executar o projeto. Não vou revelar muito do roteiro mas dou uma dica: prestem atenção no título do cartaz “Sua mente é a cena do crime”.
 
Muito tem se falado que as pessoas até gostam do filme, mas não entendem. Não consegui captar o que é difícil de compreender. O roteiro tem o cuidado de explicar bem o que é ‘real’ e o que é ‘imaginário’, e basta o espectador ter atenção para acompanhar a trama sem maiores problemas. Além disso, há várias referências sobre sonhos conhecidas universalmente, desde o ‘cair no abismo’ para acordar até o ‘sonho é longo mas na verdade se passa em alguns minutos’.  Por mais que o roteirista e diretor Chris Nolan tenha apostado em diálogos densos, usou referências simples e objetivas.
 
Um dos destaques de A Origem é a parte visual: fotografia, direção de arte e os efeitos especiais são os mais poderosos do cinema desde Matrix. A cena de Dom e Ariadne em Paris é brilhante. Preste atenção também na luxuosa trilha sonora, com direito a Edith Piaf. E o elenco, manipulado com perfeição pelas mãos de Nolan, se joga com tudo na trama e consegue atuações memoráveis: Leonardo DiCaprio, e sua cada vez mais charmosa ruga de expressão no meio da testa, está impecável; Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Ken Watanabe, Marion Cotillard, Cillian Murphy, Tom Berenger e Dileep Rao são coadjuvantes que aproveitam bem cada uma de suas cenas; e Michael Caine dá um ‘plus’ à trama em valorosa participação. Mas minha preferida é Ellen Page e seu olhar de súplica e fascínio que transmiste as mesmas emoções que o espectador tem ao ver o filme. A jovem atriz revelada em Juno brilha ao viver a trama à flor da pele.
 
Tive o privilégio de ver A Origem em Imax e o filme se tornou ainda mais grandioso. Vivi todos os sofrimentos e angústias dos personagens; fiquei tensa, torci e, especialmente, embarquei na história sem o menor pudor. E o que mais me surpreendeu foi a ausência de reviravoltas no roteiro: não há ‘pegadinha’ e sim uma ‘trama-cebola’ – Nolan tira camada por camada e revela uma história nada original e ainda assim… original.
 
Como? Mundo paralelo a gente já viu em Matrix e Vanila Sky – só para citar alguns. Mas esse mundo paralelo de Nolan, o mundo dos sonhos, é uma viagem com começo, meio e fim em que mocinhos e vilões se confundem; é um mundo com drama, suspense, romance e ação; é também um mundo incrivelmente rico em imagens e ainda assim com uma história de verdade. Os sonhos que ele relata, em seus aspectos mais sombrios e humanos, podem fazer parte do imaginário de qualquer um. Os diálogos sobre a culpa, as lembranças, a forma como os entes queridos habitam nossos sonhos, o desejo de transformar sonhos em realidade, tudo de bom e de ruim que povoa nossa mente estão lá, em um roteiro que nos leva para emoções avassaladoras.
 
A Origem, que só estreia dia 6 (próxima sexta), é clássico desde já. É o tipo de filme que angustia, que faz a gente refletir sobre os pensamentos que vagam em nossa mente, como eles podem nos atormentar e, claro, a consequência de nossos atos.  Sua intensidade faz com que mereça ser visto inúmeras vezes para podermos absorver tudo que ele tem a nos oferecer. Então prepare-se: é para ver, rever e ver de novo, de novo e de novo.
 
 
 
 Assista ao trailer de A Origem.
 
 
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5 Respostas to “A Origem”

  1. gui said

    Vixe! Li a crítica (ótima) fiquei com vontade de ver o filme, realmente parece bom.

    bjs

  2. Douglas said

    EU TENHO QUE VER ESSE FILME!!!6 DE AGOSTO,CHEGA LOGO!!

  3. Marques said

    Muito bom o texto! Só um detalhe: Nolan é fã do Batman sim. Quer dizer, na verdade ele nunca foi muito fã de quadrinhos. Só leu uma vez ou outra. Mas já declarou que era fã do Batman sim, pois era o super-herói que mais chamava a atenção dele. Tanto que foi o Nolan que levou sua idéia do Batman para a Warner (ao saber que procuravam um diretor para o novo filme do morcego).

  4. Muito legal a crítica, e o filme é simplesmente ótimo!
    Se formos pensar direito, não existe nada realmente original sendo criado, mas são realmente poucos que conseguem criar algo “original” a partir de vários outros “originais”.
    Também escrevi uma crítica para o filme e recomendei a sua no final.
    Abraços

  5. bete said

    MARAVILHOSO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!FILME DA DÉCADA!!!!!!!!!!!!!NOLAN GÊNIO!!!!!!!!!!!!

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