Viva a América Latina

outubro 6, 2009

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

Rio 36°. A terça-feira foi de muito suor nas ruas, mas as salas de cinema do Festival do Rio estavam fresquinhas graças ao ar condicionado gélido. Filmes que chegaram por último ao Festival ganharam minha atenção hoje, a começar por The Messenger, do norte-americano Oren Moverman, vencedor do 35º Festival de Cinema de Deauville.

The Messenger retrata a guerra no Iraque do ponto de vista do sargento Will Montgomery (Ben Foster), que regressa aos Estados Unidos para informar às famílias sobre a morte dos soldados que estavam em combate. O filme é bacaninha, tem atores como Woody Harrelson,Samantha Morton e Steve Buscemi fazendo papéis secundários, mais importantes, e mostra toda a dor dos parentes que recebem a notícia de que seus filhos e maridos não vão mais voltar. Apesar do tema tão delicado, não apela para lágrimas fáceis e dá seu recado.

Na sequência vi Para quem você ligaria?, mais um argentino na minha lista. A história é melhor contada do que vista: um solitário homem, com cerca de quarenta anos, vive uma grande crise. Andando na rua, encontra sua namorada jantando com o ex-noivo. Apesar de pressentir que o namoro está próximo do fim, permanece imóvel, sem reagir.

Sua existência letárgica contrasta com a vida de seu melhor amigo, que se tornou um advogado de respeito. O relacionamento que mantém com a ex-mulher, por sua vez, é um tanto complicado, e a única coisa que os une é um filho pequeno. Diante da dificuldade em lidar com as pessoas, ele se pergunta: em um momento de emergência, se precisasse ligar para alguém, quem seria?

Infelizmente o filme não aprofunda o tema da solidão, que renderia uma ótima história. Fica mais na promessa e acaba sendo apenas regular.

Por último foi a vez do filme que mais esperei para ver no Festival. Só me restava um ingresso via credencial, e ele foi guardado até o último minuto para ver The Burning Plain.  Apenas ontem foi liberada a sessão deste longa, a aguardada estreia na direção de um dos meus roteiristas preferidos, Guillermo Ariaga (Amores Brutos, 21 gramas, Babel). E somente hoje o público pode apreciar o filme. Agora o meu desafio: falar da história sem revelar seus segredos.

Para quem não sabe, o mexicano Ariaga ficou conhecido por fazer roteiros em que várias histórias se entrelaçam, em linguagem não linear. A trilogia que o tornou famoso, dirigida pelo seu compatriota Alejandro González Iñárritu, lançou o nome de ambos ao estrelato, à indicações ao Oscar e a uma briga pública sobre quem é o autor das tramas. Agora ele foi para trás das câmeras e mostrou que poderia perfeitamente ter feito a famosa trilogia sozinho. O cineasta mantém a mão firme de roteirista, com o mesmo jeito que o caracterizou, e ainda dá mais ritmo à trama, fazendo de The burning plain um filme ágil, uma aula de roteiro, direção e, especialmente, montagem – a sequência final é uma das coisas mais perfeitas que já vi no cinema.

A história analisa o vínculo misterioso que une Mariana (Jennifer Lawrence), uma jovem de 16 anos que procura recompor o casamento de seus pais em uma cidade junto à fronteira do México, Sylvia (Charlize Theron, sem maquiagem e linda – foto), uma mulher de Portland que transa com desconhecidos, Gina (Kim Basinger, com maquiagem e mostrando honestamente suas rugas), a mãe de Mariana, que tem um amor clandestino, e Maria (Tessa La), cujo pai sofre um acidente de avião. Como a vida dessas mulheres vão se entrelaçar é a grande sacada do roteiro, mostrando o velho estilo de Ariaga com um toque diferente. A direção acompanha o ritmo –  é precisa, segura, dinâmica. A trilha sonora pontua o filme com suavidade e melancolia. E a história termina sem se alongar, sem se explicar, na cena certa, no momento exato. Perfeito.

Embora eu tenha me encantado por alguns filmes nestes dias, somente dois me deram esta sensação de perfeição, de ver tudo se encaixando de forma brilhante, do ‘timing’ cinematográfico que nem todo cineasta tem. Juan José Campanella com seu O segredo dos seus olhos consegue tal proeza. Guillermo Ariaga também.

Infelizmente nem todo mundo está preparado para um filme desses e fiquei muito surpresa com a frieza com que o longa foi recebido. Ninguém aplaudiu, pelo contrário, rolou um silêncio constrangedor ao final da sessão. Torço muito para que no circuito comercial – o filme estreia em dezembro – ele tenha mais sucesso.

Aproveitem que ainda temos 48 horas de Festival do Rio e corra para ver as quatro últimas sessões de The Burning Plain, não só um dos melhores filmes do Festival mas também um dos melhores do ano. E Deus salve a América Latina e seus cineastas maravilhosos.

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Uma resposta to “Viva a América Latina”

  1. Alexandre said

    Janíssima, só agora pude ler o texto (os blogs são bloqueados lá no trabalho e só me sobram as segundas). Parabéns pelo texto vigoroso e pelo toque janístico que te acompanha desde os primeiros textos….

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