Enquanto o sol não vem

julho 16, 2009

poster

por Janaina Pereira

O modo como nos vemos não é, necessariamente, a forma como somos vistos. Muitas vezes nos olhamos com muito mais generosidade do que os outros. E dói quando descobrimos que nossa imagem é distorcida.

Em Enquanto o sol não vem – que estreia somente em São Paulo nesta sexta, 17 – a diretora, roteirista e atriz Agnès Jaoui coloca quatro personagens em confronto, e cada um deles transmite uma imagem diferente daquilo que realmente são.

Agathe Villanova (Agnès), escritora, aspirante à política e feminista, parece ser uma mulher bem-sucedida e segura. Ela retorna à casa de sua infância, na região de Avignon, sul da França, pouco depois da morte de sua mãe. Lá reencontra a irmã Florence (Pascale Arbillot), aparentemente uma mulher com uma tranquila relação no casamento.

Entre situações dramáticas e engraçadas, descobrimos que Agathe era a preferida da mãe e Florence, para fugir de um casamento infeliz,  mantém um caso extraconjugal com Michel Ronsard (Jean-Pierre Bacri, também co-roteirista da trama). O ressentimento entre as duas é evidente.

Michel, o amante de Florence, é  um jornalista supostamente respeitado em seu meio, que faz um documentário sobre mulheres importantes. Ele resolve entrevistar Agathe por sugestão de Karim (Jamel Debbouze), que o ajuda na produção do filme. O rapaz é filho da empregada, Mimouna (Mimouna Hadji), que trabalha com a família de Agathe há décadas, desde que saiu da Argélia. Apesar da consideração por Mimouna, nem Agathe, nem Florence pagam um salário à empregada, o que causa revolta em Karim – um homem que parece ser extramente fiel aos seus princípios, mas que ao longo do filme também comete seus deslizes.

Em uma das melhores cenas do longa, Karim mostra quem, de fato, Agathe é. Editando o documentário, ele apresenta uma versão cruel e autoritária da escritora, que é incapaz de perceber a infelicidade da irmã e a perda de seu grande amor, mas que se preocupa com seus discursos e sua imagem de feminista.

Sem estardalhaços, Enquanto o sol não vem apresenta um retrato da França multiracial que não reconhece seus imigrantes, das famílias despedaçadas, dos fracassos de cada dia – no amor, no emprego, na vida. Com delicadeza, Agnès Jaoui mostra que não se envergonhar de falhas e defeitos pode ser a saída para nossas imperfeições diárias.

E a história que podia ser mais um drama do cotidiano, se torna um filme às vezes cômico, às vezes melancólico, mas que nos permite rir e duvidar de nós mesmos.
Parlez-moi de la Pluie
França, 2008 – 110 min
Drama / Comédia

Direção: Agnès Jaoui
Roteiro: Agnès Jaoui, Jean-Pierre Bacri
Elenco: Agnès Jaoui, Jamel Debbouze, Jean-Pierre Bacri, Pascale Arbillot, Guillaume De Tonquedec, Mimouna Hadji, Frédéric Pierrot, Florence Loiret

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