A esquiva

março 30, 2009

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Por Karina Tiemi

Entre aqueles que já passaram da adolescência, quem não se recorda com um certo carinho das brigas, contradições e paixões dos tempos de colégio? Quem não se lembra dos momentos vergonhosos? Sentimentos que naquela época pareciam tão intensos, futuramente são enxergados como histeria e tolices passageiras.

Pois é esse o momento dos jovens que o diretor Abdelattif Kechiche narra em seu filme A esquiva, exibido na estreia do Cineclube Aliança Francesa.  O filme abocanhou o César de melhor diretor, disputando com obras de peso como Um Longo Domingo de Noivado, de Jean-Pierre Jeunet (O fabuloso destino de Amelie Poulain).

Kechiche mostra os conflitos amorosos que se desencadeiam em uma periferia francesa, lugar em que vivem muitos imigrantes. Um jovem islâmico de 15 anos, Krimo (Osman Elkharraz), leva um fora da namorada, mas não se abate, pois já está de olho na menina loirinha dos olhos claros, cujo temperamento nada tem de angelical.

Arrogante e cheia de si, Lydia (Sara Forestier),está se preparando para representar a protagonista em uma peça de Maurivaux – Le jeu de l’amour et du hasard – para a escola quando se vê envolvida em um triângulo amoroso. Não se pode dizer que isto a surpreendeu e, por outro lado, também não se pode afirmar que ela esperava por isso.

A dúvida de Lydia é a peça de dominó que desmorona as demais. Com muito drama temperado com comédia, ingredientes fundamentais da adolescência, uma série de conflitos envolvendo outros personagens se desenrolam a partir do dilema da garota.

Uma história cativante, em que os atores e seus personagens roubam a atenção com as decisões e atitudes inconstantes de quem realmente tem 15 anos, idade em que a razão de se viver hoje rapidamente é esquecida ou substituída por alguma outra aflição no dia seguinte.
Direção: Abdelattif Kechiche
Elenco: Com Osman Elkharraz, Sabrina Ouazani, Sara Forestier.

Gênero: Comédia Romântica
Duração: 96 min.

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Cartas ao Presidente

março 28, 2009

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Por Janaina Pereira

Cartas ao Presidente, do tcheco Petr Lom,  abriu o festival É Tudo Verdade, na última quarta, dia 25. O diretor, que estava presente ao evento, soube mostrar com rara habilidade o que há por trás do populismo do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad.

Já em sua primeira cena, o documentário mostra uma multidão perseguindo o comboio onde está a câmera. Há um misto de fascinação e desespero na expressão de homens e mulheres que, com maços de papel em punho, tentam se aproximar dos veículos em movimento. A partir daí o que se vê é como o povo pode ser facilmente manipulado. Por meio de cartas, a população conta seus problemas e faz pedidos ao presidente, sendo prontamente atendida por visitas estratégicas de Ahmadinejad. 

Com Cartas ao Presidente, seu terceiro longa, Lom se tornou o primeiro estrangeiro a ter permissão para filmar as caravanas de Ahmadinejad pelo interior do país. Para convencer Teerã de que não era um espião de Washington, apresentou um plano de registrar a prática, estimulada pelo mandatário, de envio de cartas ao governo. Segundo a atual gestão, mais de 9 milhões de pessoas já escreveram para contar seus dramas e 76% das demandas foram atendidas.

Teerã gostou do projeto. Achou que Lom faria um filme de propaganda mas resultado final está bem longe do título proposto. Cartas ao Presidente mostra, sim, a enorme popularidade do presidente nas regiões mais pobres mas apresenta também os problemas que corroem hoje o país: inflação, desemprego e censura.

Em cerca de 1 hora e 30 minutos de duração, Cartas ao Presidente relata a esperança vã de gente pobre e sofrida, ao mesmo tempo em que os mais escolarizados reclamam, estarrecidos, da situação do país.

Cineclube Aliança Francesa

março 26, 2009

A Aliança Francesa e a Fnac lançam a partir do próximo domingo, no simpático Reserva Cultural, na Avenida Paulista (SP), o Cineclube  Aliança Francesa. No último domingo de cada mês, um filme francês será exibido como parte das comemorações do ano da França no Brasil. A mostra segue até novembro, e o ingresso custa apenas R$ 5,00 – com direito a café da manhã.

O evento será dividido em três ciclos, cada um com tema específico. Partindo do estrondoso sucesso de Entre os Muros da Escolajá comentado aqui – o primeiro ciclo é relacionado a educação. O filme de abertura será A esquiva (L’ esquive), de Abdelattif Kechiche, vencedor de 5 César (Oscar francês), incluindo melhor filme e direção.

A venda dos ingressos começa nesta sexta, a partir das 13 horas. No domingo as bilheterias abrem às 9h30, o café será servido às 10h e o filme começa às 11h.

Simplesmente Feliz

março 24, 2009

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por Janaina Pereira

Mike Leigh é um dos melhores diretores britânicos, conhecido por seus filmes intensamente dramáticos como Segredos e Mentiras e Vera Drake. Ao lançar Simplesmente Feliz (Happy-Go-Lucky), ele embarca pelo universo das comédias. À primeira vista, pode se pensar que é mais um exemplar do sarcástico humor inglês. Grande engano.

O filme não é irônico, nem divertido. Muitas vezes bobo, outras vezes perdido, só serve para comprovar que o humor não é a praia de Leigh. A história de Poppy (Sally Hawkins), jovem professora de escola primária, e uma otimista incorrigível que difícilmente se chateia, é um tédio.

A moça  tem o dom de aproveitar ao máximo a vida. Determinada a aprender dirigir, ela conhece Scott(Eddie Marsan), um instrutor ansioso e pertubado, que testará todo o bom humor de Poppy. E toda a nossa paciência também.

Para quem gosta de filmes sem profundidade e com humor discutível.

Simplesmente Feliz (Happy-Go-Lucky)
Elenco: Alexis Zegerman, Sally Hawkins, Eddie Marsan, Andrea Riseborough, Sinead Matthews. 
Direção: Mike Leigh
Gênero: Drama
Duração: 118 min.
Distribuidora: Imagem Filmes
Estreia: 27 de Março de 2009

Gran Torino

março 23, 2009

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por Janaina Pereira

Clint Eastwood é um dos mais respeitados diretores do cinema americano. Gosto muito de seus filmes, mas confesso que como ator eu nunca o vi de forma especial. Tudo mudou com Gran Torino, seu filme mais recente (e, segundo ele, o último atuando), em cartaz nos cinemas.

Como ator, Clint Eastwood tem uma interpretação inesquecível. O personagem rabugento e resmungão é encantador, e ele dá conta do recado com precisão. Já o filme é muito, muito bom até o final previsível. Confesso: fiquei desapontada.

A história é assim: Walt Kowalski (Eastwood) é um inflexível veterano da Guerra da Coréia, agora aposentado. Para passar o tempo ele faz consertos em casa, bebe cerveja e vai mensalmente ao barbeiro (John Carroll Lynch). Após a morte da sua esposa, começa a prestar a atenção em seus vizinhos imigrantes hmong, vindos do Laos. Walt os despreza.

Ressentido e desconfiando de todos, ele deseja apenas passar o tempo que lhe resta de vida. Até que Thao (Bee Vang), seu tímido vizinho adolescente, é obrigado por uma gangue a roubar o carro de Walt, um Gran Torino retirado da linha de montagem pelo próprio. Walt consegue impedir o roubo, o que faz com que se torne uma espécie de herói local. E, a partir daí, claro, sua vida muda completamente.

O ritual de aprendizado entre mestre e aluno é um dos mais manjados, mas Clint consegue, com sarcasmo e elegância, cativar o público. O problema é o final patético, nada épico como o personagem – e o filme – mereciam. Não que ‘a moral da história’ precisasse ser diferente, mas a forma como foi contado podia ser melhor.

Vale por Clint. Sempre e para sempre o grande herói americano.

Gran Torino (2008), 116 min.
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Nick Schenk, Dave Johannson
Com: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her, Brian Haley, Geraldine Hughes, Dreama Walker

É tudo verdade

março 22, 2009

O festival É Tudo Verdade, principal evento dedicado exclusivamente à cultura do documentário na América do Sul, começa sua 14ª edição no dia 25 de março e vai até 5 de abril.

Fundado e dirigido por Amir Labaki, o festival acontece mais uma vez simultaneamente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Uma seleção de destaques será exibida em Brasília (de 14 a 26 de abril).

Para acompanhar a programação, acesse http://www.itsalltrue.com.br/2009/home.asp

Motivos para no enamorarse

março 21, 2009

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por Janaina Pereira

Assisti Motivos para no enamorarse na abertura da Semana do Cinema Argentino, na última quinta-feira. Para quem curte uma história simples mais cheia de graça, o filme é um prato cheio.

Dirigido por Mariano Mucci e estrelado pela atriz Celeste Cid (ambos presentes na abertura do Festival), a produção conta a história da suposta Clara (Celeste), cuja vida é permeada de situações de extremo azar, e que costuma passar seus dias na solidão na angustiante rotina de seu emprego de telemarketing.

Traída pelo namorado e pela amiga com quem morava, Clara se vê obrigada a procurar outro lugar para viver. Acaba dividindo um apartamento com um homem misterioso, a quem apelidou de Teo, e juntos eles combinam um ‘código de convivência’, com uma regra fundamental: nada de amantes.

Delicado e simpático, Motivos para no enamorarse é daqueles filmes que enchem a gente de esperança de que a vida sempre pode ser melhor. É para ver e se encantar.

Veja a programação completa do festival:

Sexta-feira (20)
16h30 – “La Velocidad Funda el Olvido”
20h30 – “Nunca Estuviste tan Adorable”

Sábado (21)
16h30 – “Motivos para no Enamorarse”
20h30 – “La Velocidad Funda el Olvido”

Domingo (22)
16h30 – “Nunca Estuviste tan Adorable”
20h30 – “Amorosa Soledad”

Segunda-feira (23)
20h30 – “Motivos para no Enamorarse”

Terça-feira (24)
20h30 – “Amorosa Soledad”

Quarta-feira (25)
20h30 – “La Velocidad Funda el Olvido”

Quinta-feira (26)
20h30 – “Nunca Estuviste tan Adorable”

Entre os muros da escola

março 20, 2009

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por Janaina Pereira

Conversinhas em sala de aula, desrespeito com o professor, alunos que gritam e trocam  insultos. Você pode achar que este cenário é de uma escola brasileira, mas é uma classe de 7ª série da periferia de Paris, na França, foco de todas as atenções no filme Entre os muros da escola (Entre les Murs). O longa-metragem de Laurent Cantet é uma das mais brilhantes produções sobre a relação professor x aluno.

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2008, o filme é baseado no livro homônimo de François Bégaudeau (lançado no Brasil pela Martins Editora), que retrata a  sua experiência como um professor ginasial às voltas com uma turma problemática. Interpretado também por François, o personagem central da história tem de lidar não só com a falta de interesse dos alunos em sua disciplina mas com as diferenças sociais e culturais.

Filmado como um documentário e contando com um elenco de não-atores,  Entre os muros da escola foge da imagem do professor perfeito recorrente em filmes hollywoodianos. É sincero, simples e fiel à realidade francesa – e a nossa também. Para ver e refletir.

França, 2008
Duração: 128 min
Gênero:Drama
Direção:Laurent Cantet
Roteiro: Robin Campillo, Laurent Cantet, François Bégaudeau
Elenco: François Bégaudeau, Laura Baquela, Nassim Amrabt, Cherif Bounaïdja Rachedi, Juliette Demaille, Damien Gomes, Arthur Fogel, Dalla Doucoure.
Distribuidora: Imovision

Em cartaz desde março de 2009.

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Com a visita da presidente da Argentina Cristina Kirchner ao país, o Consulado Geral da República Argentina em São Paulo e o HSBC Belas Artes promovem uma programação especial, com quatro filmes argentinos ainda inéditos no Brasil. Confira os filmes que estão sendo exibidos de hoje até 26 de março.

Motivos Para No Enamorarse
(Argentina, 2008, 90 minutos)
Direção: Mariano Mucci
Elenco: Jorge Marrale, Celeste Cid, Mariana Briski, Rodolfo Ranni, Esteban Meloni e Irene Sexer.

Clara é uma garota sem sorte. Ela costuma passar seus dias na solidão de uma rotina de telemarketing e sonha com uma vida melhor trabalhando em outro emprego. Em sua intensa busca por um relacionamento amoroso minimamente bem-sucedido, começa um romance infeliz com Axel, mas logo é vítima de traição. Clara, agora ex-namorada, se vê obrigada a sair do apartamento que dividia com ele, mesmo sem ter para onde ir. De repente aparece na sua vida um homem misterioso, a quem apelidou de Teo, que a convida para morar com ele. Juntos eles combinam um ‘código de convivência’, com uma regra fundamental: nada de amantes.

Nunca Estuviste Tan Adorable
(Argentina, 2008, 90 minutos)
Direção: Mausi Martinez
Elenco: Maria Oneta, Mirta Busnelli, Luis Luque, Lucrecia Oviedo, Lorena Forte, William Prociuk e Gonzalo Valenzuela.

Blanca tomou duas decisões. A primeira, há 20 anos: sair da pobreza de Barracas para casar-se com Salvador, um homem bom, proprietário de uma oficina mecânica, que a levaria para morar em um moderno apartamento em Olivos muito perto da residência do presidente, como ela sempre sonhou. A segunda decisão, quase 20 anos depois, marca o ponto de partida dessa história: mudar os móveis velhos herdados de seu casamento por outros em maior sintonia com a época: 1955. As fantasias hollywoodianas narcisistas de Blanca, seus filhos, sua íntima amiga que vive um drama familiar e um misterioso admirador que continuamente envia presentes caros e luxuosos completam o quadro desta divertida e emocionante comédia.
 
La Velocidad Funda El Olvido
(Argentina / Espanha, 2007, 110 minutos)
Direção: Marcelo Schapces
Elenco: Luis Luque, Nicolás Mateo, Uxía Blanco e Marta Larralde.

Olmo, um jovem de 24 anos, vive num mundo longe da realidade construída pela obsessão de seu pai, que coleciona, armazena e classifica todos os tipos de objetos sem sentido aparente. Mas a presença cada vez mais distante de sua mãe mudou os destinos deles para um caminho surpreendente. Uma história fascinante e comovente sobre a identidade, a memória e o esquecimento.

Amorosa Soledad
(Argentina, 2007, 84 minutos)
Direção: Victoria Galardi e Martin Carranza
Elenco: Ines Efron, Fabian Vena, Nicolas Pauls, Monica Gonzaga e Ricardo Darín.

Depois de ser abandonada pelo seu namorado, Soledad resolve ficar sozinha nos próximos três anos de sua vida para evitar outra desilusão amorosa. Mas tudo parece trabalhar contra sua decisão. Hipocondríaca, ela conhece um homem e, surpreendentemente, as coisas começam a fluir de uma maneira inesperada quando o seu ex resolve procurá-la de volta. O reencontro a obriga a tomar uma decisão. Pertencem ao assustador e apaixonante mundo de Soledad sua mãe, que vive preocupada com a própria imagem, liga constantemente para a filha mas nunca a visita, o pai que raramente a vê e um sócio com quem desabafa todos os seus problemas.

Milk

março 20, 2009

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por Janaina Pereira

Faz tempo que aprendi a gostar – e respeitar – o Sean Penn como ator. E seu último filme Milk, a voz da igualdade (Milk), que deu o segundo Oscar ao ator, só veio confirmar minha teoria de que ele é bom mesmo.

Vamos deixar claro que Penn mereceu – e muito – o prêmio, porque Mickey Rourke renascendo das cinzas é demais. E o Brad Pitt – apesar de ótimo em Benjamim Button – ainda é Brad Pitt por melhor que seja sua atuação. Você olha o personagem e vê Brad, lindo e loiro. Sean Penn não. Você esquece que ele é um ator e vê o personagem vivo, em carne e osso. Ele é bom pacas, bom demais da conta, e ele – só ele – vale o filme. Mas por que será que Milk é apenas um filme de um grande ator?

Com seus primeiros trabalhos (Drugstore Cowboy, de 1989, e Garotos de Programa, de 1991), o diretor Gus Van Sant levantou polêmicas e arrebatou um público que via em seus personagens uma realidade crua e dolorosa, mas necessária. Em Milk, Sant volta a tratar de um tema explosivo, mas o filme é ‘feijão com arroz’. O roteiro oscarizado não tem nada de original, afinal, foi baseado em história real. Como bem disso meu amigo Léo, do Planeta Disney, biografias nem deveriam concorrer a roteiro.

A história? Bem, se você ainda não sabe, é a cinebiografia de Harvey Milk (1930-1978), político norte-americano que assumiu sua homossexualidade publicamente nos anos 1970, interpretado brilhantemente por Penn. Milk foi o primeiro homossexual assumido a ser eleito a um cargo público nos Estados Unidos. O ativista foi assassinado por um de seus concorrentes políticos, Dan White (papel de Josh Brolin – que concorreu ao Oscar como coadjuvante – depois de Matt Damon desistir do filme).

Sant já vinha tentando rodar a vida de Milk desde o início dos anos 1990 – na época havia pensado em nomes como Robin Williams, Richard Gere, Daniel Day-Lewis e James Woods para viver o personagem. Valeu a pena esperar tantos anos para fazer Milk agora. O personagem merecia o corpo, a alma e a voz de Sean Penn. E Penn merecia mesmo sua segunda estatueta dourada.

Direção: Gus Van Sant
Elenco: Sean Penn, Emile Hirsch, Josh Brolin, Diego Luna, James Franco, Victor Garber, Denis O’Hare, Stephen Spinella, Eric Stoltz.
Gênero: Drama
Duração: 128 min.
Distribuidora: Universal Pictures

Em cartaz desde fevereiro de 2009.