Mostra de SP 2009: Tyson

outubro 30, 2009

tyson

por Janaina Pereira

Quando eu era criança, lembro que meu pai, fã incondicional de boxe, dizia: “Hoje à noite tem luta do Tyson, é bom que ele acaba logo com o outro lutador e eu vou dormir mais cedo”. No dia seguinte, eu perguntava ao meu pai como tinha sito a luta e ele me respondia: “Acabou em menos de um minuto.” Era sempre assim: com Tyson no ringue, não tinha para ninguém.

Mike Tyson foi um dos maiores pugilistas da história do boxe. Para as novas gerações, o lutador talvez seja conhecido apenas como um cara arruaceiro, sempre envolvido em confusões. Para quem tem mais de 30 anos, Tyson é lembrado como um fenômeno sem precedentes no boxe, que acabou sendo encurralado pelo seu próprio sucesso.

Impossível imaginar que um dos atletas mais importantes do mundo teria sua imagem vinculada a tantas coisas negativas. De estupro a arrancar a orelha dos adversários, Tyson esteve envolvido em confusões que lhe renderam alguns anos de cadeia e um fim de carreira insólito. Nada disso, porém, tira o brilho daquele que acabava uma luta em poucos segundos, que nocauteava sem nenhum pudor.

É este homem, um lutador dentro e fora do ringue, que o documentário Tyson, de James Toback, consegue mostrar com grande sinceridade. Baseado apenas nas palavras de Mike Tyson – ele é o único a dar depoimento, narrar e comentar todos os fatos importantes de sua vida atribulada – o filme apresenta aos mais jovens quem foi o lutador que estraçalhava adversários, e dá a oportunidade aos mais velhos de reversuas lutas inesquecíveis. Mas, para todo o público, o sentimento é o mesmo: o documentário é a chance de conhecer o homem que existe por trás da lenda.

Tyson, o documentário, não encobre os podres de Tyson, o homem. Estão lá todas as polêmicas, com direito a um xingamento para a tal moça que foi para o quarto dele de madrugada e, na hora H, desistiu do sexo, acusando o lutador de estupro e colocando-o na cadeia.

Sempre achei essa história mal contada, afinal, a mesma mídia americana que tratava Tyson como marginal, apoiava o também atleta O.J. Simpson, que matou a mulher, fugiu sob os holofotes da TV e foi absolvido. Mas, apesar dessa incoerência com que sempre foi tratado em seu País – parece que Tyson é mais respeitado fora do que dentro dos EUA – ele não faz mea culpa. Muito pelo contrário.

Tyson assume no documentário seus erros, e demonstra grande arrependimento por alguns de seus atos. Não pede desculpas, mas deixa claro que não se perdoa. Este é o ponto que causa forte tristeza para quem vê o filme: o espectador descobre que um homem tão importante para o esporte se julga inferior aos outros.

Tyson é o tipo de filme que mostra um herói sem máscaras, sem disfarces e totalmente fragilizado pelos erros que cometeu. Ao assumir seu sentimento de culpa, Mike Tyson esquece, por um momento, que por mais que ele tenha sido imbatível um dia, ele é um ser humano como outro qualquer, e errar faz parte do aprendizado.

E não importa quantas vezes ele errou, aquele homem que sabia nocautear com louvor continua lá, de alguma forma. Essa é a essência de Tyson, o documentário que mostra um homem golpeado pela vida, mas que ainda permanece de pé.

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