jj campanella

por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

Juan José Campanella está no Brasil pela primeira vez. O diretor argentino, responsável por filmes como O filho da noiva e Clube da Lua, veio divulgar seu último longa, O segredo dos seus olhos, que em sete semanas foi visto por mais de 1,5 milhão de argentinos.

Em clima descontraído, batemos um papo, com exclusividade para o Cinemmarte, numa das salas do Pavilhão do Festival do Rio. Simpático e extremamente doce, ele contou que está feliz pelo sucesso de seu filme, mas não espera a comentada indicação ao Oscar como representante argentino.

“Não penso nisso, se vier é ótimo, se não, continuarei fazendo meus filmes”, disse. Mesmo assim, curioso, perguntou quem é o indicado brasileiro – explicar a história não foi complicado, difícil foi explicar o que significa a expressão Salve Geral.

Os filmes de Campanella têm como grande característica tramas sobre a vida cotidiana, sempre com uma volta ao passado. Em O segredo dos seus olhos não é diferente.  Baseado no romance de Eduardo Sacheri, o longa fala sobre um oficial do Tribunal de Justiça que investigou um cruel assassinato e, 25 anos depois, ao se aposentar e começar a escrever um livro, revisita suas memórias e as pessoas que fazem parte dela. O diretor diz que resolveu adaptar o livro porque possui todos os elementos que ele gosta: personagens normais em situações verdadeiras. “Isso é o que me encanta”, afirma.

Unir suspense, drama, humor e romance como Campanella faz nesta obra não parece ser uma tarefa fácil. E ele diz que não é mesmo. “É trabalhoso mesclar policial com história de amor, e o filme é, essencialmente, isso. No gênero romance, o que importa são as pessoas, não a ação. No policial é o contrário, as ações são fundamentais. São dois tipos de estruturas bem distintas e é preciso dosá-las na medida certa.”

Para quebrar o clima tenso do filme, há toques de humor com o personagem do ator Guillermo Francella, um dos destaques do longa. Campanella explica que foi natural colocar estas cenas na trama, mas a estutrura do roteiro não foi calculada. “Havia humor, realmente pensei em cenas para ‘quebrar’ o clima de suspense que o filme tem, mas foi tudo feito de forma natural,íamos filmando e as cenas iam acontencendo e se encaixando ao enredo.”

Este é o quarto trabalho de Campanella com o astro Ricardo Darín que, para ele, é um ator que maneja muito bem a passagem do drama à comédia. “Está cada vez mais fácil trabalharmos juntos”, comenta. Darín, o protagonista da trama, novamente interpreta um homem que busca respostas para sua vida no passado. O tema, recorrente na obra de Campanella, fascina o cineasta por razões particulares.

“Sou interessado no tema da recordação, das memórias. Acredito que é importante encerrarmos as etapas de nossas vidas.Meus filmes têm isso, personagens que querem seguir adiante e precisam voltar ao passado para resolver algumas situações. Pode acontece com todos nós: precisamos encerrar ciclos para começar uma nova vida.”

Apesar da trama de suspense, Campanella admite que o segredo dos seus olhos é uma grande história de amor. “São vários tipos de amor. O amor sublime, o interrompido, o perverso. O amor é o que conduz a história.”

O próximo trabalho do diretor é um filme de animação, que pode levar até dois anos para ficar pronto. Enquanto isso, aproveita o sucesso de O segredo dos seus olhos, que está sendo lançado, primeiramente, nos países latinos mas que, no Brasil, ainda não tem distribuidora.

Espera-se que chegue logo por aqui, pois é o tipo de filme que merece ser vista e admirado por muitos. Assim como qualquer obra de Juan José Campanella, um exemplo de que, para se fazer um grande filme, é preciso apenas de um bom roteiro. E de um ótimo diretor, é claro.

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(30) minutos com Marc Webb

setembro 30, 2009

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

Debaixo de chuva, cheguei ao Leme Palace Hotel e encontrei o cineasta Marc Webb de jeans, tênis e pullover, sentado no bistrô do hotel tomando um cafezinho. Muito jovem e sem o menor jeito para estrela, ele teve dificuldade para falar meu nome mas muita desenvoltura para falar sobre seu filme, (500) dias com ela, a simpática comédia em que o mocinho se apaixona pela mocinha, e ela dá bola para o mocinho mas… não está apaixonada.

Subvertendo a tradicional história de amor que o cinema adora contar, Webb, 35 anos, cativou o público e a crítica no Sundance e chega como um dos nomes mais quentes do Festival do Rio. Como o filme tem um jeitinho de autobigroafia, graças aos roteiro que imprime diálogos verossímeis, perguntei logo a opinião do diretor sobre o tema de sua produção. Diferente da mocinha da trama, Summer, o cineasta acredita no amor.

“Pode não existir da maneira idealizada, pode não ser do jeito que sonhamos, mas sim, eu acredito no amor”, afirma.

Idealizar, aliás, não foi o que ele fez em seu primeiro longa. Webb optou por uma história bem real, com personagens totalmente verdadeiros em seus sentimentos e propósitos.

“Pode-se mexer aqui e ali, tornar umas coisas mais fantasiosas, mas os personagens são baseados em pessoas reais. A cena do elevador, por exemplo, é real, aconteceu exatamente daquela forma.”

A trilha sonora, ponto alto do filme, é fundamental em sua obra. Ele acha que só consegue passar a emoção do personagem e o que é apropriado para ele com uma boa canção ao fundo. “As músicas estão ali para mostrar a alma do persoangem, o que ele sente. Em alguns casos, nem preciso de diálogo, a letra da música já fala por si só”, analisa.

Sobre o sucesso de seu primeiro trabalho no cinema, o cineasta é taxativo: o público quer coisas novas, e esta é sua proposta. “Não fiz nada de revolucionário, apenas contei a mesma história sob um outro ponto de vista, talvez uma visão mais real dos fatos. As pessoas mudaram e há um público que está sedento por novidades e formatos ousados de filmes. Em (500) dias com ela não há clichê, e fugir do clichê agrada a essas pessoas que pensam e agem diferente.”

À noite, na primeira sessão de (500) dias com ela para o público carioca, Webb esteve presente com o mesmo jeito despojado, longe de parecer um cineasta já tão requisitado. Ele apresentou, com simpatia e carinho, seu filme à plateia do Festival do Rio, porém, não permanceu até o fim para ouvir os aplausos calorosos após a exibição do longa. Aplausos que confirmam o que ele me disse na tarde desta terça – o público quer novos tipos de filmes.

Aliás, ao final da entrevista, ele me perguntou o que significava a tatuagem no meu braço – Maktub. Expliquei que é um provérbio árabe, que quer dizer ‘está escrito’. Porque os árabes não acreditam em acaso nem em coincidência. Curiosamente, nas últimas cenas de (500) dias com ela, se fala justamente disso: não há coincidência, as coisas acontecem como tem que ser.

Concordo plenamente com este pensamento. E não é por acaso que Marc Webb se tornou uma das figuras mais queridas deste Festival. E, assim como o protagonista  de seu filme, é também um amor de pessoa.

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por Janaina Pereira

“O filme a seguir é uma história de ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Especialmente você Jenny Beckman. Vaca”. É assim que começa (500) Dias com Ela, em exibição a partir de hoje no Festival do Rio e que entra em cartaz ainda este ano em circuito. Este é o primeiro longa de Marc Webb, conhecido diretor de videoclips, que conquistou público e crítica no Sundance e chega ao Rio cercado de expectativas. A trama parece ser mais uma comédia romântica, mas só parece. Bem, comédia até que é. Romântica, não necessariamente.

Summer, a mocinha (Zooey Deschanel, sósia da cantora Kate Perry), é descolada e apaixonante. Tom, o mocinho (Joseph Gordon-Levitt, extremamente semelhante ao saudoso Heath Ledger), é um típico nerd que acredita que vai encontrar sua alma gêmea. Ele, claro, se apaixonada por ela, mas a moça não quer compromisso sério porque simplesmente não acredita no amor. Ainda assim, Tom se envolve com Summer e o que vemos na tela são, justamente, os 500 dias em que vive em função da garota que julga ser a mulher dos seus sonhos.

Por muitas vezes, Summer é doce e adorável. Até o expectador se encanta por ela. Mas, como vemos o filme sempre da perspectiva de Tom, percebemos que a moça também consegue ser indiferente e cruel. Algumas das frases mais dolorosas que os apaixonados nunca podem ouvir saem dos lábios carnudos de Summer. A menina não tem dó nem piedade de seu amado.

Claro que, com um diretor que veio do mundo da música, a trilha sonora tinha que ser destaque do longa. O momento em que Tom canta Here comes your man, do Pixies, é hilário. E as intervenções com She´s like the wind, idem. A trilha, aliás, é um personagem tão importante do filme quanto Summer e Tom. A linguagem da produção, de um modo geral, é bastante particular, imprimindo um estilo marcante para o jovem cineasta Webb, que conseguiu aproveitar na telona toda sua experiência visual com os clipes.

O que diferencia (500) Dias com Ela das outras comédias românticas é que, neste caso, não há romance, mas também não vemos o amor não correspondido. Porque Summer gosta de Tom, mas não o suficiente. E isso é o que nos torna cúmplices dele, e faz com que o filme seja criativo e inteligente, apesar de sua visão dolorosa, mas bastante verdadeira, do amor.

Após assistir ao longa, só um pensamento me vem a cabeça: que Tom – e todos aqueles que um dia já foram rejeitados – viva muito bem 500 dias sem ela.

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por Janaina Pereira

O Rio de Janeiro continua lindo e continua sendo, já diz a música de Gilberto Gil, apesar da esnobada do Tarantino. Em dia chuvoso, peregrinei entre entrevistas e filmes numa verdadeira odisseia. Assisti a dois longas bem bacanas para entrevistar dois diretores ainda mais maneiros – vocês já se acostumaram com a palavra, não é? – o Marc Webb, de (500) dias com ela e o Gerardo Herrero, de O corredor noturno.

De quebra, ainda falei com o Juan José Campanella, diretor do meu queridnho O Segredo dos seus Olhos. Em comum os três têm a simpatia e o carisma mas, como diretores, traçaram caminhos bem diferentes, embora ousados cada um em seu estilo.

(500) dias com ela é uma comédia nada romântica e até um pouco cruel com o amor. Mas é bastante verdadeira no que se propõe. Foi aplaudida com fervor em sua exibição de gala, no Odeon, com presença do diretor Marc Webb (foto).

O corredor noturno é uma história de suspense que foi testada na seção em que eu estava – sim, o diretor Herrero quis saber se o público entendeu ou não o final do filme e o que mudaria no desfecho. Muito interessante poder opinar sobre uma produção que ainda não teve sua estreia oficial.

Coisas do Festival do Rio.

herrero 2

por Janaina Pereira

Os argentinos estão batendo um bolão no Festival do Rio. Ontem eu já estava encantada com o filme O segredo dos seus olhos, mas hoje, após entrevistar o diretor Juan José Campanella e o produtor Gerardo Herrero (foto) – que também está no Rio para lançar O corredor noturno, filme que encerra a noite de hoje do Festival – estou absolutamente fascinada.

Simpáticos e solícitos, Campanella e Herrero trabalharam juntos pela terceira vez em O segredo dos seus olhos. A alegria pelo sucesso do filme na Argentina – em sete semanas, foi visto por mais de 1,5 milhão de pessoas – é imensa. A expectativa pela indicação de representante da Argentina ao Oscar, também.

“Tomara que isso aconteça”, diz Herrero.

“Não fico pensando nisso, mas se acontecer, ficarei feliz”, comenta Campanella.

Confira nas próximas horas, aqui no Cinemmarte, a entrevista completa com Juan José Campanella e Gerardo Herrero.

No Rio com Marc Webb

setembro 29, 2009

marc webb

 

por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

Em 500 dias com ela, filme que tem sua primeira exibição no Festival do Rio em algumas horas, a personagem Summer não acredita no amor. Marc Webb, o diretor do longa, no entanto, acredita. Conversei com ele a pouco no Leme Othon Palace. Tarde de garoa fina, um papo curto mas intenso.

Webb é simpático e carismático. Vindo do mundo dos clipes, levou sua essência para o cinema – seu primeiro filme tem uma trilha sonora marcante, como não poderia deixar de ser.

– Há várias cenas em que a letra da música ajuda na narração – comenta.

O sucesso da produção, que conquistou público e crítica no Sundance, tradicional festival de filmes independentes, e chega com muita expectativa ao Rio, deixa o diretor feliz, afinal, sua hisrtória de amor não correspondido contemporânea foi bem aceita.

– Não acho que fiz nada revolucionário, mas sei que é um filme diferente. O público quer ver coisas novas, há mercado para isso, e 500 dias com ela tem esta proposta.

A íntegra da entrevista com Marc Webb você lê em algumas horas aqui no Cinemmarte.

 

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por Janaina Pereira

 

Fazer um bom filme, de qualquer gênero, é algo difícil. Reunir, na mesma produção, comédia, romance e suspense e conseguir um resultado perfeito parece praticamente impossível. Para cineastas comuns, talvez. Para o talentoso Juan José Campanella, não. O argentino retoma a parceria com o ator Ricardo Darín – trabalharam em O filho da Noiva, O mesmo amor, a mesma chuva e Clube da Lua – para fazer o singular O segredo dos seus olhos, um dos destaques do Festival do Rio 2009.

A trama é bem simples: o oficial de justiça recém aposentado Benjamín (Darín) começa a escrever um romance policial sobre um caso que ele mesmo investigou em 1974. Ao revisitar o passado pelas palavras e pela memória, ele questiona o resultados das investigações e a forma como conduziu sua vida até então. Entre indas e vindas no tempo, descobrimos como foi o crime e o que ele causou aos envolvidos, além de desvendarmos que as decisões passadas ainda podem ser fatais no presente.

O roteiro, baseado no romance de Eduardo Sacheri e adaptado pelo próprio diretor, tem todos os elementos que enriquecem qualquer história, mas que nem sempre são usados da melhor forma. Aqui, no entanto, tudo funciona muito bem: pitadas sutis de comédia e romance com toques de suspense policial intenso, culminando com momentos sufocantes até chegar em seu final com uma apoteose digna de filmes de Hitchcock.

Para um roteiro tão bom, o elenco só podia ser brilhante. Falar que Ricardo Darín dá um espetáculo em cena é cair no lugar comum: o ator brilha com um olhar carregado de paixão e veracidade, mostrando-se grandioso a cada cena. Soledad Villamil envolui claramente nos tempos distintos da trama, amadurecendo com a personagem. Ela é cativante, mas contida, como a Irene do passado, e direta e sensível como a Irene do presente. Porém, o destaque extremo fica por conta de Guillermo Francella,que interpreta Sandoval, melhor amigo de Benjamín. Ponto cômico do longa, ele consegue ir do riso às lágrimas com rara desenvoltura.

Vale ressaltar a trilha sonora que pontua bem a história, indo do romance ao drama, e passando pelo suspense,sem perder o ritmo; a fotografia ímpar – reparem na cena em que Irene e Benjamín se despedem na estação de trem -, a maquiagem que transforma os atores na passagem de 25 anos da trama e a direção segura de Campanella,com enquadramentos de câmera e planos sequênciais belíssimos (destaque para as cenas no jogo de futebol do Racing), além do ótimo trabalho com seus atores.

O segredo dos seus olhos é tenso e intenso, e embora transite por vários gêneros, no final das contas é uma grande história sobre o poder da paixão em nossas vidas. Para ver, rever e aplaudir de pé.

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

 

O dia de hoje no Festival do Rio começou com a notícia do cancelamento da vinda de Quentin Tarantino à cidade. Uma pena. O diretor perderá a chance de participar de um dos mais importantes festivais de cinema, de conhecer uma bela cidade e ainda de se sentir realmente popular – Bastardos Inglórios, seu novo longa, é o filme com ingressos mais vendidos do Festival do Rio 2009.

Duvido que, em qualquer outro lugar do mundo o Tarantino fosse ser recebido como aqui. Duvido que tenha rolado, em qualquer parte do planeta, uma pré-estreia de Bastardos como seria a daqui, com um bando de gente gritando e acenando para ele. O cineasta perdeu a única chance que teve nesta vida de se sentir o Brad Pitt. Pronto, falei.

Tarantino não vem, mas o argentino Juan José Campanella está aqui divulgando o filme que eu aponto, desde já, como um dos mais maneiros – para usar uma linguagem bem carioca – do Festival, e o melhor até agora: O segredo dos seus olhos. Vou começar pelo fim: o longa foi aplaudido hoje na sessão que eu assisti no Espaço de Cinema 1. E aqui a galera não aplaude qualquer coisa não. A história de um funcionário do Tribunal de Justiça que entra a fundo na investigação de um assassinato e, 25 anos depois, tenta retomar sua vida ao mesmo tempo em que escreve um romance, é daquelas que arrebatam.

O filme é maravilhoso, graças ao roteiro inteligente – baseado no romance de Eduardo Sacheri e adaptado pelo próprio diretor -, a direção precisa de Campanella e a atuação brilhante de Ricardo Darín. Para quem não se lembra, Darín e Campanella já trabalharam antes no sucesso O Filho da Noiva (2001). Em O segredo dos seus olhos eles mostram total sintonia. Se este longa não faz parte da sua programação, abra um espaço na agenda. Ele merece.

O outro filme do meu dia foi Hair Índia, documentário sobre a indústria do cabelo indiana. Sim, é isto mesmo: enquanto uns indianos raspam a cabeça como rito de passagem e em busca de apoio espiritual para melhorar de vida, o cabelo puro – sem tintura – deles roda o mundo para se transformar em caros apliques, que são colocados em gloriosas cabeças de indianas mais afortunadas.

Bizarro se não fosse cruel ver o misticismo de um povo se transformar em mais um produto da globalização. É o tipo de coisa que a gente não vê na novela das nove. Ainda bem que tem o Festival do Rio para nos contar a história. Será que o Tarantino sabe disso?

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

Já faz algum tempo que os filmes de ficção científica estão tentando se reinventar. O gênero, de clássicos como Star Trek e Star Wars, ganhou um novo direcionamento no início dos anos 1980, quando Blade Runner previa um futuro catastrófico, fazendo paralelo com o presente e mostrando metáforas da vida – os andróides queriam ser imortais tanto quanto os humanos.

De lá para cá, várias tentativas foram feitas para dar novos rumos ao sci-fi, até surgir Minority Report, de Steven Spielberg, a nova guinada do gênero início dos anos 2000. Agora esqueçam tudo que eu escrevi e concentrem-se no filme do ano e, quem sabe, na mais importante história de ficção científica da década. Nada mais será como antes depois de Distrito 9, a produção de Peter Jackson dirigida por um sul-africano, protagonizada pos atores desconhecidos e com o frescor que o ‘futuro’ precisava. O longa está na programação do Festival do Rio e entra em cartaz no circuito nacional no dia 23.

Distrito 9 é inovador por um único motivo – que no trailer você já consegue sacar. A história já foi contada mil vezes: extraterrestres invadem a Terra, os humanos querem destruí-los, trava-se uma batalha, aquelas coisas de sempre. A tal sacada do roteiro é que o filme foi feito como um documentário, com depoimentos, atores olhando para tela, como se fosse baseado em fatos reais. E isso, e apenas isso, já faz do filme brilhante, perfeito e – algo raro no cinema atual – inteligente. Mas ele vai além. Seu conteúdo político é inegável, pois o jovem diretor sul-africano Neill Blomkamp mostra os alienígenas sendo segregados pelos humanos, tal como aconteceu em seu país na época do Apartheid.

Sim, é isso mesmo, Distrito 9 é sobre o preconceito, a discriminação de raças, e de forma sagaz coloca alienígenas no lugar que um dia foi dos negros. Os aliens de Blomkamp moram na favela e têm atitudes que os negros tinham devido ao pouco acesso à recursos básicos para sobreviver.

O protagonista Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley, ótimo ator que mostra desamparo e desespero na medida certa), encarregado de despejar os aliens, é o grande condutor da história, e eu paro por aqui, porque se contar mais, estrago o prazer de conferir a longa e se encantar com ele.

O filme teve baixo orçamento (30 milhões de dólares) para os padrões hollywoodianos, mas parece uma mega produção recheada de efeitos especiais. E Peter Jackson, que não é bobo, sabia muito bem em que apostava. Ponto para ele. Distrito 9 é o filme mais engajado e orginal do ano. E isso não é pouco.

Chuva em dia de sol

setembro 27, 2009

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

Domingo de sol no Rio de Janeiro. Vamos ao cinema? Foi isso que eu e muita gente fez hoje para curtir o Festival do Rio 2009.  Assisti ao argentino Chuva, de Paula Hernandez, grande expectativa do Festival, já exibido em Gramado.

História bacaninha, mas que você já viu antes: duas pessoas estranhas se esbarram e começam uma amizade baseada em suas perdas e na carência. Gostei da contrução dos personagens e na metágofa com a Buenos Aires chuvosa. Bonitinho.

Distrito 9 foi meu filme na sequência, um arrasa-quarteirão sobre aliens que invadem a África do Sul e os humanos, como sempre, tentam destruir os coitados que nada fizeram. Mas não é só isso. O longa é político, é inteligente, é repulsivo, é a melhor sci-fi feita nos últimos tempos. Pronto, falei.

Para compensar meu momento ‘filme pipoca’, vi A Pequenina, fofíssima produção italiana que conta a história da pequena Aia, dois anos, abandonada pela mãe e encontrada por uma família circense. A relação da menina com a galera do circo é de um carinho sem fim. Impossível não se apaixonar por uma história tão simples mas de uma humanidade sem fim. Adorei.

De quebra, esbarrei na Paula Hernandez, a diretora de Chuva. O Festival do Rio é assim, bobo do Tarantino que não vem.