Mostra de SP 2009: Partir

outubro 31, 2009

partur

por Janaina Pereira

Partir , drama da diretora francesa Catherine Corsini (Os Ambiciosos), traz a inglesa Kristin Scott Thomas, uma das minhas atrizes preferidas, no papel de Suzanne, uma mulher bem casada e aparentemente feliz em sua vida confortável.

Um dia, porém, cruza o seu caminho Ivan (Sergi Lopez), um homem recém-saído da prisão. A atração entre os dois é tão forte a ponto de Suzanne largar o marido e os filhos para começar uma nova vida. Mas as coisas, claro, não vão ser tão simples assim.

O tema batido da mulher que redescobre o amor e a alegria de viver oscila entre bons e maus momentos e consegue alcançar as contradições de alguém que resolve entregar-se a uma aventura como essa, mas sem resistir aos clichês.

Mas o filme tem um grande trunfo: Kristin dá show, como sempre, falando em francês fluente. Sua personagem é uma mulher apaixonada, que não mede esforços para ficar ao lado do homem que ama.

Partir é um filme até curto diante da densidade da trama, não se alongando em reflexões ou conclusões. É daquelas histórias em que o amor é colocado como essencial ao ser humano e deve estar acima de tudo e de todos. Bem bacana.

sr raposo

por Janaina Pereira

O diretor Wes Anderson é conhecido pelo ótimo Os Excêntricos Tenenbaums, e muito se esperava dele em sua primeira animação, O Fantástico Sr. Raposo, baseada no clássico infantil de mesmo nome, de Roald Dahl, que escreveu também Charlie e a Fábrica de Chocolate.

Dublado por estrelas como George Clooney, Meryl Streep, Bill Murray, Owen Wilson, Adrien Brody e Willem Dafoe, a animação não deve agradar aos pequenos, mas também não tem um tema adulto o suficiente para encantar os marmanjos.

Este talvez seja o grande problema da história: sem ter um público alvo, O Fantástico Sr. Raposo é apenas uma boa animação perdida entre tantas outras. A história gira em torno de uma raposa inteligente, o Sr. Fox (ou seja, o Sr Raposo em português). Cansado de ter uma vida mais ou menos, ele decide se mudar com a família para uma árvore, localizada em uma colina, um lugar nobre para qualquer raposa.

Lá eles têm como vizinhos o Coelho, o Texugo  e a Doninha, entre outros animais, todos com suas respectivas famílias. Para alimentar a esposa e o fulho e o sobrinho que está de visita em sua casa, toda noite o Sr. Raposo rouba frangos de três fazendeiros que moram por perto: Boggis, Bunce  e Bean.

Logo o trio se une para capturá-lo e o Sr. Raposo, sua família e seus amigos armam um plano audacioso para se livrar dos fazendeiros.

Colorido e simpático, O Fantástico Sr. Raposo não tem uma grande história que o sustente, mas consegue divertir. Pena que houve pretenção demais ao apontarem que seria inovador, quando, na verdade, é apenas um bom filme de animação.

Mostra de SP 2009: Tyson

outubro 30, 2009

tyson

por Janaina Pereira

Quando eu era criança, lembro que meu pai, fã incondicional de boxe, dizia: “Hoje à noite tem luta do Tyson, é bom que ele acaba logo com o outro lutador e eu vou dormir mais cedo”. No dia seguinte, eu perguntava ao meu pai como tinha sito a luta e ele me respondia: “Acabou em menos de um minuto.” Era sempre assim: com Tyson no ringue, não tinha para ninguém.

Mike Tyson foi um dos maiores pugilistas da história do boxe. Para as novas gerações, o lutador talvez seja conhecido apenas como um cara arruaceiro, sempre envolvido em confusões. Para quem tem mais de 30 anos, Tyson é lembrado como um fenômeno sem precedentes no boxe, que acabou sendo encurralado pelo seu próprio sucesso.

Impossível imaginar que um dos atletas mais importantes do mundo teria sua imagem vinculada a tantas coisas negativas. De estupro a arrancar a orelha dos adversários, Tyson esteve envolvido em confusões que lhe renderam alguns anos de cadeia e um fim de carreira insólito. Nada disso, porém, tira o brilho daquele que acabava uma luta em poucos segundos, que nocauteava sem nenhum pudor.

É este homem, um lutador dentro e fora do ringue, que o documentário Tyson, de James Toback, consegue mostrar com grande sinceridade. Baseado apenas nas palavras de Mike Tyson – ele é o único a dar depoimento, narrar e comentar todos os fatos importantes de sua vida atribulada – o filme apresenta aos mais jovens quem foi o lutador que estraçalhava adversários, e dá a oportunidade aos mais velhos de reversuas lutas inesquecíveis. Mas, para todo o público, o sentimento é o mesmo: o documentário é a chance de conhecer o homem que existe por trás da lenda.

Tyson, o documentário, não encobre os podres de Tyson, o homem. Estão lá todas as polêmicas, com direito a um xingamento para a tal moça que foi para o quarto dele de madrugada e, na hora H, desistiu do sexo, acusando o lutador de estupro e colocando-o na cadeia.

Sempre achei essa história mal contada, afinal, a mesma mídia americana que tratava Tyson como marginal, apoiava o também atleta O.J. Simpson, que matou a mulher, fugiu sob os holofotes da TV e foi absolvido. Mas, apesar dessa incoerência com que sempre foi tratado em seu País – parece que Tyson é mais respeitado fora do que dentro dos EUA – ele não faz mea culpa. Muito pelo contrário.

Tyson assume no documentário seus erros, e demonstra grande arrependimento por alguns de seus atos. Não pede desculpas, mas deixa claro que não se perdoa. Este é o ponto que causa forte tristeza para quem vê o filme: o espectador descobre que um homem tão importante para o esporte se julga inferior aos outros.

Tyson é o tipo de filme que mostra um herói sem máscaras, sem disfarces e totalmente fragilizado pelos erros que cometeu. Ao assumir seu sentimento de culpa, Mike Tyson esquece, por um momento, que por mais que ele tenha sido imbatível um dia, ele é um ser humano como outro qualquer, e errar faz parte do aprendizado.

E não importa quantas vezes ele errou, aquele homem que sabia nocautear com louvor continua lá, de alguma forma. Essa é a essência de Tyson, o documentário que mostra um homem golpeado pela vida, mas que ainda permanece de pé.

a todo volume

por Janaina Pereira

Rock and roll na veia. Assim é o poderoso A Todo Volume, documentário de David Guggenheim (de Uma verdade incoveniente) com os guitarristas Jack White, Jimmy Page e The Edge (foto), em exibição na Mostra de SP. Sem enrolações, o filme aborda a relação passional entre os músicos e sua musa maior, a guitarra.

Guggenheim não engana o público: é um documentário para os roqueiros. E o cineasta não decepciona. Acompanhamos a trajetória de White (do The White Stripes), Page (do Led Zeppelling) e The Edge (do U2) compartilhando com eles de seus primeiros passos na música, os acordes e composições mais marcantes, os momentos especiais na carreira e toda a magia que envolve o guitarrista e seu instrumento de trabalho.

Entre as cenas individuais vemos o emblemático encontro dos três, trocando experiências e confissões. O filme acaba, obviamente, com uma grande jam session. Tudo isso em altíssimo som, como um bom rock deve ser ouvido.

A Todo Volume é pura adrenalina, imperdível para os fãs não só de Jack White, The Edge e do lendário Jimmy Page, como também para os apaixonados por música. No final das contas… it´s only rock ‘n roll but I like it.

 Os inquilinos

por Janaina Pereira

Sérgio Bianchi é um dos cineastas brasileiros que melhor consegue mostrar as mazelas do País. Em Cronicamente Inviável (1999), ele colocou na telona a desigualdade social de forma nua e crua, sem cerimônia. Considero Bianchi extremamente corajoso por mostrar o que tanta gente tenta esconder. E, mais uma vez, o diretor dá show em Os Inquilinos, um dos destaques brasileiros da Mostra de SP.

De forma tranquila, mas precisa, Bianchi conduz a trama a partir do cotidiano de Valter (Marat Descartes), trabalhador de subemprego que mora na periferia de São Paulo com mulher e dois filhos. Seu dia-a-dia é abalado quando ele tem de conviver com os novos vizinhos.

Aos poucos, vamos sendo envolvidos pela rotina de Valter. E é aí que o filme aponta vários problemas da sociedade, visível aos olhos mas que, na vida real, são estrategicamente camuflados. Há desde a vulgarização e precoce sexualidade infantil, consentida pelos pais que só conseguem se incomodar com vida alheia e ter preconceitos com quem mora na favela, até a visão distorcida que muitas pessoas fazem do ‘Partido” (como o alto comando do tráfico é chamado no filme).

Neste ponto, o longa vai no mesmo caminho que Salve Geral, de Sérgio Rezende, porém ousando mais, colocando o dedo na ferida, mostrando que, como diz aquele funk, ‘tá dominado, tá tudo dominado’.

Como é de praxe na filmografia de Sérgio Bianchi, Os Inquilinos não deixa, por um minuto sequer, a esperança invandir a tela. Não poderia ser diferente: seu papel é mostrar o que se tenta esconder, é apontar a realidade dos fatos. E isso Bianchi e seu elenco conseguem fazer muito bem.

london

por Janaina Pereira

Uma história clichê pode ganhar força e vida graças aos seus atores. É o que acontece com London River, de Rachid Bouchareb (Dias de Glória), que une dois temas comuns no cinema: a dor da perda de um filho e a intolerância religiosa.

O filme, em cartaz na Mostra de SP, tem um roteiro sem grandes inovações, qualidades técnicas dentro dos padrões e uma direção burocrática. O que faz dele uma produção especial é a fantástica atuação da dupla protagonista: o malinês Sotigui Kouyaté e a britânica Brenda Blethyn (Segredos e Mentiras) dão show.

Ele vive um pai muçulmano e ela uma mãe cristã. Ambos procuram pelos filhos, que desaparecem após os atentados contra a rede de transporte público de Londres, em 2005.

Nos encontros e desencontros dos protagonistas, o diretor Bouchareb consegue tratar da intolerância de forma melancólica, mas no limite de cair na mesmice. O que salva o filme é mesmo a dupla de atores, que consegue arrancar tudo que podem de seus personagens e causar enorme impacto na plateia.

 As atuações consistentes seguram o roteiro: enquanto Kouyaté – ganhador do Urso de Prata de melhor ator este ano – é contido e transmite os sentimentos do seu personagem apenas com o olhar, Brenda é pura emoção, extravazando toda dor da mãe desperada à procura da filha.

London River é, sem dúvida alguma, um filme de atores. Eles são as estrelas e brilham intensamente com suas intepretações. É o tipo de história que o elenco faz a difrença. Ainda bem.

AnEducation

por Janaina Pereira

Nick Horbny é o autor de alguns best sellers que se transforamaram em sucesso nas telonas, como Alta Fidelidade e Um Grande Garoto. O primeiro roteiro do escritor para o cinema, naturalmente, gerou muitas expectativas. E é assim que Sedução (An Education), escrito por Horbny e dirigido por Lone Sherfing, vem lotando as salas de cinema da Mostra de SP.

Se você ainda não viu o filme, prepare-se para uma grande decepção. Sedução vai bem até a sua metade, quando vira uma cópia mais glamourosa do bom Fish Tank, também em cartaz na Mostra.

A trama se passa em 1961 e acompanha a adolescente Jenny, estudante que almeja entrar para a Universidade de oxford e toca celo com grande paixão. Em uma dia de chuva, a jovam pega carona com David, e a atração é imeadiata. Mesmo sendo bem mais velho do que Jenny, David investe na moça e, com o consentimento dos pais dela, os dois começam a namorar.

O relacionamento do casal parece um conto de fadas, com direito a transformar Jenny na versão adolescente da bonequinha de luxo Audrey Hepburn. Mas a menina descobre as falcatruas de David,culminando em uma bombástica revelação que pode mudar – ou não – sua vida. A partir daí o filme, que já era parecido com Fish Tank, fica incomodamente igual.

Nick Horbny faz um roteiro enxuto mas nada criativo. Sedução tem cara de Oscar: é o típico filme redondinho, certinho, previsível. Suas qualidades técnicas são inegáveis e só.  Uma pena. Fica para a próxima, Nick.

Michael Jackson: This is it

outubro 28, 2009

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por Janaina Pereira

São Paulo, 23 horas, cinema Kinoplex Itaim. Duas salas reservadas para a pré-estreia de This is it, o filme que mostra os ensaios para aquele que seria o último show do Rei do Pop.

O silêncio é total na sala de cinema. Não há a mastigação de pipoca, canudinhos de refrigerante fazendo barulhinhos, suspiros, nada. Parece um minuto de silêncio pelo Rei. Na tela, a la abertura de Star Wars, explica-se que as cenas a seguir são imagens dos bastidores e dos ensaios de Jackson para a turnê de 50 shows em Londres.

Dedicado aos fãs, This is it  já mostra, na primeira cena, que foi feito para chorar. A imagem de Michael, magérrimo mas sem o aspecto sombrio tão alardeado, dá arrepios. O Rei está vivo, pelo menos por 112 minutos de projeção.

O filme é uma colcha de retalhos que mistura imagens de Michael ensaiando com depoimentos de sua equipe elogiando o astro. Muitas vezes o que ouvimos são músicas gravadas, já que nos ensaios Michael poupa a voz. Mas quando canta… céus, o que é aquilo? A voz falha mas de repente lá vem ele fazendo dueto com a backing vocal em I just can´t stop loving you … e ele mostra que ainda está em forma.

O show seria um estrondo, isso fica bem claro. Muitos efeitos especiais, banda e dançarinos afiados, tudo da melhor qualidade. Michael é perfeccionista, dedicado, presente. E é curioso dizer que ele, hoje ausente, estava tão presente nos ensaios.  É emocionante ver sua dedicação para que as músicas tenham os mesmos arranjos dos discos. Às vezes ele cansa, não acompanha o ritmo de suas canções mas não perde, jamais, o rebolado.

Lá pelas tantas Michael canta I’ll be there e fala que, naquele momento do show, citará o nome dos irmãos e pais. Fala que os ama. Pausa para a família Jackson mostrar que o rebento os adora. Então tá, a gente finge que acredita.

O trio de músicas eternas fica para o fim. E a sequência de Thriller, Beat it e Billie Jean é de pular da cadeira e dançar sem parar. Em Billie Jean, particularmente, ele mostra grande euforia. É minha música preferida dele e o meu momento de emocionação. Ai eu paro e penso: eu nunca vou ver isso ao vivo, ele morreu. Se o filme era para causar essa comoção nos fãs, conseguiu.

Tudo acaba com Man in the mirror, talvez a mais bela letra de MJ – como ele é chamado por sua trupe o tempo todo. A imagem do Rei do Pop, de braços abertos e a frase ‘Love lives forever’ é piegas mas funciona: lágrimas rolam entre o público. Aplausos não. Injusto: Michael merece todo respeito, embora o que fizeram com a imagem dele – velório-show e filme-retalho-show, não seja realmente justo.

This is it  não é para qualquer um. É para quem admira o cara que revolucionou a música e se tormou uma das figuras mais importantes do mundo. Eu gostei sim, embora tenha saído do cinema com a tristeza e a frustração de que nunca mais vou vê-lo ao vivo e a cores.

O Rei está morto mas sua música, ainda bem, está mais viva do que nunca.

É isso. Salve, MJ!

* This is it entra em cartaz mundialmente nesta quarta, 28.

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por Janaina Pereira

Um dos filmes mais esperados da Mostra de SP, 35 Doses de Rum não cumpre suas expectativas. O filme não é ruim, longe disso, mas a arrastada narrativa da cineasta Claire Denis, que preza pelas intenções, e não pelas ações dos personagens, tira o brilho de uma história que poderia ser melhor.

O roteiro segue Lionel, um condutor de trem que vive num complexo habitacional com sua filha, Josephine, com quem tem fortes laços por tê-la criado sozinho. Ele tem um caso mal resolvido com Gabrielle, sua vizinha taxista. Ela tem um caso mal resolvido com seu vizinho solitário, Noé.

Cúmplices até nas histórias amorosas confusas, pai e filha irão entrar em choque quando Noé resolve sair do País e Josephine cogita a possibilidade de deixar de cuidar do pai para seguir sua vida. Mas este choque entre os dois não passa de uma cena com alguns gritos. Porque nada em 35 doses de rum é agitado.

O que permeia o filme são os silêncios, a rotina, a relação de dependência, o amor, o desejo de romper o cordão, o ciúme, o cansaço da rotina, tudo isso é mostrado com muita calma pela diretora. Calma até demais.

O melhor do longa é o título, explicado na última cena. Lionel diz que, quando algo é especial, deve-se comemorar com 35 goles de rum. Infelizmente não dá para beber o rum para festejar o filme.

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por Janaina Pereira

Em Corações em Conflito, um dos filmes mais esperados da Mostra de SP, o sueco Lukas Moodysson trabalha com dois astros renomados nos papéis principais, Gael García Bernal e Michelle Williams. Apesar dos bons atores, e de um argumento interessante, o filme não deslancha.

Vamos a história: Leo e Ellen vivem em Nova York com a filha de oito anos, Jackie. Ele é um nerd que fez fortuna criando jogos de computador, e ela é uma médica que vive a estressante rotina de trabalhar em um pronto-socorro.

Leo, vivido por Gael Garcia Bernal, viaja à Tailândia para fechar um grande negócio, ao mesmo tempo em que Ellen, personagem de Michelle Williams, sente-se solitária e começa a perceber que Jackie é mais apegada à babá Gloria do que a ela. Já Gloria deixou os dois filhos com a mãe nas Filipinas para ganhar a vida nos Estados Unidos.

Escolhas e dúvidas sobre a importância do trabalho diante da vida pessoal atormentam todos os personagens. E cada um, a seu modo, levado pelo destino ou pelas coincidências da vida, acaba tomando rumos diferentes daquilo que haviam planejado.

No elenco, o grande destaque é para Michelle Williams, muito bem em uma atuação sensível e contida como a médica que vê sua família se afastar dela lentamente.

Corações em Conflito não chega a ser ruim, mas a história só se torna minimamente interessante já em sua meia hora final, quando os personagens começam a resolver suas perturbações internas. Tarde demais para um filme ser bom o suficiente e assim se tornar inesquecível.