Julie & Julia

novembro 27, 2009

por Janaina Pereira

Na tela, Julie & Julia – em cartaz a partir de hoje – intercala a vida real de duas mulheres que, apesar de separadas pelo tempo e pelo espaço, estão ambas perdidas, até descobrirem que com a combinação certa de paixão, coragem e manteiga, tudo é possível. Mas o simpático filme vai além disso. O que temos ali são três mulheres vivendo momentos plenos: a diretora Nora Ephron (Sintonia de Amor) e as atrizes Meryl Streep e Amy Adams conseguem transformar o longa em algo além do trivial.

Nora dirige Streep no papel de Julia Child, uma americana que se mudou para Paris em 1948, onde estudou na famosa escola Le Cordon Bleu e começou a aprender a cozinhar entre renomados chefs franceses. Sua maior contribuição para a culinária norte-americana foi ter traduzido clássicos da gastronomia francesa para o inglês, deixando as receitas interessantes e práticas.

Em 1961, Julia publicou o best-seller Mastering the Art of French Cooking, que foi uma chave importante para o grande interesse que os americanos começaram a ter pela cultura francesa. De volta aos Estados Unidos, ela virou celebridade, apresentando programas de TV até a década de 1990.

E a Julie do título? Bom, aí entra a parte romântica, marca da diretora. A Julie é uma garota dos tempos atuais que resolve fazer as 524 receitas do livro da Julia Child em 365 dias e contar tudo no blog The Julie / Julia Project. Nora consegue intercalar a história das duas mulheres com habilidade, dando ao expectador a chance de conhecer não apenas aquelas que fizeram da gastronomia o ponto alto de suas vidas, mas as mulheres que, ao mesmo tempo em que descobriam os segredos da culinária, descobriam a si mesmas.

O filme é redondo, com roteiro enxuto, e mostra a versatilidade de Nora como roteirista e diretora, além de sua particular sensibilidade para contar histórias femininas. Uma trama bem resolvida e divertida, e um prato cheio para Meryl,que mostra mais uma vez porque é a melhor atriz americana da atualidade.

Com voz de desenho animado, exatamente como a verdadeira Julia, Meryl Streep encarna com perfeição um dos ícones da TV americana. Amy Adams brilha em suas cenas de desespero na cozinha mas, no combate com Meryl, sai perdendo. Nada que tire seu brilho ou o charme do filme, que até inspira os mais desastrados a aprender a cozinhar.

Julie & Julia é perfeito para assistir depois de uma bela refeição. Antes não, porque certamente você vai ficar com fome.

Assista ao trailer de Julie & Julia.

Tokyo

novembro 26, 2009

por Janaina Pereira

 

Três dos diretores mais criativos da atualidade se uniram para realizar um filme de episódios fantasiosos passados na capital japonesa. Tokyo, em cartaz a partir de amanhã, é dividido em três episódios: Interior Desing, de Michel Gondry (de Brilho Eterno uma mente sem lembranças);  Merde, de Leos Carax (de Pola X) e Shaking Tokyo, de Bong Joon-Ho (O hospedeiro).

Os fãs do francês Gondry vão reconhecer facilmente o estilo de narrativa que o consagrou no episódio Interior Desing. O diretor conta a história de um jovem casal que tenta se ajustar na cidade de Tóquio. O rapaz sonha em ser um diretor de cinema enquanto a jovem é mais insegura. Na incessante busca por se sentir útil, ela acaba passado por uma inusitada transformação.

Merde gira em torno do personagem-título, o Sr. Merde, uma criatura misteriosa que espalha o pânico pela cidade por meio de seu comportamento provocante e destrutivo. É o episódio mais fraco do filme

Em Shaking Tokyo,  Joon-Ho narra a história de um homem que está trancado há vários anos em seu apartamento e que um dia se encanta pela entregadora de pizza. A metáfora do isolamento na cidade grande e das pessoas fechadas em seu próprio mundo faz deste o episódio mais sensível e interessante de Tokyo.

O longa é para aqueles que gostam de realismo fantástico, ou seja, um público mais acostumado com histórias pouco convecionais. Não chega a ser brilhante, mas apresenta pelo menos duas propostas – a de Gondry e de Joon-Ho – extremamente verdadeiras sobre a opressão da cidade grande. E, só por isso, o filme já merece atenção.

 

Lua Nova

novembro 20, 2009

por Janis Lyn*

Há 11 meses, quando comecei a ler a quadrilogia vampirística da Stephanie Meyer, fiquei encantada com a intensidade dos personagens criados pela autora que, mesmo fictício, nos faz sentir como algo possível e próximo. Isso porque ela conduz a história de forma envolvente e única, com situações que todo mundo já viveu, ou vai viver um dia.

Desde então eu já sabia: seria impossível captar a energia dos livros e o mesmo envolvimento com os personagens nas adaptações para o cinema. Começou com  Crepúsculo, que foi feito de forma independente, pois não sabiam se ia fazer sucesso ou não.

Como virou uma febre, a produção da segunda parte,  Lua Nova, foi totalmente diferente e melhor, é claro. Hoje fui ao cinema conferir como ficou o filme (em meio a histéricas e alucinadas fãs).

A história todos já sabem: Edward abandona Bella para seu próprio bem, depois dela ser quase atacada por Jasper, irmão dele. Em depressão, ela se aproxima de seu amigo Jacob, que logo se transforma em lobo e Bella se vê num mundo totalmente diferente dos vampiros, que é o que ela estava acostumada.

Muitas cenas foram cortadas e muitas foram 100% fiéis ao livro. Foi bem balanceado. Achei um pouco exagerada a forma que Edward fica porpurinado quando aparece ao sol, sendo que no primeiro filme é bem discreto. Este exagero chegou a ficar estranho.

Impressionante como Taylor Lautner (Jacob) mudou pra conseguir ficar com o papel. Mesmo que pessoalmente, como conferi na coletiva de imprensa, ele não seja tudo isso. O Robert Pattinson (Edward) mal aparece no filme – ele aparece bem mais do que no livro – mas arranjaram uma forma diferente dele aparecer, mesmo que não seja fisicamente (quem leu sabe do que estou falando). Esta mudança eu gostei. Kristen Stewart(Bella) está sem sal e não tem nenhuma cena de destaque.

Em suma, o filme é feito para fãs que leram o livro. Quem não conhece a história pode ficar um pouco perdido com a rapidez que as coisas acontecem e se explicam. Pois nas 2h10 de duração muita coisa ficou de fora, o que é normal em adaptações.

O final do filme é direto e reto, deixando um gosto de quero mais para  Eclipse, que estréia na metade do ano que vem. Agora só nos resta aguardar.

* Janis Lyn é jornalista, autora do blog Diário de uma foca em crise e escreveu esta crítica a convite do Cinemmarte.

2012

novembro 12, 2009

poster-filme-2012-rio

por Janaina Pereira

O mundo vai acabar em 2012. A piada, que vem fazendo parte do cotidiano dos cinéfilos brasileiros, ganhou força depois do apagão que tomou conta do País na última terça, 10 de novembro. 2012, o filme-catástrofe da vez, estreia desta sexta-feira 13, não poderia chegar em hora melhor no Brasil. O longa do diretor Roland Emmerich é mais uma produção que destrói o mundo – ou parte dele.

Emmerich foi esperto ao aproveitar o bom momento internacional do Rio de Janeiro e colocar a cidade na rota do fim do mundo. O primeiro grande erro de 2012 vem daí: o poster que mostra o Cristo Redentor (foto), um dos maiores símbolos do turismo nacional, sendo destruido, está na pespectiva errada. Desde quando o Cristo fica ali grudado no Pão de Açúcar? Fala sério.

Para piorar, no filme o Cristo é destruido de forma ridícula, em uma cena rápida que aparece como ‘transmisssão da Globo News’. Tanto alarde para nada.

Se para nós esta era a parte mais interessante, o que dizer do resto? Muito pouco. 2012 é aquilo que se espera dele: efeitos especiais de primeira em um roteiro chinfrim.

Todos os clichês que fizeram o sucesso dos filmes catástrofes nos anos 1970 estão lá: um bom ator como protagonista – aqui é John Cusack, no passado foram Paul Newman e Steve McQueen em Inferno na Torre e Gene Hackman em O destino do Poseidon – família que tenta superar seus problemas, casais separados que ainda se amam, o presidente americano do bom (dessa vez ele é negro e ninguém menos que Danny Glover!), outro político qualquer do mal, e por aí vai.

O herói que tenta salvar a família é John Cusack, mas antes que ele aparece efetivamente em cena, temos mais de uma hora de explicações sobre o porquê do mundo acabar. 2012 começa, na verdade, em 2009, quando um cientista indiano percebe que a Terra está com seus dias contados e neste trecho tem uma explicação detalhada sobre profecias maias.

E quando chegamos, finalmente, a dezembro de 2012, as coisas começam a explodir. Com o alinhamento da Terra com os outros planetas o mundo começa a sofrer uma série de catástrofes e se torna quase inabitável, resultando em uma morte massiva de seres vivos por todo planeta.

O governo dos Estados Unidos – sempre eles! – decide construir arcas insubmergiveis para salvar uma parte da população, para depois reconstruir novamente a civilização. Claro que eles não vão construir as arcas, né? O trabalho duro fica com os chineses. O clima é de Arca de Noé, mas agora é uma arca moderna, ou melhor, são quatro arcas made in China.

Os americanos podiam sacanear e mostrar as arcas partindo ao meio antes do fim da travessia, mas não, o objetivo do filme não é questionar a qualidade dos produtos chineses, mas fazer uma produção globalizada – e as espécies que vão sobreviver são escolhidas de acordo com a quantidade de grana que possuem em seus bolsos, não pelas suas nacionalidades Multiculturalidade, nem pensar.

Mas tem sempre um pé rapado tentado fura a fila, no caso John Cusack & família. E nesta odisseia, enquanto o mundo vai pelos ares e os ricos tentam um lugar nas arcas, lá se vão 158 minutos da sua vida.

Roland Emmerich é fissurado mesmo por catástrofes – Independence Day e O dia depois de amanhã são outras pérolas dele – e dessa vez não poupa esforços para explicar sua história. Não me convenceu. Mas ainda tem gente que curte esse tipo de filme – eu conheço meia dúzia de pessoas que não vê a hora de conferir de perto o mundo indo para a ponte que partiu.

Se você é desses que gostam de filmes sem cérebro, faça bom proveito. Mas, admito, em uma coisa Emmerich acertou: não é Denzel Washington, o héroi americano deste século, quem salva o mundo. Menos mal.

Veja o trailer de 2012 .

 

Código de Conduta

novembro 8, 2009

por Janys Lyn*

A maioria dos filmes de ação com galãs no papel principal bate na mesma tecla :”mataram minha família e agora vou me vingar”. Apesar do filme Código de Conduta (Law Abiding Citizen) ter como princípio este clichê, consegue fugir da mesmice. Parte dessa culpa é dos atores principais (Gerard Butler e Jamie Foxx) e do competente diretor e roteirista – adireção é do F. Gary Gray (Uma Saída de Mestre / Be Cool/ O Negociador) e roteiro do Kurt Wimmer e David Ayer (Reis da Rua).

Vamos primeiro a história do filme: Clyde (Butler) testemunha sua esposa e filha serem assassinadas por dois ladrões. No julgamento, um dos culpados ganha liberdade devido à um acordo de interesses feito com o promotor Nick (Jamie Foxx).

Dez anos depois, este assassino é encontrado brutalmente morto e decidem prender Clyde, mesmo sem nenhuma prova. O estranho é que, mesmo com Clyde na prisão, e já assumido a culpa no assassinato, todo dia pessoas começam a morrer em circunstâncias duvidosas e inesperadas (todas diretamente envolvidas com a concessão de liberdade ao culpado na época).

Butler como o “justiceiro frio e sanguinário” desenvolve muito bem o que lhe foi proposto, assim como Jamie Foxx como o promotor corrupto e sem escrúpulos. E não posso deixar de falar também da atriz Viola Davis, que mal aparece no longa (assim como no filme Dúvida) mas sobressai.

Porém, o grande destaque no filme é mesmo o roteiro original, que fala sobre o dilema do sistema (in)justo da justiça americana.

Esperava um pouco mais no final, que vangloria demais os EUA e sua rapidez e competência (será ???) em resolver todos os problemas do mundo. Mas, acho que já sabia que ia ser assim.

À Procura de Eric

novembro 7, 2009

por Janaina Pereira

Chegou aos cinemas no último dia 6, À Procura de Eric, de Ken Loach, que não é, à primeira vista, um trabalho típico do diretor. Conhecido por ser engajado e transportar isso para seus filmes, Loach segue o mesmo caminho de Ang Lee e aponta para uma nova estrada, a da comédia. Mas os fãs do diretor não irão se decepcionar: nas entrelinhas é o bom e velho Loach de sempre, agora com boas doses de risadas.

A história gira em torno de Eric Bishop (Steve Evets), um carteiro da cidade de Manchester, na Inglaterra, apaixonado por futebol. Sua vida não é lá essas coisas, mas ele insiste em não olhar para frente: com um pé no passado e remoendo mágoas, acumula problemas e frustrações.

Seu grande ídolo é Eric Cantona, o jogador de futebol que idolatrado pela torcida do Manchester United nos anos 1990. E é o próprio Cantona que passa a visitar Eric em sua imaginação, dando conselhos e o ‘empurrãozinho’ que faltava para o carteiro aparar as arestas de sua vida. Com ajuda o ‘amigo’, Eric tenta resolver seus problemas com a ex-mulher e com um dos seus enteados. E percebe que, assim como no futebol, a vida também é uma caixinha de surpresas.

O longa tem como grande trunfo a dobradinha simpática entre Evets e Cantona. Há, no entanto, lá pelo meio da história, alguns momentos em que o jogador não aparece – quando a trama perde o ar de comédia e vira um drama tenso. Sente-se falta de Cantona neste trecho do filme, mas ele volta, nos momentos finais, para a redenção de Eric.

Cena a cena, À Procura de Eric vai crescendo em emoção, humor e referências a problemas corriqueiros que qualquer pessoa poderia ter. É essa identificação com o protagonista que aproxima o espectador do filme, sendo impossível resistir às suas imperfeições tão comuns ao ser humano.

Os amantes de futebol terão ainda a chance de ver Eric Cantona em momentos históricos no campo. E é justamente aí que Loach se revela: o esporte que leva multidões aos estádios foi o caminho achado pelo diretor para fazer uma análise sincera e peculiar do Homem.

À Procura de Eric  é o tipo de filme que conquista o público aos poucos, fazendo com que o personagem fique em nosso imaginário assim como Cantona ficou no dele. Simpático e simples, mexe com a massa, exatamente como o futebol. E, ao invés de aplausos, vamos fazer uma ‘ola’ para o Ken Loach. Ele merece.

 

(500) Dias com Ela

novembro 6, 2009

por Janaina Pereira

“O filme a seguir é uma história de ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Especialmente você Jenny Beckman. Vaca”. É assim que começa (500) Dias com Ela, em exibição a partir de hoje nos cinemas.

Este é o primeiro longa de Marc Webb, conhecido diretor de videoclips, que conquistou público e crítica no Sundance, passou pelo Festival do Rio e pela Mostra de SP com grande furor e chega ao circuitão cercado de expectativas. A trama parece ser mais uma comédia romântica, mas só parece. Bem, comédia até que é. Romântica, não necessariamente.

Summer, a mocinha (Zooey Deschanel, sósia da cantora Kate Perry), é descolada e apaixonante. Tom, o mocinho (Joseph Gordon-Levitt, extremamente semelhante ao saudoso Heath Ledger), é um típico nerd que acredita que vai encontrar sua alma gêmea. Ele, claro, se apaixonada por ela, mas a moça não quer compromisso sério porque simplesmente não acredita no amor.

Ainda assim, Tom se envolve com Summer e o que vemos na tela são, justamente, os 500 dias em que vive em função da garota que julga ser a mulher dos seus sonhos. Por muitas vezes, Summer é doce e adorável. Até o expectador se encanta por ela. Mas, como vemos o filme sempre da perspectiva de Tom, percebemos que a moça também consegue ser indiferente e cruel.

Algumas das frases mais dolorosas que os apaixonados nunca podem ouvir saem dos lábios carnudos de Summer. A menina não tem dó nem piedade de seu amado.

Claro que, com um diretor que veio do mundo da música, a trilha sonora tinha que ser destaque do longa. O momento em que Tom canta Here comes your man, do Pixies, é hilário. E as intervenções com She´s like the wind, idem. A trilha, aliás, é um personagem tão importante do filme quanto Summer e Tom. A linguagem da produção, de um modo geral, é bastante particular, imprimindo um estilo marcante para o jovem cineasta Webb, que conseguiu aproveitar na telona toda sua experiência visual com os clipes.

O que diferencia (500) Dias com Ela das outras comédias românticas é que, neste caso, não há romance, mas também não vemos o amor não correspondido. Porque Summer gosta de Tom, mas não o suficiente. E isso é o que nos torna cúmplices dele, e faz com que o filme seja criativo e inteligente, apesar de sua visão dolorosa, mas bastante verdadeira, do amor.

 Após assistir ao longa, só um pensamento me vem a cabeça: que Tom – e todos aqueles que um dia já foram rejeitados – viva muito bem 500 dias sem ela.

Assista ao trailer de (500) dias com ela.

 

coco-chanel-igor-stravinsky

por Janaina Pereira

Um retrato detalhado do breve caso entre o compositor russo Igor Stravinsky e a pioneira da moda Coco Chanel no início dos anos 1920 é um dos destaques da Mostra de SP.

Coco Chanel & Igor Stravinsky, dirigido pelo holandês Jan Kounen, e estrelado por Anna Mouglalis e Mads Mikkelsen nos papéis-título, é baseado em romance de Chris Greenhalgh que mistura fato e ficção.

O filme abre com a infame estreia de O Rito da Primavera em Paris, 1913, quando a trilha musical de Stravinsky e a coreografia experimental de Vaslav Nijinsky foram recebidos com vaias e gritos, quase um tumulto generalizado.

Sete anos depois, Chanel, que compareceu à estreia, é apresentada ao empobrecido compositor e convida ele e sua família a se mudar para sua vila. Embora os fatos do que aconteceu durante a breve estadia da família Stravinsky embaixo do teto de Mademoiselle Chanel sejam nebulosos, no filme os personagens têm um tórrido caso de amor que alimenta a criatividade de ambos.

Impossível não comparar este filme a outro que também tem a estilista como tema. Em Coco antes de Chanel, de Anne Fountaine, em cartaz em circuito, Gabrielle Chanel – vivida pela ótima Audrey Tautou – é uma mulher forte, determinada e apaixonada por suas criações.

Em Chanel & Stravinsky, a mulher que revolucionou a moda é arrogante, dissimulada e sem pudor, capaz de se envolver com um homem casado diante dos olhos da esposa dele – e sem se sentir culpada por isso.

Anna Mouglalis, que interpreta Chanel no longa de Kounen, é alta, magra e possui uma marcante voz grossa, totalmente o oposto da mignon Audrey, que imprimiu mais delicadeza à sua Coco.

De qualquer forma, Coco Chanel & Igor Stravinsky vale pela sua impecável direção de arte e por mostrar, com rara ousadia, o lado devasso de uma das mulheres mais influentes do século XX.

Chanel, mais do que nunca, está na moda.

 

Mostra de SP 2009: Vencer

novembro 4, 2009

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por Janaina Pereira

Um dos filmes mais vistos na Mostra de SP é Vencer (Vincere), do italiano Marco Bellocchio, drama histórico que acompanha a história real de Ida Dalser, supostamente a primeira esposa de Benito Mussolini.

O filme começa na década de 1910, com o futuro líder fascista (vivido por Filippo Timi) falando que Deus não existe para um grupo de católicos de Trento, em nome do grupo socialista do qual  se tornaria porta-voz. A ousadia de Mussolini encanta a jovem Ida (Giovanna Mezzogiorno), e os dois logo se tornam amantes às vésperas da Primeira Guerra Mundial.

Segundo a história oficial, o casal teve um filho, Benito Albino Mussolini, nascido em 1915, e o pai o reconheceu legalmente, mesmo sendo casado com outra mulher, Rachele (Michela Cescon). Na época, Ida não sabia que Mussolini era casado e já havia vendido todos os seus bens para financiar o jornal do então militante político.

Nos anos 1920, já conhecido como Il Duce (O Líder), Mussolini abandona Ida que, revoltada, exige seus direitos. Ela acaba sendo separada do filho e internada em um hospício, e passa o resto de sua vida alternando entre clínicas psiquiátricas e mantendo o discurso de ser a primeira esposa do ditador.

Sem ter como provar o casamento, Ida é coagida a negar o envolvimento com Mussolini e assim se livrar do hospício. Ela, no entanto, mantém sua palavra, e aí vem toda a força do filme ao apontar as atitudes opostas de Ida e do ditador.

Enquanto Il Duce discursa para as massas, depois de fazer as pazes com a Igreja, contruindo sua postura dissimulada que o mundo conheceu bem, Ida Dalser mantém sua palavra e permance até o fim afirmando sua condição de esposa. Enquanto isso, o filho do casal cresce à sombra do pai, e seu destino não é muito diferente do de sua mãe.

Vencer foi filmado como uma grande ópera, com músicas dramáticas pontuando as cenas mais densas, o que o torna cansativo várias vezes. Na segunda metade do filme, o diretor Bellocchio optou por usar cenas reais de Benito Mussolini, o que dá mais veracidade ao longa que mostra, acima de tudo, como uma imagem política e o poder de persuassão são construídos.

Mussolini começou enganando Ida para depois enganar meio mundo. Seu discurso manipulador não é muito diferente do que se ouve por aí, nos dias de hoje.  Por isso o filme de Marco Bellochio é muito mais do que um relato histórico; é, também, uma crítica à política.

Pixo

novembro 4, 2009

 


por William Magalhães*

Pixo é um filme foda, mano. Mostra os negócio dos cara da perifa na humildade, assim, sem zuar u bagulho, tu tá ligado?

Não dá pra começar um texto sobre Pixo, documentário dos irmãos João Wainer e Roberto T. Oliveira, sem falar – ou tentar falar – a linguagem dos protagonistas dessa história. Firmeza truta?
 
Em uma hora de imagens, os diretores traduzem com depoimentos e cenas de muros e prédios sendo pichados e o que é ser um pichador na maior capital do Brasil e da América Latina. Para isso, conta com “personagens” essenciais desta arte marginal paulista. 
 
O filme é uma imersão em um universo desconhecido da maioria das pessoas. Nele, vemos que a intenção da pichação é agredir, se comunicar com a própria comunidade de pichadores – interessante notar que quase a maioria dos pichadores que dão depoimentos falam de um movimento – e também protestar.

Pixo mostra os códigos de jovens buscando se expressar imprimindo suas próprias marcas (cada pichador desenvolve uma espécie de ‘alfabeto’) aos muros da cidade. O filme mergulha nos pontos de encontro e festas de pichadores além de apresentar um pouco da história da pichação, que nasceu política, fazendo resistência à ditadura, até os pichos de hoje e como foram influenciados no início pelos logos das bandas de rock.

Há histórias curiosas e desconhecidas que fazem parte da mitologia deste universo, como a do pichador Di, que após pichar o Conjunto Nacional, na avenida Paulista, ligou para a redação de um jornal. Passando-se por um morador assustado com o “ato de vandalismo”, detalhou seu feito para um repórter, que publicou o relato.
 
Um fato que o filme faz questão de ressaltar é que pichação não é grafite. E Pixo ter sido exibido na Mostra faz muito sentido. No evento do calendário cinéfilo a vinheta desta edição foi feita pela dupla de grafiteiros Otávio e Gustavo Pandolfo, Os Gêmeos, o que não deixa de ser um reconhecimento às obras dos irmãos que foram apagadas no muro da rua 23 de Maio, no centro da cidade, perto em meados de 2008.
 
Tão intrigante quanto as histórias por trás das pichações são os personagens que aparecem no filme. Está lá o depoimento de Carol Sustos, que cumpre regime semiaberto por ter pichado, no ano passado, a Bienal de Artes de São Paulo. Estão lá também imagens da pichação coletiva que aconteceu, também em 2008, no Centro Universitário Belas Artes, resultado do Trabalho de Conclusão de Curso do estudante Rafael Guedes Augustaitiz, que resultou em sua expulsão da faculdade.

Pixo conta também com o outro lado. Tem o depoimento de um porteiro que evitou a pichação de um prédio. Policiais em serviço coibindo a pichação, um deputado e ex-policial contrário à prática, além dos alunos da Belas Artes que presenciaram e sofreram com a ação do grupo de pichadores.  A trilha sonora é marcada pelo rap e por letras que, como não poderia deixar de ser, falam sobre pichação.
 
Por não fazer um julgamento moral ou de valor, o filme, em suas apresentações pela Mostra, já foi tido como apologia à pichação. Muito mais do que colocar um debate entre os contrários e os favoráveis, Pixo cumpre seu papel enquanto documentário. É mais ou menos como na questão do aborto: enquanto alguns discutem, são contrários e não fazem, a realidade está lá, mas há muito mais do que só um rabisco num muro. 
 
 *William Magalhães é jornalista do site e da revista A Capa e escreveu esta crítica especialmente para o Cinemmarte.