Um Homem de Moral

junho 7, 2009

por Fábio Camargo

Crianças. Adolescentes. Adultos. E até o pessoal da melhor idade – dali em diante. Todas as pessoas gostam de músicas. Não conheço uma alma viva que seja não-fã declarada de música. “Bah, eu devia ter nascido surdo, não suporto música alguma”. Já ouviu isso por aí? A música rege os nossos passos, a nossa vida. Quem nunca pensou/sonhou/imaginou, um dia, viver como nos filmes, onde surge uma trilha sonora do nada no meio de alguma situação que nos encontramos.

Vamos lá! Você acorda atrasado, se troca do jeito que dá e sai correndo prá não perder aquele ônibus. De repente, surge uma música eletrizante, vinda do nada, para dar mais empolgação ainda à correria. Outra cena: você não se encontra há muito tempo com a pessoa amada. E, quando a vê, a poucos metros de ti, aqueeela canção que vocês amam de paixão começa a tocar. Seria tudo mais bonito, não é? Pois, repito: a música rege a vida das pessoas.

E há um cara aí que já escreveu muitas “bunitezas” para os brasileiros. Mas não é um cara qualquer, não. É um homem de muita moral, de canções interpretadas por nomes como Chico Buarque, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Inezita Barroso, Miúcha e Adoniran Barbosa. E foi por isso que Ricardo Dias veio a campo com um documentário sobre ele, o mestre, Paulo Vanzolini – Um Homem de Moral, que estreou na última sexta, dia 5.

O filme é maravilhoso, mostra tudo o que este jovem senhor de 85 anos fez para o Brasil. Como zoólogo – formado em medicina pela USP e com doutorado em biologia em Harvard. E, nas horas vagas, como compositor. No lado profissional, prá resumir, foi Diretor do Museu de Zoologia da USP por mais de 30 anos e publicou 150 artigos acadêmicos. Enquanto estava de folga, entre um pensamento e outro, acabou escrevendo “José”, “Juízo Final”, “Ronda”, “Praça Clóvis”, “Cuitelinho” e muitas outras belas histórias.

De suas obras mais conhecidas, está “Volta por Cima”, praticamente um hino popular nacional. Porém, o autor lamenta que a frase mais repetida nos quatro cantos seja “Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima”. Para Vanzolini, o trecho mais bonito da música é “Reconhece a queda e não desanima”, e eu dou a mão para o mestre.

Durante quase uma hora e meia, o espectador pode desfrutar os lados bem-humorado e ranzinza do compositor, suas histórias e seus chorinhos, capoeiras, sambas e até música caipira. Misturadas às raras fotografias de como era São Paulo, surgem imagens das gravações do CD “Acerto de Contas”, com as participações dos artistas já citados. O filme é, também, uma homenagem a cidade de São Paulo e sobre seu povo, não somente aos paulistanos, mas sim, a todos aqueles que vivem na “terra da garoa”. Afinal, a maioria das composições de Vanzolini surgiu a partir de alguma situação vivida na capital, nos tempos que era da cavalaria, que era a polícia do Exército. Como a patrulha era a pé, ele percorria o baixo meretrício, o Bom Retiro, o centro, a região da São João. Daí tanta história prá contar, ainda mais prá uma mente genial como a do mestre.

Uma frase sensacional, dita por ele logo no início do filme, demonstra como é sua visão a respeito dos paulistanos. “Não gosto de cada um como indivíduo; mas do povo, como um todo, eu gosto”. Ou seja, ele compõe porque gosta, prá tocar os corações. Ao longo do filme, ele conta como surgiu cada verso, e mostra a continuação. Após cada título explicado, vem o resultado de tanto esforço. Música a música, misturam-se cenas do cotidiano popular de São Paulo com as apresentações de Inezita Barroso, Martinho da Vila, Paulinho da Viola e companhia.

Estas imagens da cidade são especiais, detalhes urbanos mais do que pertinentes para o enredo do filme, tornando impossível segurar o sorriso no canto da boca de quem assiste o filme. Sorte de quem já teve o prazer de caminhar nesta cidade em seus momentos mais inoportunos, como na calma madrugada do centrão, enquanto os garis varrem as ruas e calçadas, lavam os postes com mangueiras, ou enquanto trabalhadores esperam pelo ônibus ainda de madrugada.

Enfim, essa é a obra de Paulo Vanzolini que, junto com Adoniran Barbosa, é reconhecida como o que há de melhor no samba de São Paulo, sempre com a presença do bom e velho malandro em suas letras. O filme lembra dos clássicos e de tantas outras músicas que valem a pena lembrar. E uma das principais características do mestre, é ele não saber nada de música, como não sabe distinguir um tom maior de um tom menor mas, mesmo assim, conseguir fazer músicas espetaculares. Resumindo: se Chico Buarque já cansou de dizer que aprendeu a fazer música com Paulo Vanzolini, não resta dúvidas de que é bom você correr para o cinema e assistir o filme. E de lambuja, quando terminar a sessão, corra na loja mais próxima e compre o “Acerto de Contas”.

Um Homem de Moral

Roteiro e Direção: Ricardo Dias

Direção de Fotografia: Carlos Ebert

Montagem: Marcello Bloisi

Direção Musical: Italo Perón

Produzido por Zita Carvalhosa

Produção: 24 VPS Filmes, SUPERFILMES e RCSD Produções

Duração: 84 minutos

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