Os melhores filmes de 2009

dezembro 30, 2009

 por Janaina Pereira

O ano de 2009 vai chegando ao fim e com ele uma boa safra de filmes. Entre os filmes lançados em circuito comercial, estes foram os destaques do ano.

Up

(500) dias com ela

Distrito 9

Bem-Vindo

Deixa ela entrar

À Deriva

Se nada mais der certo

Entre os muros da escola

Simonal – Ninguém sabe o duro que dei

Caramelo

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por Janaina Pereira
 
 
A imaginação infantil pode ser extremamente fértil, assim como as crianças podem ser absurdamente cruéis. A espontaneidade e a sinceridade tornam os pequenos muito próximos daquilo que chamamos de ser humano puro. A medida que crescemos, no entanto, perdemos esta pureza, a inocência é deixada de lado e somos corrompidos pelo sistema, ainda que a gente não queira. Ser adulto é estar só, mas ser criança também exige jogo de cintura para lidar com a solidão.
 
A ternura e a crueldade infantil são os pontos-chaves do clássico livro de Maurice Sendak, ‘Onde Vivem os Monstros’, que chega aos cinemas em janeiro de 2010 pelas mãos do cineasta Spike Jonze (Adaptação, quero ser John Malcovich). Talvez o filme seja um pouco assustador para crianças muito pequenas, mas certamente vai tocar o coração dos adultos que não sabem lidar com seus sentimentos mais obscuros. Afinal, cada monstro de Sendak nada mais é do que um sentimento, nem sempre bom, que a gente carrega desde pequeno – e Jonze soube transmitir isso muito bem.
 
Onde Vivem os Monstros segue as aventuras de Max, um menino levado que, depois de desobedecer a mãe, se transporta para um reino desconhecido. Na terra dos Monstros Selvagens, Max é o rei e as travessuras fazem parte do dia-a-dia. Ele finalmente tem a liberdade que sempre sonhou, mas o mundo pode ser cruel mesmo na imaginação. 
 
Embarcar na aventura de Max e descobrir com ele o lado bom e ruim da vida é o grande charme do filme. Spike Jonze consegue fazer uma das coisas mais sensíveis que o cinema já produziu. Mesmo tratando das questões mais tristes da infância, como a solidão e a raiva, o cineasta não deixa de lado a alegria e a graciosidade dos pequenos. Seus monstros também refletem isso, aparecendo como figuras cheias de personalidade,
defeituosas e cruéis como todos nós somos em algum momento da vida.
 
As imagens captadas em paisagens reais e as atividades dos monstrengos liderados por seu pequeno rei enraivecido encantam. Tudo isso embalado por uma música inesquecível, que é triste sem perder a doçura. E, embora o longa divirta em muitos momentos, mas seja cansativo em outros, tem um final de pura delicadeza, para emocionar, arrancar lágrimas e dar aquele aperto no coração.
 
Onde Vivem os Monstros é sobre a infância, mas não necessariamente para crianças. Para nós, adultos, é um prato cheio para liberarmos esses monstros internos que nos perseguem e que quase sempre não sabemos lidar. 

Preview 2010: Sherlock Holmes

dezembro 28, 2009

 
por Janaina Pereira
 
 
Guy Ritchie ficou mais conhecido como o marido de Madonna. O cineasta de Snatch, Porcos e Diamantes esteve envolvido nos últimos tempos com um projeto bastante ambicioso: (mais) uma adaptação para o cinema do clássico personagem de Sir Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes. Os mais céticos acreditavam que Ritchie não daria conta do recado. Grande engano. O diretor não só imprime seu estilo como joga luz e glamour sobre um dos personagens mais fantásticos da literatura. Sherlock Holmes, o filme que estreia dia 8, é sofisticado, elegante, irônico, moderno e autêntico. Uma obra perto da perfeição.
 
Para quem acha que Sherlock é ‘apenas um detetive’, vamos a algumas explicações. Criado por Sir Arthur Conan Doyle, o personagem surgiu pela primeira vez em Um Estudo em Vermelho, editada pela revista Beeton’s Christmas Annual no Natal de 1887. Sisudo, arrogante e fabulosamente inteligente, já aparece como um brilhante detetive, capaz de desvendar os maiores mistérios usando seus conhecimentos de química e a dedução.
 
Sempre acompanhado de seu fiel escudeiro, o médico John Watson, não se exercita por vontade própria, mas tem ótima forma, é bom corredor e dotado de uma força pela qual, segundo Watson, poucos poderiam dar-lhe crédito. Apontado como “excepcionalmente forte nos dedos” (frase do livro A Coroa de Berilos) e um “aperto de aço” (do livro Seu Último Adeus), muito hábil no boxe, esgrima e baritsu, um sistema japonês de defesa pessoal.
 
Mestre do disfarce, Holmes pode passar facilmente despercebido. Frio, desprendido de qualquer sentimento, sem a menor compaixão pelas mulheres e irônico até dizer chega, nunca usou o cachimbo curvo (usava cachimbo comum) e jamais pronunciou uma das frases mais famosas do mundo.
 
Isso mesmo. “Elementar, meu caro Watson”, não aparece nos livros. Mas as adaptações teatrais e cinematográficas recriaram o personagem, fazendo da frase uma marca registrada de Sherlock. Guy Ritchie não segue a linguagem que popularizou o herói, e se apoia nos textos de Doyle para fazer seu filme, dando um ar jovial e viril ao personagem. Em Sherlock Holmes, o detetive tem o corpo (e que corpo!), a alma e toda a ironia de Robert Downey Jr, escolha acertadíssima para o papel. O ator está completamente à vontade, e encarna o personagem com convicção. Um raro caso de ‘foram feitos um para o outro’ –  Downey Jr é o melhor Sherlock que poderia ser.
 
Não existe Holmes sem Watson, e coube a outro galã, Jude Law, vestir a elegância discreta do médico. Carismático, doce e amigo fiel, o Dr. Watson de Law ilumina a tela, não sendo um mero coadjuvante. Nesta versão, ele tem destaque e personalidade própria. As melhores cenas do longa são os duelos verbais da dupla, em que podemos perceber como os atores se divertiram enquanto filmavam. Desde já, Law & Downey Jr.  – ou Watson & Sherlock – formam uma das melhores dobradinhas do cinema.
  
Guy Ritchie leva para a telona uma história baseada nos quadrinhos de Lionel Wigram, e inspirada nos contos clássicos de Sir Arthur Conan Doyle. O thriller de ação e mistério narra uma nova aventura de Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.) e seu leal parceiro Watson (Jude Law). Tudo parece anormal na vida de ambos: após a resolução de mais um caso – eles conseguem deter o Lorde Blackwood (Mark Strong), que matou inocentes mulheres em rituais e foi condenado à morte – Sherlock não encontra motivação para desvendar outros mistérios e Watson pretende dar um novo rumo à sua vida.
 
Para surpresa de quem está acostumado às histórias antigas do detetive e seu amigo médico, Dr. Watson está prestes a se casar e Holmes não quer perder o companheiro de aventuras – taí uma sacada bem bacana do roteiro, que permite revelar um pouco do sentimento do personagem, sempre tão racional e preciso.
 
Mas, para infelicidade – ou não! – da dupla, Lorde Blackwood ressurge das cinzas. O maquiavélico vilão não morre, o que faz Watson voltar a ajudar Holmes, mesmo a contragosto. Eles se unem para deter Blackwood, que  está disposto a executar um plano ainda mais diabólico, que pode fazer com que Londres vá pelos ares.
 
A história é intrincada, como todas de Holmes. É preciso prestar atenção para desvendar os mistérios, saber os rumos da trama e não se perder pelo meio do caminnho. Isso faz parte da essência dos livros e não é diferente no filme. É preciso embarcar na aventura e não tentar adivinhar como tudo termina – sempre achei impossível seguir a lógica de Sherlock, embora no final tudo faça sentido.
 
Vale ressaltar ainda que o filme conta com Rachel McAdams (Irene Adler, citada em um dos livros de Doyle, uma das poucas mulheres que Holmes via com certo apreço)  como o ‘enfeite’ da vez. Além de ser sem sal, sem pimenta e sem tempero, a atriz é ‘engolida’ pelas atuações de Downey Jr. e Law. Fraquinha que só ela, é totalmente dispensável em uma futura e bem possível continuação do longa.
 
Sherlock Holmes ainda mostra que o estilo ‘diretor de videoclipe’ de Ritchie faz bem mesmo em uma obra tão clássica: os cortes rápidos, a câmera lenta que logo agiliza a resolução da cena, as tomadas suspensas, tudo funciona com graciosidade, dando um ar moderno e vigoroso à trama.
 
Outro destaque é a ótima trilha sonora de Hans Zimmer, além dos belos figurinos e da fotografia exuberante, que imprime um ar obscuro, mas luminoso, para a Londres vitoriana de Sherlock – algo que lembra um pouco os tons sombrios de Tim Burton.
 
Posso dizer que Sherlock Holmes é daqueles filmes apaixonantes, que permitem o espectador embarcar na telona sem a menor cerimônia. É divertido, inteligente, simpático e bonito de se ver, não só pelo visual da produção, mas também pela boa forma de sua dupla de protagonistas. Elementar, meu caro Guy Ritchie.
 
  
Assista ao trailer de Sherlock Holmes.
 
 
 
 

Preview 2010: Chéri

dezembro 24, 2009

por Janaina Pereira

A beleza pode fazer muito por uma mulher, porém, mais cedo ou mais tarde, vai cobrar seu preço. Aproveitar os belos traços da juventude é uma dádiva, mas envelhecer faz parte, e com as rugas vem uma infinidade de sentimentos até então inexplorados. O amor entre uma belíssima mulher madura e um rapaz mais jovem, que se tornou um clichê cinematográfico, ganha os contornos sombrios da velhice que atinge em cheio esta mulher. E não é qualquer mulher, é aquela que foi – e ainda é – uma das maiores referências de belezas hollywoodianas: Michelle Pfeiffer.
 
Cabe a atriz, hoje com 51 anos, dar vida à personagem principal de Chéri, o drama de Stephen Frears – que dirigiu Michelle no ótimo Ligações Perigosas – baseado no livro da  renomada escritora francesa Colette, que chega às telas em 22 de janeiro.
 
Situado na exuberante Paris antes da Primeira Guerra Mundial, Chéri conta a história da relação amorosa entre a linda cortesã aposentada Léa (Michelle Pfeiffer) e Fred, apelidado de Chéri (Rupert Friend), filho de sua antiga companheira de profissão e rival, Madame Peloux (Kathy Bates).

Léa educa o imaturo e mimado garoto nas artes do amor, mas depois de seis anos Madame Peloux planeja secretamente um casamento entre Chéri e Edmée (Felicity Jones), filha de outra rica cortesã, Marie Laure (Iben Hjejle).

Léa parece aceitar tudo mas sileciosamente percebe que, se a idade fez com que ela fosse fundamental para o amadurecimento sentimental de Chéri, são os sinais da velhice que tiraram dela toda e qualquer chance de viver um grande amor.

Ao perceber que por sua cama, enquanto jovem, tantos homens passaram, e agora na velhice ela está só, Léa se confronta com algo que o espelho não pode revelar: mais do que passar o tempo com Chéri, ela o amou de verdade, e isso ninguém poderá mudar. Enquanto isso, o rapaz tenta se acostumar com a idéia de que pode se casar e viver à sombra do sentimento avassalador por Léa.

O grande trunfo do filme está em Michelle Pfeiffer, linda, loira e com a dignidade mantida em rugas que mostram o passar dos anos, mas que a mantém única na tela. Sua beleza perturbadora ajuda a conduzir os caminhos da cortesã Léa, uma mulher que viveu apoiada no belo e que já não tem mais nada em que se apoiar, a não ser sua experiência de vida. Michelle empresta o rosto que Léa merece ter, a beleza amarga pelo passar dos anos, mas mantida apesar do avanço da idade.

Como sempre, Frears se preocupa com cada detalhe do filme: fotografia, direção de arte, trilha sonora e toda parte técnica são um luxo. Vale ressaltar ainda a participação da sempre talentosa Kathy Bates como a mãe de Chéri.

Para as mulheres, Chéri soa como um tapa sem luva de pelica, uma forma de mostrar que o tempo passa e o amor vai com ele, sem dó nem piedade. Seria mais fácil se a gente não se importasse com as rugas que ganhamos com os anos, e nos preocupássemos apenas com o amor que sentimos por alguém.

Aliás, amar não deveria ser complicado, mas como o filme enfoca muito bem, a gente faz muita questão que seja.

Preview 2010: Procurando Elly

dezembro 23, 2009

 

por Janaina Pereira

Os cineastas iranianos sempre encontraram no cinema uma forma de expor suas opiniões sobre a política do país. Asghar Farhadi preferiu mostrar com sutileza o regime autoritário que encarcera as mulheres do Irã. Em Procurando Elly, que estreia no dia 1, o diretor – vencedor do Urso de Prata em Berlim em 2009 – faz um filme de suspense de altíssima qualidade, deixando os espectadores tensos em seus 119 minutos de exibição.

A história já começa bem diferente do que se espera de uma produção iraniana. Oito pessoas se reunem para uma viagem de final de semana e o clima é de pura alegria. Jovens, modernos e simpáticos, seis deles são casais com filhos. Ahmad, o solteiro do grupo, acabou de se divorciar e voltou ao Irã depois de anos vivendo na Alemanha. Sua amiga Sepideh, que organizou a viagem, convida também a professora de sua filha, Elly, sem avisar o grupo.

Sepideh e os outros tentam unir Elly a Ahmad. Ela, entretanto, aparenta não estar à vontade e planeja ir embora no dia seguinte. Após os protestos de Sepideh para que passe mais alguns dias, Elly se vê obrigada a ficar. No entanto, um acidente acontece e ela desaparece.

O sumiço da jovem é o estopim para uma reviravolta nos relacionamentos do grupo. Sem saber de fato o que aconteceu, a desarmonia se instala e os conflitos são inevitáveis. Uma rede de mentiras é criada e a medida que tentam resolver a situação, tudo piora.

Ao mesmo tempo que o grupo procura por Elly, acabam descobrindo mais sobre a jovem. E o desespero da busca é muito bem narrado na trama, com direito a diálogos ásperos e interpretações viscerais do elenco. A direção também é precisa: a câmera de Farhadi, inquieta, nervosa e muito menos contemplativa do que normalmente se vê no cinema iraniano, é fundamental para promover a tensão da história.

As cenas feitas no mar, de impressionante realismo, causam mal estar e sofrimento, pois a câmera acompanha tão de perto que parece que somos parte integrante do filme. Farhadi faz com que não só seus personagens, mas o público também procure por Elly.

E, de quebra, nas entrelinhas, ainda há um discurso sobre o modo autoritário como as mulheres são tratadas no Irã. Ao descobrirmos algumas coisas sobre Elly, é mostrado como a mulher iraniana não tem vontade própria e ainda precisa passar por situações hostis.

Procurando Elly é um filme de roteiro simples, que consegue se destacar pela habilidosa forma como sua narrativa foi feita. Reparem nos detalhes de cada personagem, em suas reações e na forma como se comportam. É a tensão humana que dá o tom do filme, levando Farhadi ao exercício máximo que uma direção preciosa pode ter em um grande trabalho cinematográfico.

O longa mostra do que o ser humano é capaz quando chega ao seu limite – e este limite é testado em Elly e nos demais personagens. É tenso, intenso e cheio de fortes emoções.

Encontro de Casais

dezembro 22, 2009

por Janis Lyn*

Junte quatro casais, alguns com problemas matrimoniais e outros que “pensam” que não, e os jogue num resort por sete dias com especialistas no assunto. O resultado é o filme Encontro de Casais (Couples Retreat), nova comédia em cartaz a partir de 25, dia de Natal.

O elenco inteiro é conhecido: Jean Reno, Jon Favreau, Vince Vaughn, Kristin Davis, Jason Bateman, Faizon Love, Malin Akerman, Kristen Bell e Peter Serafinowicz. Pelos nomes, já dá para perceber que (quase) todos são atores deste gênero: comédia. O filme inteiro foca os quatro casais que viajam a um luxuoso resort para resolver problemas conjugais.

O longa tem algumas cenas e diálogos divertidos, como, por exemplo, uma batalha no Guitar Hero entre dois dos atores e algumas discussões de casal que são, de fato, comuns entre a maioria.

No entanto, o desenvolvimento de Encontro de Casais é bem mediano. Nada fora do padrão americano de comédias. Mas estreou em época de férias, justamente porque o público neste período quer ver filmes lights.

Outro ponto legal no filme é a trilha sonora, que foi feita pela oscarizado A.R Rahman. A direção é do novato Peter Billingsley. Se for ao cinema ver este filme com um amigo (a) ou namorada (o), vá sem expectativas e seja feliz dando algumas gargalhadas, mas já aviso…as risadas não serão muitas.

*Janis Lyn é jornalista e crítica de cinema no blog Diário de uma Foca em Crise

Avatar

dezembro 15, 2009

por Janaina Pereira

James Cameron é o responsável por um dos melhores filmes da década de 1980, O Exterminador do Futuro. Mas, infelizmente, ele hoje é mais lembrado como o diretor do arrasa-quarteirão Titanic. Avatar, seu novo longa que chega nesta sexta, 18, aos cinemas com a promessa de estraçalhar nas bilheterias do mundo inteiro, é um projeto antigo, e que termina com um hiato de 12 anos na carreira do cineasta.

Minhas impressões sobre o filme são de quem assistiu em 3D e no Imax. Isso significa que pude apreciar o espetáculo visual que é suaa grande atração. Megalomaníaco, Cameron não mediu esforços para mostrar um espetáculo grandioso, de colorido milimetricamente delicioso e que provoca o espectador o tempo todo. Você literalmente entra no filme, e isso pode ser bom ou ruim – levei longos 20 minutos para me acostumar com o clima de Avatar, período em que tive vertigem dentro do cinema.

Depois que meus olhos se acostumaram com o que via, aconteceu o que eu esperava: o longa não tem roteiro consistente. Não venham me falar que é um filme visual, ou que o roteiro é legalzinho. Para mim, grandes filmes sempre serão feitos a partir de grandes roteiros e isso Avatar não tem. Detesto produções em que você precisa adivinhar as inteções do roteirista, que as coisas não são claras, que tudo fica confuso e no final você supõe os fatos. Ou é claro ou não é. Cinema é feito de histórias, não de suposições.

A história do longa começa na Terra. Jake Sully (o fofo Sam Worthington, de Terminator 4) é um soldado que perdeu os movimentos da perna e quando a oportunidade de trabalhar em exploração de minas no Planeta Pandora chega, aceita o desafio. Pandora é um local exuberante e hostil. O ar é venenoso para humanos. Plantas e criaturas são predadoras e perigosas. E os nativos, humanóides azuis com mais de três metros, os Na´vi, não ficaram satisfeitos com humanos e máquinas que lá aportaram (mas tudo isso não fica claro durante o filme, você vai supondo ao longo de quase 3 desgastantes horas).

Devido ao planeta ser um lugar tão adverso, exércitos tradicionais são insuficientes para protegerem as minas. Para isso, uma espécie de programa de clones nomeado ‘avatar’, que combina o DNA de humanos e de Na´vi , foi criado. O resultado é essencialmente o clone de um Na´vi que pode preservar a percepção de um humano. O irmão de Jake Sully foi o doador original e controlador de um desses avatares. Mas ele foi morto e a corporação responsável pelo projeto chama Jake para ir a Pandora pilotar o tal corpo, já que ele tem o DNA que combina. Em troca, ele poderá andar novamente (essa é a única parte realmente bacana do roteiro, colocar o protagonista com uma deficiência física que, como avatar, ele não terá).

E lá vai Jake para Pandora e, enquanto está trabalhando em uma mina, encontra ViperWolf, um dos perigos do lugar. Antes que ele seja atacado, uma flecha perfura a criatura. Ela foi atirada por uma Na´vi (Zöe Saldaña), que o ensina sobre os perigos do planeta.

Os Na´vi vivem em harmonia com os perigos de Pandora, mas claro que os seres humanos querem estragar tudo. E Jake começa a ver as coisas de um novo ângulo e, obviamente, vai se revoltar contra os humanos, etc e tal.

É necessário muita paciência para começar a curtir o filme. Você vê todo aquele visual alucinógeno, fica encantado, espera por Celine Dion gritando a qualquer momento – a voz da cantora me assombrou o filme todo porque a trilha sonora lembra demais Titanic – vê as legendas tremerem mas… a história não engrena. Não convence. Não pega nem no tranco. Ainda mais quando começa o discurso ambientalista.

Apesar das crateras no roteiro – é preciso prestar imensa atenção para entender situações simples, como, por exemplo, em que ano se passa aquilo tudo – Avatar tem estilo próprio e os Na´vi são uma versão gigante dos Smurfs – seres azuis, simpáticos e carismáticos. O que me atraiu, no entanto, foram os avatares, especialmente o de Sigourney Weaver, muito semelhante à atriz.

Dizer que Avatar é o filme de 2009 ou o melhor já feito em todos os tempos é um exagero sem tamanho, e uma ofensa num ano em que foi produzido o melhor filme de ficção científica desta década que está quase no fim – Distrito 9, esse sim, um roteiro inteligente e a prova de que grandes filmes não precisam de efeitos especiais monstruosos, e sim de de uma boa história.

Avatar é, de fato, um espetáculo grandioso, bonito de se ver em Imax, e que, no mínimo, tem que ser visto em 3D. É filmão bem feito, não chega a ser ruim, mas não vamos exagerar. É para curtir e pensar como um marco tecnológico, uma revolução visual, mas sem o peso, por exemplo, de Star Wars – feito em 1977 com maquetes que poderiam soar toscas hoje, mas que ainda funcionam com rara força graças ao… roteiro brilhante.

É, eu gosto de bons roteiros. E, desculpem os fãs do cinema visual, isso Avatar não tem. Vale como uma viagem criativa, então, embarque nessa sem pretensões e divirta-se como puder.

Partir

dezembro 14, 2009

por Janaina Pereira

Partir , drama da diretora francesa Catherine Corsini (Os Ambiciosos) já em cartaz no Rio e que estreia na próxima sexta, 18, em São Paulo,  traz a inglesa Kristin Scott Thomas, uma das minhas atrizes preferidas, no papel de Suzanne, uma mulher bem casada e aparentemente feliz em sua vida confortável.

Um dia, porém, cruza o seu caminho Ivan (Sergi Lopez), um homem recém-saído da prisão. A atração entre os dois é tão forte a ponto de Suzanne largar o marido e os filhos para começar uma nova vida. Mas as coisas, claro, não vão ser tão simples assim.

O tema batido da mulher que redescobre o amor e a alegria de viver oscila entre bons e maus momentos e consegue alcançar as contradições de alguém que resolve entregar-se a uma aventura como essa, mas sem resistir aos clichês.

Mas o filme tem um grande trunfo: Kristin dá show, como sempre, falando em francês fluente. Sua personagem é uma mulher apaixonada, que não mede esforços para ficar ao lado do homem que ama.

Partir é um filme até curto diante da densidade da trama, não se alongando em reflexões ou conclusões. É daquelas histórias em que o amor é colocado como essencial ao ser humano e deve estar acima de tudo e de todos. Bem bacana.

A Princesa e o Sapo

dezembro 11, 2009

Por Léo Francisco*

Após cinco anos sem produzir longas-metragens de animação tradicional, feitos à mão, a Walt Disney Animation Studios lança nos cinemas A Princesa e o Sapo, 49º longa-metragem de animação do estúdio, que destaca-se de outros animados não só pela técnica, que consagrou a Disney como o maior estúdio de animação, mas provando que os contos de fadas românticos ainda estão na moda, se forem contados de um modo moderno e atual.

Dirigido pela dupla de veteranos Ron Clements e John Musker, que já fizeram juntos longas como O Ratinho Detetive (The Great Mouse Detective), A Pequena Sereia (The Little Mermaid), Aladdin (Aladdin), Hércules (Hercules) e Planeta do Tesouro (Treasure Planet), o longa é inspirado na fábula, O Príncipe Sapo, dos irmãos Grimm, mas, como sempre, o estúdio apresentou uma adaptação diferente da obra original cheia de magia.

A Princesa e o Sapo traz a primeira princesa afroamericana dos estúdios Disney, e mesmo parecendo uma princesa tradicional, Tiana (voz de Anika Noni Rose na versão original e Kacau Gomes na versão brasileira) é uma jovem atraente, independente, esforçada e que não acredita em contos de fadas. Ela vive na lindíssima cidade de Nova Orleans, década de 20, um local repleto de aventura, romance, magia e muita música. Sem tempo para romances, seu maior sonho é ter um restaurante bem sucedido, mas mesmo trabalhando muito ela vê seu maior desejo cada vez mais distante. Até que um dia, ela conhece o mimado, irresponsável e indolente príncipe Naveen (Bruno Campos original; e Rodrigo Lombardi na versão brasileira), do reino distante da Maldonia, mas ele está um pouco diferente, pois foi transformado num sapo por um feiticeiro vudu, chamado Dr. Facilier (Keith David na versão original; e Sergio Fortuna na versão brasileira), que fez um pacto com os seres do outro lado para conseguir roubar a fortuna do príncipe – um clássico vilão da Disney.

Naveen acredita que se ganhar um beijo de uma princesa, igual nos contos de fadas, vai conseguir recuperar a sua forma humana, mas ele não contava que ao beijar Tiana, ela também seria transformada num anfíbio. Para voltar ao normal, eles partem numa grande aventura pelos pântanos místicos da Louisiana, em busca de uma velha feiticeira de 197 anos de idade chamada Mama Odie (Jenifer Lewis m na versão original e dublada na versão brasileira por Selma Lopes).

Antes de chegarem até ela, eles enfrentam divertidos caçadores de sapos, numa divertida cena, que lembra e muito os clássicos cartoons no estilo “Pica Pau”, e contam com a ajuda de dois novos amigos, o apaixonado vaga-lume cajun chamado Ray (dublado originalmente por Jim Cummings e na versão nacional recebe a voz de Márcio Simões) e o divertido jacaré-trompetista chamado Louis (Michael-Leon Wooley e dublado na versão brasileira por Mauro Ramos), que tem como sonho tocar um dia com os humanos.

Mesmo com um grande número de personagens, todos eles tem um papel fundamental e até mesmo os coadjuvantes conseguem ser tão cativantes e emocionar tanto como o casal principal – o casal Ray e Evangeline, a exemplo, vai fazer muita gente sair com lágrimas nos olhos após ver o filme e a divertida Charllote, melhor amiga de Tiana, vai arrancar muitas gargalhadas durante todas as suas cenas.

Além dos personagens, as canções também tem um papel fundamental na história, coisa que não é novidade na Disney, conhecida por seus números musicais inesquecíveis. Nesse novo clássico não é diferente. Com músicas do premiado compositor Randy Newman (“Carros”, “Monstros S.A.”, “Toy Story”), a trilha sonora é viciante e as sete canções inéditas vão grudar na cabeça de quem curte um bom jazz, blues, gospel, Dixieland e até mesmo zydeco, estilos combinados pelo compositor.

Com cenários perfeitos que nos transporta para dentro da história, o que mais diferencia “A Princesa e o Sapo” de outras produções é o romantismo e o humor em parceria. Diferente de outros animados, neste há piadas ao mesmo tempo sofisticado para os pais e divertidas para as crianças, não caindo no clichê de piadas de banheiro e cheiros, uma detestável frequência em alguns filmes. Até a dublagem nacional se destaca, com uma escolha interessante de vozes, que se encaixam perfeitamente com os personagens. Uma curiosidade são as referencias a filmes de sucesso, como “Missão Impossível” e “Uma Rua Chamada Pecado”, além de vermos outros personagens e objetos de outras produções Disney aparecendo na tela.

Mesmo sendo sombria demais, o segundo ato acaba tendo um segmento que vai lembrar “Anastasia” (1997), longa-metragem de animação da Fox Animation Studios. Mas mesmo assim não perde seu brilho e surpreende a todos com um final que marcará as animações Disney.

“A Princesa e o Sapo” merece ser assistido com toda a família e, fatalmente, vai entrar para a lista dos grandes clássicos do estúdio por conseguir usar um tipo de história já conhecida para apresentar personagens marcantes e encantadores, além de uma trilha sonora viciante e ótimos momentos de diversão, aventura e muita emoção. Um revival da pura e velha magia Disney presente em clássicos como “A Bela e a Fera”, “O Rei Leão”, “Pinóquio”, “Branca de Neve e os Sete Anões”, entre outros clássicos, que até hoje encantam e emocionam gerações e gerações.

* Léo Francisco é editor dos sites Planeta Disney e Universo Animado e escreveu esta crítica à convite do Cinemmarte.

Aconteceu em Woodstock

dezembro 10, 2009

por Janaina Pereira

Um Ang Lee cheio de graça e leveza. É esta a impressão deixada por Aconteceu em Woodstock, novo trabalho do diretor de O Segredo de Brokeback Montauin, já em cartaz no Rio e que chega, finalmente, às telas de São Paulo amanhã.

O público poderá se deliciar com a história verdadeira de Elliot Tiber, jovem gay filho de rígidos imigrantes que não tinha coragem de revelar sua homossexualidade. Ele tenta salvar a família, prestes a perder o hotel decadante que é sua única fonte de renda.

Com uma boa dose de sorte e inconsequência, Tiber fecha o contrato para abrigar shows de rock e atrai para a região o público hippie que a cidade vizinha repudiara. E assim acontece o maior e mais importante festival de rock do mundo, o lendário Woodstock, que está completando 40 anos.

O que se passa nos dias que antecedem o Festival, e como ele acontece e revoluciona a vida do rapaz, é o que o filme mostra, com muito humor mas num tom completamente intimista, fazendo o público participar de cada momento que mudou a vida de Tiber.

O elenco, afiadíssimo, é um caso a parte. Demetri Martin, que faz Elliot, está perfeito, assim como Henry Goodman e Imelda Staunton- os pais austeros do protagonista – Emile Hirsch e Liev Schreiber,  todos com personagens marcantes.

Aconteceu em Woodstock tem roteiro de James Schamus, baseado no livro de Tiber (Taking Woodstock), e seu único defeito é não apostar na trilha sonora. Ouvimos ali ao fundo Janis Joplin, o final é apoteótico, mas parece que as imagens coloridas mereciam mais. Apesar da falta do som que marcou uma geração – e todas que vieram depois – o filme é bem resolvido e extremamente honesto, o que só faz aumentar minha admiração por Lee. É visível que ele é um diretor de grandes recursos e sabe filmar com muito carinho uma história distante do seu mundo real.

Nascido em Taiwan, Lee reproduz respeitosamente os bastidores do festival que ofereceu “três dias de paz e música” com Janis Joplin, Jimi Hendrix e Bob Dylan, entre 15 e 17 de agosto de 1969, e revolucionou a pequena cidade de White Lake, perto de Nova York.

Exibido na abertura do Festival do Rio 2009 e na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Aconteceu em Woodstock  coloca Ang Lee no patamar de cineasta universal. E dos bons.