O Escritor Fantasma

maio 26, 2010

 
 
por Janaina Pereira
 
 
A vida pessoal de Roman Polanski nunca deveria ser maior do que sua obra. Infelizmente esse pensamento é um pouco difícil de se explicar quando lembramos os fatos que cercam o diretor. Sua então esposa Sharon Tate foi assassinada de forma brutal em 1969 por Charles Manson e integrantes do culto que este liderava. Quando foi morta, Sharon estava grávida de 8 meses daquele que seria seu primeiro filho com Polanski.

As situações sinistras que cercam o cineasta não param por aí: condenado por estupro de uma garota de 13 anos em 1978, o diretor nunca mais pode colocar os pés nos EUA. Em 2009, a convite do Festival de Cinema de Zurique, viajou à Suíça para receber um prémio pela sua carreira cinematográfica e acabou sendo preso sob a alegação de que um mandado internacional de prisão contra ele estava em vigor, devido à condenação de estupro. Depois de muito disse-medisse foi solto e seguiu sua carreira com a mesma habilidade anterior ao escândalo.

 
Roman Polanski sempre foi um diretor de muitas facetas. Você pode conhecê-lo dos clássicos O bebê de Rosemary e Chinatown, ou de filmes medianos como Busca Frenética, ou ainda de trabalhos polêmicos como Lua de Fel, mas uma coisa em sua cinebiografia não muda: a intimidade com a câmera. O diretor sabe, como poucos, fazer de uma história cheia de clichês um exemplo de direção cativante. É o que acontece com O Escritor Fantasma (The ghost writer), seu novo filme que estreia nesta sexta, 28.
Adaptação do livro The Ghost, de Robert Harris, a história pode ser desvendada facilmente nas primeiras cenas mas, graças ao talento de Polanski, ela consegue ser mais interessante do que de fato é. O cineasta, merecidamente, levou o Urso de Prata de direção em Berlim este ano pela obra.
 
A trama gira em torno de um escritor fantasma britânico de sucesso (Ewan McGregor), que concorda em completar as memórias do ex-primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan). Seu agente lhe assegura que é a oportunidade de uma vida mas o projeto parece condenado desde o início – até porque o seu antecessor no trabalho morreu em um infeliz acidente.
Em um mundo em que nada e ninguém é o que parece ser, o escritor fantasma logo descobre que o passado pode ser fatal e que a história é decidida por quem permanece vivo para escrevê-la.
 
O protagonista ser interpretado pelo ótimo Ewan McGregor já ajuda – e muito – a narrativa. O ator segura o filme com uma interpretação convincente, apoiada no carinho com que Polanski filma seu personagem. Compartilhamos de todas as angústias do protagonista e torcemos por ele mesmo quando já sabemos como vai terminar a história. O restante do elenco também faz sua parte, com destaque para Kim Cattrall, que mostra ser uma atriz de mais recursos do que Sex and the City deixa transparecer.
 
Mesmo sendo previsível, O Escritor Fantasma não decepciona. Pelo contrário. O jogo de cenas, com enquadramentos e sequências de tirar o fôlego, dão à narrativa um ritmo crescente, o que comprova o talento de Polanski em filmes de suspense. A sutileza de sugerir sem mostrar é um dos maiores trunfos do longa, que assim conquista até uma pessoa como eu que sempre reclama dos roteiros que se repetem no cinema. O Escritor Fantasma é uma aula de direção, daquelas que você contempla cada momento sem piscar os olhos, comandada pelo polêmico e talentoso Roman Polanski.
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