Paulo Halm e uma história de sucesso que dura mais de 90 minutos

outubro 9, 2009

paulo

por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

A última entrevista que fiz no Festival do Rio foi hoje, dia seguinte da final do evento. Falei com o simpático Paulo Halm (na foto com a produtora Heloísa Rezende), diretor de História de Amor duram apenas 90 minutos, o filme brasileiro mais visto no Festival.

A seguir, o bate-bola com o roteirista dos premiados Guerra de Canudos e Pequeno Dicionário Amoroso, que se revelou um ótimo diretor em sua estreia.

Cinemmarte – O que você aponta como as principais diferenças entre escrever um roteiro para outra pessoa dirigir e dirigir seu próprio roteiro?
 
Paulo Halm – Eu costumo brincar dizendo que a única diferença que existe é que escrever para terceiros tem um cheque me esperando, enquanto que pra mim mesmo, não rola este “incentivo”…  Mas a verdade é que escrever pra si próprio é mais solitário, não há uma interlocução e portanto, é necessário um rigor autocrítico muito grande. Por outro lado, há mais independencia, o processo acaba sendo mais autoral. Mas tecnicamente, não há diferença nenhuma. E na transposição do roteiro para o filme, ele passou pelos mesmos processos que passaram os roteiros que escrevi pra terceiros. Como diretor fiz as intervenções e mudanças necessárias e que todos os diretores fazem nos roteiros, independente dele ter sido escrito por mim mesmo. 
Cinemmarte – Como surgiu a ideia da trama de Histórias de amor duram apenas 90 minutos?
 
Paulo Halm – Na verdade, eu queria fazer um filme de dramaturgia razoavelmente simples, do ponto de vista de produção, com poucos cenários, poucos atores, que me permitisse filmar em pouco tempo e com pouco dinheiro. Sei o quanto é dificil erguer um projeto e tinha clareza de que, como diretor estreante, tudo seria mais dificil pra mim. Então busquei uma história que me permitisse filmar, sem sobressaltos nem sofrimentos. Depois, havia a clareza de fazer um projeto que dialogasse com o público. Tenho uma facilidade de escrever sobre situações amorosas, sobre relacionamentos, e sempre com um olhar crítico e cômico. Tinha claro que um filme que transitasse entre a comédia e o discurso sobre relacionamentos poderia render um bom primeiro filme. E finalmente, sou fascinado pelo tema do rito de passagem, da transformação que todos nós passamos da juventude para a vida adulta. É um tema que me é muito caro. Filmes que mostram o processo, muitas vezes, doloroso de amadurecimento e de transformação. Dentro desse conceito, um personagem que se recusa ou tem dificuldade para amadurecer, e que se sabota, às vezes conscientemente, me pareceu o protagonista ideal. Até porque um personagem “errado” reflete mais e melhor do que um personagem positivo. a gente se identifica mais nos erros do que nos acertos, não é mesmo? Então, somando essas coisas, fui construindo a historia. Falando assim parece tudo muito premeditado, mas na verdade a história foi fluindo natural e mesmo espontâneamente, sem nenhuma certeza. Tanto que é o roteiro que escrevi mais rápido de todos, não levei mais do que duas semanas para fazê-lo.
 
Cinemmarte – No filme, o personagem de Caio Blat supõe a traição, uma coisa meio Dom Casmurro, e o espectador fica na dúvida se a Julia traiu ou não. Você acha que sugerir a situação é melhor do que mostrar?
 
Paulo Halm – Outra brincadeira que eu faço é que esse filme é um encontro inusitado entre Machado de Assis e Carlos Zéfiro, o papa do quadrinho erótico brasileiro, num pé sujo da Lapa. O filme tem muito de Machado, sim, não somente na questão da traição ou não de Julia, que remete ao mistério da Capitu. Mas a própria narrativa em primeira pessoa se aproveita de recursos metalinguísticos muito comuns em Machado, de interromper a objetividade narrativa para voltar-se ao espectador (leitor) e dialogar com ele. Fazemos isso muitas vezes no filme. Acho que deixar para o espectador completar as lacunas da história, torná-lo co-narrador do filme, torna a obra mais rica, mais ampla. No fundo, fica sempre a duvida se aquilo tudo é real ou se na verdade, o filme não seria o livro que o Zeca está escrevendo… esse jogo metalinguístico é bastante rico, abre diversas possibilidades de interpretação, de leituras…  Uma coincidência interessante: Maria Ribeiro interpretou Capitu, numa montagem teatral, anos atrás… 
 
Cinemmarte – O fato de Caio e Maria Ribeiro serem casados na vida real gerou muito burburinho. Como foi a escolha dos atores para protagonizar o filme?
 
Paulo Halm – Na verdade, não é necessidade do filme que o casal fosse feito por um casal de verdade. O burburinho existe e é até bom pra divulgação pro filme, mas do ponto de vista dramatúrgico, não acho que acrescente muito. O importante era que o filme fosse feito por bons atores. Havia a questão das cenas de sexo e nudez, que ao meu ver, nem são assim tão intensas, são filmadas com elegância, sem exageros, a nudez é mostrada da forma mais natural possivel, sem apelações, como aliás, acho que devemos ver e filmar nudez ou sexo. O problema é que o cinema brasileiro está tão pudico e careta, que qualquer cena de nudez choca e escandaliza, houve até um ator ano passado que fez um escarcéu por conta disso, fez um auto-de-fé contra a nudez nos filmes, em suma, regredimos a um puritanismo hipócrita que não condiz com a nossa natural sensualidade, leveza, beleza tropical. Voltando a questão do elenco. Na verdade, o Caio sugeriu que a Maria fizesse a Julia, por achar que o fato deles serem casados poderiam transferir coisas da intimidade deles para o filme. Pra ser sincero, eu nem sabia que o Caio era casado com a Maria. No mais, eu conheço a Maria muito antes de conhecer o Caio, ela fez diversos filmes de amigos meus e ela mesma é uma cineasta, dirigiu um curta que eu adoro, chamado 25. De modo que gostei da sugestão mais pelo fato da Maria poder fazer a Julia do que por ela ser mulher do Caio na vida real…  Mas penso que a Maria poderia muito bem ter feito a Carol, por exemplo, e a Luz Cipriota poderia ter feito a Julia…  são excelentes atrizes, poderiam muito bem ter feito qualquer personagem. Aliás, a Carol foi a personagem que mais demoramos a fechar. Queriamos uma atriz jovem e loura argentina, mas quase todas as atrizes jovens e louras portenhas são ex-chiquititas e que trabalham basicamente com um público infanto-juvenil… e nenhuma delas estava disposta a se associar num projeto que tinha cenas de sexo, lesbianismo, etc. Houve muita recusa. Até que a moça que fazia nosso casting na Argentina sugeriu a Luz; ela havia feito o filme do Gael Garcia Bernal, Deficit, que aliás, foi exibido ano passado no Festival do Rio. Eu pensei que uma atriz que tinha feito filme com o Gael jamais se interessaria em fazer meu filme, mas pra minha surpresa, ela adorou o roteiro e topou o convite. Foi ótimo porque além de excelente atriz, da sua beleza estonteante, a Luz é uma pessoa doce, naturalmente simpática, carinhosa, e que imediatamente conquistou a todos do filme. 
 
 
Cinemmarte – Quais as perspectivas para o lançamento do filme em circuito?
 
Paulo Halm – Apesar de sermos um filme de estreante, melhor dizendo, duplamente estreante pois é o primeiro filme meu e também da minha produtora, Heloísa Rezende, feito com baixo orçamento ( é o filme mais barato exibido na Premiére Brasil, mesmo entre os filmes de estreantes ), caímos nas graças do Bruno Wayner, da Downtown, que viu o filme ainda em fase de montagem e adorou. Desde então, o Bruno tem sido de fundamental importância na carreira do filme. Foi ele que sugeriu que corressemos com a finalização, de modo a entrar no Festival do Rio. Tanto que o filme ficou pronto dois dias antes do festival começar, foi uma pauleira. Mas o Bruno estava certo, foi ótimo termos estreado no Festival. Além da Downtown, a RioFilme também se interessou pelo filme e vai entrar também na distribuição, de modo que o filme será lançado no verão de 2010, e espero que tenha a mesma boa aceitação de publico que teve no festival. Apesar de não termos ganho nenhum premio, fomos o filme brasileiro mais visto no Festival do Rio, na companhia de notáveis como Ang Lee, Almodovar e Tarantino. Ficamos em sexto lugar entre os 10 mais vistos, bem a frente dos demais concorrentes brasileiros. Pra um filme de estreante, de baixo orçamento, é quase um troféu. E, claro, um bom presságio. 
 
 
 
*Esta entrevista também pode ser lida no blog do Festival do Rio 2009, uma parceria do Cinemmarte com o Pipoca Combo.
 
Foto: Thiago Faria Abreu
 
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2 Respostas to “Paulo Halm e uma história de sucesso que dura mais de 90 minutos”

  1. EU, JURACIARA DIACOVO, ME SENTI HONRADA INTERPRETANDO O PAPEL DA EMPREGADA D.RUTH NO FILME”HISTORIAS DE AMOR NÃO DURAM 90 MINUTOS”, DIRIGIDO PELO CINEASTA PAULO HALM. OBRIGADA PELO CARINHO QUE DEMONSTROU PELO MEU TRABALHO.

  2. EU,JURACIARA DIACOVO ME SENTI HONRADA INTERPRETANDO O PAPEL DA EMPREGADA D. RUTH, NO FILME “HISTÓRIAS DE AMOR DURAM APENAS 90 MINUTOS”,DIRIGIDO PELO CINEASTA PAULO HALM. OBRIGADA POR TUDO.

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