Preciosa

janeiro 31, 2010

 
 
por Janaina Pereira
 
Existem filmes que surgem como retratos verdadeiros das mazelas da vida. Esse é o caso de Preciosa, de Lee Daniels, baseado no livro de Sapphire. Uma das apostas da temporada pré-Oscar – e favoritíssmo a levar o prêmio de atriz coadjuvante – o longa chega ao Brasil dia 12 de fevereiro cercado de comentários que remetem à trama pesada. Os mais sensíveis vão derramar rios de lágrimas – não foi o meu caso – diante de um drama de tristeza profunda.

A história se passa em 1987, no bairro do Harlem, Nova York. Claireece Precious Jones (Gabourey Sidibe),a Preciosa do título, é uma adolescente de 16 anos. Negra, obesa e sofrendo uma série de privações em seu dia-a-dia, ela passa por todo o tipo de infortúnio. Violentada pelo pai (Rodney Jackson) e abusada fisica e psicologicamente pela mãe (Mo’Nique), a jovem cresce irritada e sem qualquer tipo de amor.

O fato de ser pobre também não a ajuda nem um pouco. Além disto, Preciosa tem uma filha (de seu próprio pai) apelidada de “Mongo”, por ser portadora de síndrome de Down, que está sob os cuidados da avó. Quando engravida pela segunda vez (novamente, do pai), ela é suspensa da escola. A sra. Lichtenstein (Nealla Gordon) consegue para a adolescente uma escola alternativa, que possa ajudá-la a melhor lidar com sua vida. Lá Preciosa encontra um meio de fugir de sua existência traumática, se refugiando em sua imaginação.

Eu tenho horror a cenas de estupros nos filmes. É algo que realmente me incomoda. Raros são os diretores que conseguem abordar o assunto sem serem explícitos – como Almodóvar fez com sensibilidade única em Fale com ela. Aqui, Daniels consegue mostrar em duas cenas todo o desespero de Preciosa ao ser violentada pelo pai. É um momento forte e  marcante, e o diretor conseguiu ser brilhante ao não mostrar quase nada, mas dizer absolutamente tudo.

A direção de Daniels chama muito a atenção, e as cenas da imaginação de Preciosa é dão uma certa aliviada na dor extravasada pelo longa. Outro ponto fundamental é a atuação das atrizes Gabourey Sidibe e Mo’Nique. A estreante Gabourey é espontânea  e não exagera na tristeza nem nas ilusões da sua personagem. Já Mo’Nique é visceral, e temos ódio dela desde a primeira cena. Ou seja, está perfeita no papel da mãe escrota, cretina e sem coração. Seus inúmeros prêmios de atriz coadjuvante são merecidos, e acredito que ela é uma das maiores barbadas do Oscar.

O longa é triste sim, melancólico, mas não chega a ser deprimente. Há um fio de esperança na trama, e a sensação de que os sonhos podem amenizar as dores. Talvez seja uma ilusão, especialmente quando temos consciência  que a personagem é facilmente encontrada em qualquer esquina e sua história é muito real. De qualquer forma, ela nos ensina que, diante do poço, não precisamos nos jogar nele. Podemos tentar escapar e achar uma luz no final do túnel.

Preciosa é assim, honesto em suas intenções. Tão honesto, tão verdadeiro, tão sincero que se torna um filme acima da média.

Nine

janeiro 30, 2010

por Janaina Pereira

Em um passado não muito distante, os musicais eram a menina dos olhos do cinema hollywoodiano. Se no teatro eles mantiveram o seu valor, na telona foram perdendo prestígio até a volta triunfal com Moulin Rouge (2001), de Baz Luhrmman, indicado ao Oscar de melhor filme após 23 anos de ausência deste gênero na premiação.

Com o sucesso do longa junto ao público e à crítica, uma nova safra de musicais invadiu o cinema, com destaque para Chicago (2002), de Rob Marshall, vencedor de seis Oscars em 2003. O coreógrafo e diretor teatral acabou conquistando seu espaço como cineasta, e depois de filmar Memórias de uma gueixa (2005), assumiu a difícil missão de levar o musical Nine para as telas.

Nine chegou à Broadway nos anos 1980 como uma adaptação para os palcos de Oito e meio, o clássico filme autobiográfico de Federico Fellini, em que o diretor narra sua própria crise existencial e criativa. A peça foi premiada com o Tony®. Na versão cinematográfica, com música e letras de Maury Yeston e roteiro de Michael Tolkin e de Anthony Minghella (falecido em 2008 e a quem o filme é dedicado), a escolha do elenco foi um capítulo à parte.

Alguns atores consagrados fizeram testes de voz e dança para conquistar um papel no filme. E assim Nicole Kidman assumiu o lugar que seria de Catherine Zeta-Jones e que também foi disputado por Penélope Cruz, que acabou ficando com o personagem que seria de Renée Zellweger. Marion Cotillard fez teste para o papel que ficou com Judi Dench e assumiu outra função no elenco. A cantora Fergie ganhou a disputa com Katie Holmes e Demi Moore. E Kate Hudson venceu a briga com Annie Hataway e Sienna Miller. O protagonista, que seria Javier Barden, foi parar nas mãos de Daniel Day-Lewis. A única que sempre teve papel para ela foi Sophia Loren.

Com um elenco de estrelas e beldades premiadas – dos oito atores do elenco principal, apenas Kate Hudson e Fergie não ganharam o Oscar – Nine , o filme, prometia arrebatar público e crítica. Mas, pelo menos nos EUA, foi recebido como uma enorme decepção.

Com exceção da eterna Piaf  Marion Cotillard, o restante do elenco foi massacrado. Acho que há um certo exagero nisso. De fato, o filme – em cartaz desde ontem – não empolga e, comparado à Chicago, é musicalmente inferior. Porém, tem seus méritos, e eles estão, justamente, na escolha acertada de alguns atores do estrelar elenco.

A história, mais que uma adaptação de Oito e meio, é uma homenagem à Fellini. Acompanhamos, nos anos 1960, o famoso cineasta Guido Contini (Daniel Day-Lewis) em meio à uma crise criativa. O quarentão tem um talento inegável, assim como um conhecido poder de sedução com as mulheres. Mas parece que tudo está dando errado para Contini.

Ele não consegue escrever seu próximo roteiro, e é pressionado por todos, especialmente pelas inúmeras mulheres que cercam sua vida: a esposa dedicada Luisa Contini (Marion Cotillard), a amante sensual Carla (Penélope Cruz), a bela estrela de cinema e musa Claudia (Nicole Kidman), a confidente figurinista Liliane (Judi Dench), a esfuziante jornalista de moda americana Stephanie (Kate Hudson), a prostituta da sua juventude Saraghina (Fergie) e a querida mãe já falecida (Sophia Loren).

Entre as lembranças e as situações vividas com essas mulheres surpreendentes, Guido busca inspiração e uma possível salvação em meio à queda livre. Nesse processo, o estúdio 5, da Cinecittà, em Roma, se ilumina com os desejos e os devaneios do cineasta, pontuado com números musicais dramáticos, muitas vezes monótonos, mas que mostram a épica crise de meia-idade de um artista.

Mais que um musical, Nine é um filme de atores. Fiquei muito impressionada com Daniel Day-Lewis, reconhecidamente um grande ator, mas que surpreende com a garra e a versatilidade das cenas em que canta. Altivo, carismático e charmoso, ele faz de seu Guido Contini um homem apaixonado e apaixonante, frágil e forte, herói e vilão. Day-Lewis achou o tom certo para o personagem e enche a tela com sua beleza singular.

Marion Cotillard, a aparentemente submissa Luisa Contini, está uma graça, com figurino e maquiagem inspirados na musa dos anos 1960, Audrey Hepburn, e atuação que lembra os trejeitos de Giulieta Masina, esposa de Federico Fellini. Linda, doce, sempre com uma lágrima no olhar, ela empresta sua delicadeza à uma personagem contida, cheia de paixão sufocada. Marion entra para o hall de grandes atrizes de sua geração, e se destaca pela voz afinada e os números musicais intensos. Sem dúvida, a melhor das atrizes em cena – e, à primeira vista, não a mais bela, o que prova que talento maior está na interpretação e não em ser um mero enfeite cinematográfico.

Judi Dench continua elegente como sempre. Difícil é acreditar que ela e Sophia Loren têm a mesma idade – 75 anos. Enquanto Judi está dignamente com suas rugas, a eterna diva Sophia disputa com Nicole Kidman quem tem mais botox na cara. A câmera foge de Sophia – ou vice-versa – e não há nenhum close na atriz, mas é perceptível os retoques faciais da italiana. Nada demais em fazer plástica, o problema é que fica muito visível que não queriam mostrar sua face retocada.

Nicole (à imagem e semelhança de Anita Ekberg em La doce vita), a gente já sabe, tem 42 anos na certidão de nascimento, porque no rosto tem 20. É um festival de botox que não acaba mais. Isso só prejudica a atriz, que perdeu a expressão facial há alguns filmes. Penélope Cruz ((à imagem e semelhança da jovem Sophia Loren), faz seu papel direitinho, tem uma grande cena de dança e só. Está bem menos bonita do que nos filmes do Almodóvar, o único que sabe valorizar a sensualidade da atriz.

Por último, mas não a última, está Kate Hudson. Seu papel é até bobinho, mas seu número musical é o melhor. Endiabrada, Kate solta a voz e o quadril e arrasa cantando a ótima Cinema Italiano. Até esta cena, Nine  patina entre canções chorosas e ritmo arrastado. Quando Kate aparece, tudo muda. Ela está visivelmente feliz e se divertindo ao requebrar o esqueleto e jogar o cabelão de um lado para o outro. O figurino pop glamouroso, estilo Barbarella – personagem clássica de Jane Fonda em filme homônimo de 1968 – é uma atração por si só. Tudo bem que Barbarella foi exibido depois da época em que Nine se passa, mas aquele climão futurista dos anos 1960 está embutido na cena musical de Kate Hudson (que sim, destoa dos outros números por ser super alto astral). A atriz é a maior surpresa do filme: linda, loira, sexy e estonteante.

Com seus altos e baixos, Nine é razoável, embora cheio de boas intenções. Vai desagradar a muitos, agradar a poucos e será um típico caso de amor e ódio cinematográfico: quem gostar vai amar ardentemente, quem não gostar vai odiar com todo fervor.

Uma dica: fique para os créditos finais e acompanhe a singela homenagem que Rob Marshall faz ao cinema e aos musicais.

Assista ao trailer de Nine.

Zumbilândia

janeiro 29, 2010

 
 
por Janaina Pereira
 
 De tempos em tempos filmes trash ganham seu espaço no coraçãozinho dos cinéfilos. O escolhido da vez é o bizarro, mas divertido Zumbilândia (Zombieland). Misto de terror e comédia, o longa conquistou fãs em seu lançamento americano e não deve ser diferente por aqui.

A história gira em torno de alguns americanos sobreviventes que tentam sobreviver em um mundo infestado de zumbis sedentos de sangue. Isso mesmo! Os EUA viraram uma terra de ninguém, ou melhor, uma terra de zumbis.

Poucos conseguem escapar da fúria dos seres bizarros, e um deles é o nerd Columbus (Jesse Eisenberg), que costuma fugir de tudo aquilo que o assusta. Em uma de suas fugas ele conhece o figuraça Tallahassee (Woody Harrelson), que não tem medo de nada.
 
No mundo repleto de zumbis, os dois são a dupla perfeita de sobreviventes. E tentando buscar um utópico lugar seguro, cruzam pelo caminho de duas irmãs trapaceiras ( o enfeite Emma Stone e seus brilhantes olhos azuis e a eterna – e crescida – Miss Sunshine Abigail Breslin).

Entre confusões, fugas e até um encontro inusitado com o ator Bill Murray – na melhor sequência do filme – eles vão se livrando dos zumbis que atravessam suas vidas. Mas, é claro, haverá um confronto final.
 
Zumbilândia pode virar série, franquia, ou ficar por aqui mesmo. É certo que garante diversão para todas as idades e dá uma força aos meninos nerds, atualmente os maiores galãs do cinema. Pois é, não disse que era um filme bizarro?

A todo volume

janeiro 28, 2010

por Janaina Pereira

Rock and roll na veia. Assim é o poderoso A Todo Volume, documentário de David Guggenheim (de Uma verdade incoveniente) com os guitarristas Jack White, Jimmy Page e The Edge (foto), que finalmente entra em circuito nesta sexta, dia 29, ainda que apenas em São Paulo. Sem enrolações, o filme aborda a relação passional entre os músicos e sua musa maior, a guitarra.

Guggenheim não engana o público: é um documentário para os roqueiros. E o cineasta não decepciona. Acompanhamos a trajetória de White (do The White Stripes), Page (do Led Zeppelling) e The Edge (do U2) compartilhando com eles de seus primeiros passos na música, os acordes e composições mais marcantes, os momentos especiais na carreira e toda a magia que envolve o guitarrista e seu instrumento de trabalho.

Entre as cenas individuais vemos o emblemático encontro dos três, trocando experiências e confissões. O filme acaba, obviamente, com uma grande jam session. Tudo isso em altíssimo som, como um bom rock deve ser ouvido.

A Todo Volume é pura adrenalina, imperdível para os fãs não só de Jack White, The Edge e do lendário Jimmy Page, como também para os apaixonados por música. No final das contas… it´s only rock ‘n roll but I like it.

Invictus

janeiro 27, 2010

por Janaina Pereira

Clint Eastwood é um dos meus diretores preferidos. Não lembro de nenhum filme dele que eu não tenha gostado. Fazendo comparações, prefiro Sobre meninos e lobos a Menina de Ouro, por exemplo. Mas gosto de todas as produções que ele dirigiu. Assisti seu mais recente filme, Invictus, que estreia sexta dia 29, cheia de expectativas. E ele manteve seu alto grau de popularidade comigo. Mais uma vez, Clint faz um filme sincero, sensível, com aquele jeitinho doce que ele tem para dirigir grandes histórias – e fazer delas grandes filmes.

Para dar um charme a mais ao filme, ele retoma a parceria com um dos maiores atores americanos de todos os tempos, Morgan Freeman – juntos eles fizeram Os Imperdoáveis e o já citado Menina de Ouro. Só que em Invictus Freeman é simplesmente Nelson Mandela. Preciso dizer mais alguma coisa?

Pois é, mas eu vou falar. O filme retrata o início do governo de Mandela na África do Sul. Você se lembra como era? Eu lembro bem: um país dividido entre negros e brancos, onde havia ainda muita segregação racial e uma fome de vingança pelos que estavam oprimidos durante o apartheid. Para diminuir essa diferença, Mandela viu uma grande oportunidade no rugby, esporte praticado no país.

Com a proximidade da Copa do Mundo de rugby, que seria disputada por lá, o presidente procurou se aproximar do jovem capitão da seleção africana, o loiríssmo François (Matt Damon, praticamente o sósia do personagem de desenho animado He-man). O objetivo de Mandela era encorajar os jogadores e fazer com que o time tivesse chances reais de ganhar o torneio – e aí Clint dá um olhar crítico bastante sutil para a dobradinha política e esporte, afinal, sabemos bem o quanto políticos se aproveitam do esporte para encobrir podres e situações extremistas, como a ditadura.

Para dar força ao time, Mandela usa o texto Invictuous, de William Ernest Henley, que ele mesmo lia no período em que ficou preso. O poema tem frase forte no final: ”Não importa o quão estreito seja o portão e quão repleta de castigos seja a sentença, eu sou o dono do meu destino, eu sou o capitão da minha alma”. Impossível não absorver a mensagem embutida nestas palavras.

O ponto alto do longa é a parte final, com o jogo decisivo da seleção africana na Copa. Eastwood mostra todo seu potencial de diretor fazendo cenas primorosas, usando a câmera lenta e o som como aliados. O que se vê na tela é uma verdadeira batalha, onde homens dão suas vidas – e suas almas – para, mais do que vencer um jogo, reconstruir um país. Lindo, emocionante e uma aula de direção.

Claro que nenhuma cena seria tão grandiosa se os dois atores principais não tivessem nascido para os papéis que representam em Invictus. Morgan Freeman como Nelson Mandela – ele foi escolhido pessoalmente pelo presidente para interpretá-lo – é impecável, e por vezes confundimos o ator com o próprio Mandela. Já o capitão François Pienaar é interpretado por um Matt Damon forte na aparência, como o personagem exige, e carregado de emoção numa atuação inesquecível.

Vale resaltar que Mandela não é santo – embora a mídia tentasse, por muitos anos, vender essa imagem do presidente africano. E Clint, com sua habitual elegância, dá as dicas do comportamento contraditório de um personagem mundialmente popular: as (poucas) cenas familiares e um Mandela xavequeiro mostram que ele não é flor que se cheire. Nada que comprometa a imagem carismática do presidente, mas dá uma arranhadinha básica. Ou, como diz um de seus seguranças no filme, “ele (Mandela) também é gente e tem problemas de gente.”

Os atores, o diretor e o filme estão concorrendo a vários prêmios na temporada pré-Oscar, mas infelizmente não levaram muita coisa até agora. Freeman ganhou alguns merecidos prêmios como ator, mas na reta final parece que Invictus está implodindo nas premiações. Não se deixe levar por isso: o filme merece ser visto e apreciado como espetáculo cinematográfico que é.

E Clint, ah, Clint é um diretor de milhares de recursos, um cavalheiro atrás das câmeras, um cineasta que brinca com as emoções do espectador como poucas vezes vi no cinema. Vida longa para Clint Eastwood e seus filmes extraordinários.

Assista ao trailer de Invictus.

 

Tyson

janeiro 26, 2010

por Janaina Pereira

Quando eu era criança, lembro que meu pai, fã incondicional de boxe, dizia: “Hoje à noite tem luta do Tyson, é bom que ele acaba logo com o outro lutador e eu vou dormir mais cedo”. No dia seguinte, eu perguntava ao meu pai como tinha sito a luta e ele me respondia: “Acabou em menos de um minuto.” Era sempre assim: com Tyson no ringue, não tinha para ninguém.

Mike Tyson foi um dos maiores pugilistas da história do boxe. Para as novas gerações, o lutador talvez seja conhecido apenas como um cara arruaceiro, sempre envolvido em confusões. Para quem tem mais de 30 anos, Tyson é lembrado como um fenômeno sem precedentes no boxe, que acabou sendo encurralado pelo seu próprio sucesso.

Impossível imaginar que um dos atletas mais importantes do mundo teria sua imagem vinculada a tantas coisas negativas. De estupro a arrancar a orelha dos adversários, Tyson esteve envolvido em confusões que lhe renderam alguns anos de cadeia e um fim de carreira insólito. Nada disso, porém, tira o brilho daquele que acabava uma luta em poucos segundos, que nocauteava sem nenhum pudor.

É este homem, um lutador dentro e fora do ringue, que o documentário Tyson, de James Toback, que chega aos cinemas de São Paulo nesta sexta, 29, consegue mostrar com grande sinceridade. Baseado apenas nas palavras de Mike Tyson – ele é o único a dar depoimento, narrar e comentar todos os fatos importantes de sua vida atribulada – o filme apresenta aos mais jovens quem foi o lutador que estraçalhava adversários, e dá a oportunidade aos mais velhos de reversuas lutas inesquecíveis. Mas, para todo o público, o sentimento é o mesmo: o documentário é a chance de conhecer o homem que existe por trás da lenda.

Tyson, o documentário, não encobre os podres de Tyson, o homem. Estão lá todas as polêmicas, com direito a um xingamento para a tal moça que foi para o quarto dele de madrugada e, na hora H, desistiu do sexo, acusando o lutador de estupro e colocando-o na cadeia.

Sempre achei essa história mal contada, afinal, a mesma mídia americana que tratava Tyson como marginal, apoiava o também atleta O.J. Simpson, que matou a mulher, fugiu sob os holofotes da TV e foi absolvido. Mas, apesar dessa incoerência com que sempre foi tratado em seu País – parece que Tyson é mais respeitado fora do que dentro dos EUA – ele não faz mea culpa. Muito pelo contrário.

Tyson assume no documentário seus erros, e demonstra grande arrependimento por alguns de seus atos. Não pede desculpas, mas deixa claro que não se perdoa. Este é o ponto que causa forte tristeza para quem vê o filme: o espectador descobre que um homem tão importante para o esporte se julga inferior aos outros.

Tyson é o tipo de filme que mostra um herói sem máscaras, sem disfarces e totalmente fragilizado pelos erros que cometeu. Ao assumir seu sentimento de culpa, Mike Tyson esquece, por um momento, que por mais que ele tenha sido imbatível um dia, ele é um ser humano como outro qualquer, e errar faz parte do aprendizado.

E não importa quantas vezes ele errou, aquele homem que sabia nocautear com louvor continua lá, de alguma forma. Essa é a essência de Tyson, o documentário que mostra um homem golpeado pela vida, mas que ainda permanece de pé.

Assista ao trailer de Tyson.

 

 

Amor sem Escalas

janeiro 22, 2010

 

por Janaina Pereira
 
 
Um dos filmes mais comentados dos últimos meses, chega às telas nesta sexta, 22,  Amor sem Escalas (Up in the air), novo e aclamado trabalho de Jason Reitman, o premiado diretor de Juno. Não se espante com o filme à primeira vista: ele demorou bastante a me conquistar. Mas, no final, eu estava completamente envolvida com a trama que aborda a solidão e o vazio das relações pelo olhar masculino.
 
Baseado no livro de Walter Kirn, a história gira em torno de Ryan Bingham (George Clooney), um homem com uma profissão bem peculiar: ele é pago para viajar pelos Estados Unidos despedindo funcionários de empresas em crise. Ryan não parece se incomodar com o trabalho hostil, pois se contenta com a vida que ele considera perfeita.
 
Desapegado de tudo e de todos, ele passa a maior parte do tempo entre aeroportos, hotéis e carros alugados. De vez em quando faz algumas palestras em que conta seu case ‘a mochila vazia’. A razão de abordar o tema é porque Ryan consegue carregar tudo o que precisa em uma mala de mão, é membro de elite de todos os programas de fidelidade existentes e está próximo de atingir seu maior objetivo: 10 milhões de milhas voadas.
 
Se para os outros essa é uma vida solitária e vazia, para ele tudo faz sentido. Ryan tem uma casa em que passa apenas alguns dias por ano; duas irmãs que mal vê; relacionamentos esporádicos que considera reais. Nada mais importa, essa foi sua escolha e ele nunca questiona isso.

 

Mas quando seu chefe, inspirado pela eficiente e novata funcionária Nathalie (Anna Kendrick) ameaça mantê-lo permanentemente na sede da empresa, Ryan se assusta. Ao mesmo tempo, ele se envolve com Alex (Vera Farmiga), uma mulher com o mesmo estilo de vida que o seu e, pela primeira vez, ele vê a perspectiva de ficar em terra firme, contemplando o que realmente pode significar ter um lar.
 
Alguns pontos chaves tornam Amor sem Escalas interessante. A relação de Ryan e Alex é cercada de detalhes que se revelam uma grande surpresa perto do final do filme. O modo como Ryan lida com a tecnologia que está ocupando seu lugar no trabalho também chama a atenção. A frieza atual das relações humanas – evidenciada tanto na forma como Ryan trata sua família como na demissão dos funcionários – é outra questão abordada. E o embate entre Ryan e Nathalie sobre casamento e comportamento com seus parceiros é brilhante.
 
Todos estes pontos levam ao mesmo caminho: o excelente roteiro que, em alguns momentos, parece que vai cair no clichê ‘só o amor constrói’ mas dá uma rasteira no espectador, surpreendendo especialmente nos instantes finais. E diante de um roteiro tão primoroso, o elenco abraçou cada diálogo com vontade, sobressaindo em boas atuações. George Clooney é ele mesmo, charmoso, carismático e sedutor, o solteirão convicto capaz de levar a vida que quiser. Vera Farmiga e Anna Kendrick também correspondem ao perfil de suas personagens; uma é totalmente despojada, a outra, convicta de suas intenções.
 
Corajoso e autêntico, Amor sem Escalas não cai em ciladas para agradar ao público. Seu protagonista é um cara que não pensa em casar, nem em ter filhos muito menos em assumir um compromisso real (de acordo com os padrões da sociedade), porque o real dele é cada um na sua. Ele não se preocupa em comprar uma casa, ter bens, nada. Ele não quer se comprometer e não faz a menor questão que as pessoas gostem dele. E todo mundo questiona esse jeito tão peculiar, aparentemente solitário, mas que foi uma escolha dele. E a vida é feita de escolhas. Simples assim.

 

 

Veja o trailer de Amor sem Escalas.

 

 

 

 

Chéri

janeiro 21, 2010

por Janaina Pereira

A beleza pode fazer muito por uma mulher, porém, mais cedo ou mais tarde, vai cobrar seu preço. Aproveitar os belos traços da juventude é uma dádiva, mas envelhecer faz parte, e com as rugas vem uma infinidade de sentimentos até então inexplorados.

O amor entre uma belíssima mulher madura e um rapaz mais jovem, que se tornou um clichê cinematográfico, ganha os contornos sombrios da velhice que atinge em cheio esta mulher. E não é qualquer mulher, é aquela que foi – e ainda é – uma das maiores referências de belezas hollywoodianas: Michelle Pfeiffer.
 
Cabe a atriz, hoje com 51 anos, dar vida à personagem principal de Chéri, o drama de Stephen Frears – que dirigiu Michelle no ótimo Ligações Perigosas – baseado no livro da  renomada escritora francesa Colette, que chega às telas amanhã.
 
Situado na exuberante Paris antes da Primeira Guerra Mundial, Chéri conta a história da relação amorosa entre a linda cortesã aposentada Léa (Michelle Pfeiffer) e Fred, apelidado de Chéri (Rupert Friend), filho de sua antiga companheira de profissão e rival, Madame Peloux (Kathy Bates).

Léa educa o imaturo e mimado garoto nas artes do amor, mas depois de seis anos Madame Peloux planeja secretamente um casamento entre Chéri e Edmée (Felicity Jones), filha de outra rica cortesã, Marie Laure (Iben Hjejle).

Léa parece aceitar tudo mas sileciosamente percebe que, se a idade fez com que ela fosse fundamental para o amadurecimento sentimental de Chéri, são os sinais da velhice que tiraram dela toda e qualquer chance de viver um grande amor.

Ao perceber que por sua cama, enquanto jovem, tantos homens passaram, e agora na velhice ela está só, Léa se confronta com algo que o espelho não pode revelar: mais do que passar o tempo com Chéri, ela o amou de verdade, e isso ninguém poderá mudar. Enquanto isso, o rapaz tenta se acostumar com a idéia de que pode se casar e viver à sombra do sentimento avassalador por Léa.

O grande trunfo do filme está em Michelle Pfeiffer, linda, loira e com a dignidade mantida em rugas que mostram o passar dos anos, mas que a mantém única na tela. Sua beleza perturbadora ajuda a conduzir os caminhos da cortesã Léa, uma mulher que viveu apoiada no belo e que já não tem mais nada em que se apoiar, a não ser sua experiência de vida. Michelle empresta o rosto que Léa merece ter, a beleza amarga pelo passar dos anos, mas mantida apesar do avanço da idade.

Como sempre, Frears se preocupa com cada detalhe do filme: fotografia, direção de arte, trilha sonora e toda parte técnica são um luxo. Vale ressaltar ainda a participação da sempre talentosa Kathy Bates como a mãe de Chéri.

Para as mulheres, Chéri soa como um tapa sem luva de pelica, uma forma de mostrar que o tempo passa e o amor vai com ele, sem dó nem piedade. Seria mais fácil se a gente não se importasse com as rugas que ganhamos com os anos, e nos preocupássemos apenas com o amor que sentimos por alguém.

Aliás, amar não deveria ser complicado, mas como o filme enfoca muito bem, a gente faz muita questão que seja.

Astro Boy

janeiro 20, 2010

por Janis Lyn*

Estreia nessa sexta, dia 22, a animação Astro Boy. Para quem não sabe, o Astro Boy é um famoso mangá criado pela conhecida dupla Osamu Tezuka & Akira Himekawa na década de 1950. Fez tanto sucesso na época que até uma série sobre o personagem foi criada no Japão. Porém, quem dirigiu o filme foi um americano: David Bowers (Por Água Abaixo).

Em inglês, quem faz a voz do Astro Boy é o fofo Freddie Highmore (A Fantástica Fábrica de Chocolate). No Brasil, quem o dublou foi Rodrigo Faro. No começo do filme , a dublagem do ator é estranha, afinal, Faro já não é um adolescente faz tempo. Mas depois você acaba acostumando.

A história  já começa triste, com o filho do cientista Toby morrendo. E, para não perder o filho por completo, o pai resolve transformá-lo num garoto-robô, sem ele saber. O jovenzinho começa a perceber que existe algo estranho e, sem querer, descobre que é super poderoso.

Seu pai fica infeliz e arrependido do que fez e resolve “desligar” o garoto, depois que ele descobre a verdade. Chateado, Toby foge de casa e assume o codinome Astro Boy. No entanto, sua ingenuidade e desejo de ser aceito do (novo) jeito que é, o leva a ser enganado por pessoas de fora e de repente se vê tendo de enfrentar forças muito maiores das que possui.

Apesar do longa ser para o público infantil, os adultos irão gostar também. É bem feito, divertido e tem uma narrativa inocente mas ao mesmo tempo realista, pois dá algumas indiretas de com o ser humano não cuida da Terra. Ok, esse assunto para nós, adultos, já está batido. Mas, para crianças, qualquer conscientização, mesmo que indireta, é válida.

* Janis Lyn é jornalista e autora do blog Diário de uma foca em crise, e escreveu esse texto À convite do Cinemmarte.

Nine

janeiro 16, 2010

por Janaina Pereira

Em um passado não muito distante, os musicais eram a menina dos olhos do cinema hollywoodiano. Se no teatro eles mantiveram o seu valor, na telona foram perdendo prestígio até a volta triunfal com Moulin Rouge (2001), de Baz Luhrmman, indicado ao Oscar de melhor filme após 23 anos de ausência deste gênero na premiação.

Com o sucesso do longa junto ao público e à crítica, uma nova safra de musicais invadiu o cinema, com destaque para Chicago (2002), de Rob Marshall, vencedor de seis Oscars em 2003. O coreógrafo e diretor teatral acabou conquistando seu espaço como cineasta, e depois de filmar Memórias de uma gueixa (2005), assumiu a difícil missão de levar o musical Nine para as telas.

Nine chegou à Broadway nos anos 1980 como uma adaptação para os palcos de Oito e meio, o clássico filme autobiográfico de Federico Fellini, em que o diretor narra sua própria crise existencial e criativa. A peça foi premiada com o Tony®. Na versão cinematográfica, com música e letras de Maury Yeston e roteiro de Michael Tolkin e de Anthony Minghella (falecido em 2008 e a quem o filme é dedicado), a escolha do elenco foi um capítulo à parte.

Alguns atores consagrados fizeram testes de voz e dança para conquistar um papel no filme. E assim Nicole Kidman assumiu o lugar que seria de Catherine Zeta-Jones e que também foi disputado por Penélope Cruz, que acabou ficando com o personagem que seria de Renée Zellweger. Marion Cotillard fez teste para o papel que ficou com Judi Dench e assumiu outra função no elenco. A cantora Fergie ganhou a disputa com Katie Holmes e Demi Moore. E Kate Hudson venceu a briga com Annie Hataway e Sienna Miller. O protagonista, que seria Javier Barden, foi parar nas mãos de Daniel Day-Lewis. A única que sempre teve papel para ela foi Sophia Loren.

Com um elenco de estrelas e beldades premiadas – dos oito atores do elenco principal, apenas Kate Hudson e Fergie não ganharam o Oscar – Nine , o filme, prometia arrebatar público e crítica. Mas, pelo menos nos EUA, foi recebido como uma enorme decepção.

Com exceção da eterna Piaf  Marion Cotillard, o restante do elenco foi massacrado. Acho que há um certo exagero nisso. De fato, o filme – que só estreia por aqui no final deste mês – não empolga e, comparado à Chicago, é musicalmente inferior. Porém, tem seus méritos, e eles estão, justamente, na escolha acertada de alguns atores do estrelar elenco.

A história, mais que uma adaptação de Oito e meio, é uma homenagem à Fellini. Acompanhamos, nos anos 1960, o famoso cineasta Guido Contini (Daniel Day-Lewis) em meio à uma crise criativa. O quarentão tem um talento inegável, assim como um conhecido poder de sedução com as mulheres. Mas parece que tudo está dando errado para Contini.

Ele não consegue escrever seu próximo roteiro, e é pressionado por todos, especialmente pelas inúmeras mulheres que cercam sua vida: a esposa dedicada Luisa Contini (Marion Cotillard), a amante sensual Carla (Penélope Cruz), a bela estrela de cinema e musa Claudia (Nicole Kidman), a confidente figurinista Liliane (Judi Dench), a esfuziante jornalista de moda americana Stephanie (Kate Hudson), a prostituta da sua juventude Saraghina (Fergie) e a querida mãe já falecida (Sophia Loren).

Entre as lembranças e as situações vividas com essas mulheres surpreendentes, Guido busca inspiração e uma possível salvação em meio à queda livre. Nesse processo, o estúdio 5, da Cinecittà, em Roma, se ilumina com os desejos e os devaneios do cineasta, pontuado com números musicais dramáticos, muitas vezes monótonos, mas que mostram a épica crise de meia-idade de um artista.

Mais que um musical, Nine é um filme de atores. Fiquei muito impressionada com Daniel Day-Lewis, reconhecidamente um grande ator, mas que surpreende com a garra e a versatilidade das cenas em que canta. Altivo, carismático e charmoso, ele faz de seu Guido Contini um homem apaixonado e apaixonante, frágil e forte, herói e vilão. Day-Lewis achou o tom certo para o personagem e enche a tela com sua beleza singular.

Marion Cotillard, a aparentemente submissa Luisa Contini, está uma graça, com figurino e maquiagem inspirados na musa dos anos 1960, Audrey Hepburn, e atuação que lembra os trejeitos de Giulieta Masina, esposa de Federico Fellini. Linda, doce, sempre com uma lágrima no olhar, ela empresta sua delicadeza à uma personagem contida, cheia de paixão sufocada. Marion entra para o hall de grandes atrizes de sua geração, e se destaca pela voz afinada e os números musicais intensos. Sem dúvida, a melhor das atrizes em cena – e, à primeira vista, não a mais bela, o que prova que talento maior está na interpretação e não em ser um mero enfeite cinematográfico.

Judi Dench continua elegente como sempre. Difícil é acreditar que ela e Sophia Loren têm a mesma idade – 75 anos. Enquanto Judi está dignamente com suas rugas, a eterna diva Sophia disputa com Nicole Kidman quem tem mais botox na cara. A câmera foge de Sophia – ou vice-versa – e não há nenhum close na atriz, mas é perceptível os retoques faciais da italiana. Nada demais em fazer plástica, o problema é que fica muito visível que não queriam mostrar sua face retocada.

Nicole (à imagem e semelhança de Anita Ekberg em La doce vita), a gente já sabe, tem 42 anos na certidão de nascimento, porque no rosto tem 20. É um festival de botox que não acaba mais. Isso só prejudica a atriz, que perdeu a expressão facial há alguns filmes. Penélope Cruz ((à imagem e semelhança da jovem Sophia Loren), faz seu papel direitinho, tem uma grande cena de dança e só. Está bem menos bonita do que nos filmes do Almodóvar, o único que sabe valorizar a sensualidade da atriz.

Por último, mas não a última, está Kate Hudson. Seu papel é até bobinho, mas seu número musical é o melhor. Endiabrada, Kate solta a voz e o quadril e arrasa cantando a ótima Cinema Italiano. Até esta cena, Nine  patina entre canções chorosas e ritmo arrastado. Quando Kate aparece, tudo muda. Ela está visivelmente feliz e se divertindo ao requebrar o esqueleto e jogar o cabelão de um lado para o outro. O figurino pop glamouroso, estilo Barbarella – personagem clássica de Jane Fonda em filme homônimo de 1968 – é uma atração por si só. Tudo bem que Barbarella foi exibido depois da época em que Nine se passa, mas aquele climão futurista dos anos 1960 está embutido na cena musical de Kate Hudson (que sim, destoa dos outros números por ser super alto astral). A atriz é a maior surpresa do filme: linda, loira, sexy e estonteante.

Com seus altos e baixos, Nine é razoável, embora cheio de boas intenções. Vai desagradar a muitos, agradar a poucos e será um típico caso de amor e ódio cinematográfico: quem gostar vai amar ardentemente, quem não gostar vai odiar com todo fervor.

Uma dica: fique para os créditos finais e acompanhe a singela homenagem que Rob Marshall faz ao cinema e aos musicais.

Assista ao trailer de Nine.