Preciosa

fevereiro 12, 2010

 
por Janaina Pereira
 
Existem filmes que surgem como retratos verdadeiros das mazelas da vida. Esse é o caso de Preciosa, de Lee Daniels, baseado no livro de Sapphire. Uma das apostas da temporada pré-Oscar – e favoritíssimo a levar o prêmio de atriz coadjuvante – o longa entra em cartaz nesta sexta, 12, cercado de comentários que remetem à trama pesada. Os mais sensíveis vão derramar rios de lágrimas – não foi o meu caso – diante de um drama de tristeza profunda.

A história se passa em 1987, no bairro do Harlem, Nova York. Claireece Precious Jones (Gabourey Sidibe),a Preciosa do título, é uma adolescente de 16 anos. Negra, obesa e sofrendo uma série de privações em seu dia-a-dia, ela passa por todo o tipo de infortúnio. Violentada pelo pai (Rodney Jackson) e abusada fisica e psicologicamente pela mãe (Mo’Nique), a jovem cresce irritada e sem qualquer tipo de amor.

O fato de ser pobre também não a ajuda nem um pouco. Além disto, Preciosa tem uma filha (de seu próprio pai) apelidada de “Mongo”, por ser portadora de síndrome de Down, que está sob os cuidados da avó. Quando engravida pela segunda vez (novamente, do pai), ela é suspensa da escola. A sra. Lichtenstein (Nealla Gordon) consegue para a adolescente uma escola alternativa, que possa ajudá-la a melhor lidar com sua vida. Lá Preciosa encontra um meio de fugir de sua existência traumática, se refugiando em sua imaginação.

Eu tenho horror a cenas de estupros nos filmes. É algo que realmente me incomoda. Raros são os diretores que conseguem abordar o assunto sem serem explícitos – como Almodóvar fez com sensibilidade única em Fale com ela. Aqui, Daniels consegue mostrar em duas cenas todo o desespero de Preciosa ao ser violentada pelo pai. É um momento forte e  marcante, e o diretor conseguiu ser brilhante ao não mostrar quase nada, mas dizer absolutamente tudo. Não foi à toa que ele recebeu a indicação ao Oscar de melhor diretor.

A direção de Daniels chama muito a atenção, e as cenas da imaginação de Preciosa é dão uma certa aliviada na dor extravasada pelo longa. Outro ponto fundamental é a atuação das atrizes Gabourey Sidibe e Mo’Nique. A estreante Gabourey é espontânea  e não exagera na tristeza nem nas ilusões da sua personagem. Já Mo’Nique é visceral, e temos ódio dela desde a primeira cena. Ou seja, está perfeita no papel da mãe escrota, cretina e sem coração. Seus inúmeros prêmios de atriz coadjuvante são merecidos, e acredito que ela é uma das maiores barbadas do Oscar.

O longa é triste sim, melancólico, mas não chega a ser deprimente. Há um fio de esperança na trama, e a sensação de que os sonhos podem amenizar as dores. Talvez seja uma ilusão, especialmente quando temos consciência  que a personagem é facilmente encontrada em qualquer esquina e sua história é muito real. De qualquer forma, ela nos ensina que, diante do poço, não precisamos nos jogar nele. Podemos tentar escapar e achar uma luz no final do túnel.

Preciosa é assim, honesto em suas intenções. Tão honesto, tão verdadeiro, tão sincero que se torna um filme acima da média.

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