Tarantino na veia

outubro 5, 2009

fita

por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

O dia começou com uma sessão exclusiva para jornalistas – que chamamos de cabine – para assistir ao tão comentado filme de Quentin Tarantino – aquele que não vem mais ao Festival do Rio: Bastardos Inglórios. Confesso que nunca levei fé neste trabalho de Quentin, não conseguia imaginar ele fazendo um filme de guerra. E não é que ele fez direitinho?

Bastardos Inglórios não chega a ser brilhante, mas é puro Tarantino, do jeitinho que a gente se acostumou a ver – pop, sanguinário, musicalmente perfeito, cheio de ritmo e balas. Ele começa o filme de forma arrastada, sonolenta e até irritante, mas a última uma hora e meia – sim, o filme tem duas horas e meia de duração – é aquilo que se espera de Quentin Tarantino. Ou seja, Bastardos Inglórios é um filme pop. O furão conseguiu fazer um filme de guerra pop. Palmas para ele.

Após longa espera, fila gigantesca e muita confusão – como os gerentes do Espaço de Cinema irritam e complicam! – consegui ver A fita branca, vencedor da Palma de Ouro em Cannes este ano. Entrei com mais de dez minutos do filme começado – graças ao gerente intransigente, é bom frisar –  e isso prejudicou imensamente minha compreensão da história. Levei um tempo para entender o que se passava, até porque a imagem do filme – feito em preto e branco – é poderosa e tira o foco do texto.

A fita branca é um filme austríaco, dirigido por Michael Haneke (Cache), que retrata o clima sombrio que toma conta de uma vila alemã às vésperas da 1° Guerra Mundial. O longa é estruturado a partir da voz em off de um idoso que narra lembranças de episódios que aconteceram nessa comunidade, na qual era professor.

Em duas horas e meia de projeção vemos um Barão que cria seus filhos sob educação rígida e, para reforçar suas convicções, impõe aos mais velhos o uso de uma fita branca no braço, como punição por uma suposta má ação que fizeram. A fita branca amarrada no braço das crianças deveria lembrar-lhes da pureza e da inocência, mas a gente logo percebe que não vai ser bem assim.

Atos de terrorismo atingem os cidadãos da comunidade, especialmente crianças, e ninguém sabe precisar de onde vieram ou de quem partiu. Todos parecem suspeitos e cúmplices, tudo é dúbio, e a maldade impera – e nem só os adultos são os malvados, as crianças também praticam crueldades.

O final, daqueles de fazer a gente ficar sentado por alguns instantes na cadeira, nos faz perguntar: ‘e agora?’ Para não estragar a surpresa, só digo que uma salva de palmas foi puxada, timidamente, do público. E não foi correspondida.

Por fim, mais uma revelação da Turquia: A Caixa de Pandora, filme sobre a velhice, a morte e as complicadas relações familiares. O diretor Yesim Ustaoglu faz uma interessante contraposição entre as paisagens rurais e urbanas, sendo que em ambas predomina um registro seco e opressivo.

O ambiente da cidade parece ser tão ameaçador quando a natureza pouco hospitaleira. É na natureza que a matriarca desaparece e, ao ser encontrada, é levada para a cidade pelos filhos. A convivência não é nada pacífica, especialmente depois da descoberta de uma doença na velha senhora. Ela quer voltar para sua casa. Seus filhos querem mantê-la por perto.

O neto, que mal conhecia a avó, parece ser o único a compreendê-la. E daí para um final em lágrimas é um pulo. Ou melhor, quase duas horas de conflitos familiares mal resolvidos e melancolia. E você sai da sala de cinema querendo ver todos os filmes turcos em cartaz, admirado pela simplicidade e força que este País tem ao apresentar histórias na telona.

Uma caixa de lenços, por favor.

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