Festival do Rio 2009: Abraços Partidos

outubro 1, 2009

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

Pedro Almodóvar é um cineasta de características bem definidas: cenários e figurinos com cores vibrantes,  trilha sonora que acompanha o drama e a comédia nas medidas certas, delicadeza para tratar de temas difíceis. As tramas mudam, mas Almodóvar nunca foge do roteiro que ele criou para si mesmo. Sou fã absoluta de seu trabalho, e para mim nunca houve um filme dele que não fosse, pelo menos, muito bom. Por isso escrever sobre Abraços Partidos está sendo uma dura prova do meu amor ao cineasta.

Assisti ontem a última sessão do filme no Festival do Rio – a estreia nacional é em novembro. Já sabia a sinopse e estava preparada para uma trama cheia de reviravoltas e situações polêmicas. Mas nada disso aconteceu. Abraços Partidos é uma história de paixão mas, acima de tudo, a derradeira declaração de amor de Almodóvar ao cinema.

Penélope Cruz, a musa definitiva do diretor, interpreta Lena, uma jovem que, em 1994, apesar do ciúme de seu companheiro, um rico empresário, quer se tornar atriz. Ela consegue a chance de estrelar Garotas e Malas, a primeira comédia do diretor Mateo Blanco (Lluís Homar) depois de uma série de dramas. Mas a história não é linear. Só saberemos disso no andamento do filme, porque a trama começa em 2008, ano da morte do empresário, onde Mateo está cego e Lena é apenas uma lembrança.

Porque Mateo ficou cego e porque Lena é apenas uma lembrança são situações que vamos descobrir ao longo dos 128 minutos do longa. Tudo é pontoado com as cores típicas de Almodóvar, especialmente o vermelho; a trilha que parece cortar cada cena, o drama pungente, a comédia deliciosa, a fotografia arrebatadora e, claro, os melhores ângulos de uma deslumbrante Penélope Cruz.

O que não vemos é a reviravolta da trama, os temas polêmicos, a delicadeza nos diálogos difíceis. Abraços Partidos foge do ‘padrão Almodóvar’ e isso me deixou chocada. Imaginei cenas que não aconteceram, inventei um roteiro na minha cabeça que não tinha. Quando acabou, pensei: “é isso?”. Pois é, é isso sim, Almodóvar colocou à prova todos os seus fãs. É um filme sobre filmes, repleto de referências cinematográficas – finalmente alguém colocou Penélope à imagem e semelhança de Audrey Hepburn (sempre achei incrível a semelhança das duas) – e não um filme sobre o ser humano cheio de defeitos que ele nos ensinou a admirar.

Abraços Partidos é, pura e simplesmente, um Pedro Almodóvar maduro, tentando recriar a si mesmo. A última cena, com a fala de Mateo (claramente o alterego do diretor), define o que é a trama- e aqui eu não vou revelar o final, apenas parafrasear o diálogo.

Um filme precisa ser concluido ainda que às cegas. Ou seja: não importa que pareça um Almodóvar diferente, feito sem alguns dos elementos que o tornaram tão especial. Abraços Partidos vale por ser um Almodóvar ainda mais autoral, ainda mais pessoal, ainda mais apaixonado pelo que faz.

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Uma resposta to “Festival do Rio 2009: Abraços Partidos”

  1. […] Abraços partidos  (foto) 2. (500) Dias com ela 3.  Aconteceu em Woodstock 4.  Bastardos Inglórios 5 . Coco antes […]

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