Acabou mais ainda tem

outubro 8, 2009

polytechnique1

por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

Último dia do Festival do Rio e a chuva não deu tréguas. Ilhada em Botafogo, mudei toda minha programação e vi filmes surpreendentes. Para começar, A Siciliana Rebelde, baseado na história real de Rita Atria, uma siciliana de 17 anos que, em novembro de 1991, depôs num tribunal em busca de vingança pela morte de seu pai e seu irmão, ambos considerados ‘Homens de Honra’ do mais famoso grupo criminoso da Sicília.

Esta foi a primeira vez que uma garota de família ligada à máfia quebrou o temido código do silêncio. Desde aquele momento, ela estava com os dias contados. Rita viveria mais nove meses. Repudiada por sua própria mãe e abandonada pelo namorado, foi isolada de sua comunidade e se viu forçada a se mudar para Roma.

O juiz Paolo Borselino, a quem ela passou a chamar carinhosamente em seu diário de Tio Paolo, colocou-a sob sua proteção e a ajudou em sua cruzada pela justiça. Mas suas esperanças diminuíram quando a máfia eliminou não apenas o atencioso tio Paolo, como o famoso juiz Falcone. Na recusa de ser a próxima da lista, Rita Atria cometeu suicídio. Mas imortalizou nas páginas de seu diário um corajoso testemunho contra seus algozes, mas que nunca foi publicado. O público poderá conhecer boa parte de seu relato póstumo neste documentário interessante e intenso.

Na sequência, mais uma produção baseada em fatos reais: Polytechnique. Dirigido pelo cineasta canadense Denis Villeneuve, o filme aborda o trágico massacre na Escola Politécnica de Montreal que resultou na morte de 14 mulheres em 1989. Um rapaz de 25 anos (foto) invadiu a sala de aula e ordenou que os homens se retirassem da sala, permanecendo somente as mulheres. Gritando: “você são todas feministas!?”, ele começou a atirar enfurecidamente, saindo pelos corredores da escola e matando 14 mulheres, à queima roupa. Em seguida, suicidou-se.

O rapaz deixou uma carta na qual afirmava que havia feito aquilo porque não suportava a idéia de ver mulheres estudando engenharia, um curso tradicionalmente dirigido ao público masculino. O crime mobilizou a opinião pública canadense, gerando amplo debate sobre as desigualdades entre homens e mulheres e a violência gerada por esse desequilíbrio social.

O filme, todo em preto e branco, conta a história sob o ponto de vista do assassino e de duas de suas vítimas – Valérie e Jean-François. Ambos têm suas vidas modificadas por conta de tragédia. Embora não aprofunde a vida e a relação entre os personagens, Polytechnique é um relato forte de um acontecimento absurdo. Bom quando o cinema nos faz refletir.

Ainda conferi a sessão dupla de American Boy e American Prince. American Boy é o famoso – e obscuro – documentário de Martin Scorcese. Na mansão do ator George Memmoli, Scorsese escuta seu amigo Steve Prince (foto), mais conhecido como Easy Andy, o vendedor de armas do filme Taxi Driver. Filho do diretor da agência William Morris, Steve conta vivamente sua história pessoal, começando pela infância como um judeu de classe-média. Com grande sinceridade, aborda também os problemas que marcaram sua vida, como a obsessão por armas e o vício em heroína.

Filmado em Em 1978, o documentário nunca teve um lançamento decente e até hoje suscita a curiosidade de cinéfilos e cineastas. Este ano ele ganhou novo documentário, American Prince, de Tommy Pallotta.

Prince é ex-ator, ex-viciado em drogas, ex-roadie do cantor Neil Diamond e, principalmente, um contador de histórias nato, cuja vida pessoal tem mais interesse do que muitos roteiros fictícios. Achei o máximo descobrir que certo episódio da sua vida  inspirou uma cena de Pulp Fiction, de Quentin Tarantino.

A notie terminou com risadas. Fais moi plaisir, comédia pastelão francesa, conta a história de Ariane, que está convencida que seu parceiro, Jean-Jacques, deseja outra mulher.

Para salvar o relacionamento, ela vê apenas uma saída: que ele tenha de fato um caso com essa mulher de seus sonhos, Elisabeth. Desta forma, saciaria seu desejo e voltaria à normalidade de sua vida de casal. Jean-Jacques parte, então, ao encontro de Elisabeth. O que ele não sabe é que sua futura amante, é filha do presidente da França.

Cheio de situações previsíveis e piadas fáceis, Fais moi plaisir é comédia para passar o tempo e abstrair a mente. Inofensiva, mas que diverte. E daqui a pouco tem os vencedores do Tróféu Redentor. O tempo não pára no Festival do Rio, só chove, mas isso não atrapalha o maior evento da América Latina.

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