Foi apenas um sonho

janeiro 30, 2009

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por Janaina Pereira

Sam Mendes era um diretor de teatro quando, ao fazer seu primeiro filme para o cinema, alcançou o sucesso absoluto com o ácido Beleza Americana. A partir daí, traçou sua carreira cinematográfica dirigindo dramas consistentes, como o ótimo Estrada para Perdição. Agora ele está de volta com mais um filme dramático, Foi apenas um sonho (Revolutionary Road). O filme estreia hoje e marca o reencontro nas telas de um dos casais de protagonistas mais charmosos do cinema: Leonardo DiCaprio e Kate Winslet (aliás, adoro os dois).

Leo e Kate têm muita coisa em comum. Começaram a carreira na adolescência e logo fizeram muito sucesso – ele, em Gilbert Grape; ela, em Almas Gêmeas. A dupla se encontrou há 12 anos em Titanic, um estrondoso sucesso que quase naufragou com suas carreiras. Blockbuster da pior qualidade, fez sucesso mas ‘queimou o filme’ do casal. Porém, Leo e Kate têm talento de sobra e seguiram adiante, fazendo papéis difíceis e conseguindo reconhecimento da crítica.

Leo, eterno injustiçado no Oscar, vinha sendo indicado aos prêmios de melhor ator nesta temporada pelo Revolutionary Road de Sam Mendes. Kate, algumas vezes indicada mas sempre preterida, também. Eis que o filme parecia a redenção dos dois, após a avalanche de indicações no Globo de Ouro e a vitória de Kate como atriz. E aí veio a surpresa. A Academia de Hollywood esnobou Mendes e DiCaprio e indicou Kate por O leitor – filme que também abocanhou o lugar até então cativo de Revolutionary Road como um dos melhores filmes do ano passado.

Vamos aos fatos: esqueçam o título em português, ele entrega – e estraga – a história. O filme poderia ter sido indicado ao Oscar sim, mas não foi, e isso não o diminui em nada. É uma produção impecável, com muito requinte técnico, atuações memoráveis, direção instigante e ainda com direito a fotografia do Roger Deakins, meu favorito.

Adaptado do romance de Richard Yates, o roteiro de Justin Haythe narra a vida de Frank (DiCaprio) e April Wheeler (Winslet), um casal que sempre se considerou especial, diferente e disposto a levar uma vida baseada em altos ideais. Assim, quando se mudam para o novo lar na Revolutionary Road, eles prometem não ficar presos aos limites sociais da época (anos 1950) e acreditam que não serão contaminados pela inércia do subúrbio. Mas o tempo passa e os Wheeler acabam se tornando tudo que sempre abominaram: ele, um homem preso a rotina de um trabalho que detesta; ela, uma dona-de-casa infeliz. Disposta a virar o jogo, April faz uma proposta, aparentemente absurda, ao marido, e o casal passa a conviver com um incômodo dilema.

No começo é DiCaprio quem domina as cenas mas, ao final da história, percebemos que o filme é de Kate. É a sua personagem quem comanda a ação, o drama, o desespero e a paixão que permeiam esta produção primorosa, uma espécie de Beleza Americana ao contrário. Dessa vez a luta para sair da inércia não passa de um sonho, como diz o título em português.

Vale destacar que Foi apenas um sonho recebeu três indicações ao Oscar – figurino, direção de arte e ator coadjuvante para o excelente Michael Shannon, que brilha como o supostamente desequilibrado John.

O filme mostra a maturidade de Leo e Kate e apresenta, especialmente, mais uma face da classe média americana – sem sonhos, sem brilho, sem esperança. Bem ao estilo de Sam Mendes.

O leitor

janeiro 23, 2009

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por Janaina Pereira

Até anteontem, O leitor (The reader), de Stephen Daldry (As horas) baseado no romance de Bernhard Schlink, era apenas o filme que deu o Globo de Ouro de atriz coadjuvante para Kate Winslet. Mas ontem, com o anúncio de indicados para o Oscar, fui surpreendida com as cinco indicações de O leitor – filme, diretor, roteiro adaptado, fotografia e … atriz. Sim, Kate, que já era favorita antes das indicações, mas por Foi apenas um sonho, de seu marido Sam Mendes, acabou sendo indicada por O leitor… onde ela é tudo, menos coadjuvante.

Para começar, Kate Winslet nem deveria estar neste filme. Daldry queria Nicole Kidman – mas Nicole ficou grávida e Kate assumiu o posto. E não consigo pensar em ninguém melhor que ela para o papel. Longe de ser seu melhor trabalho, mas competente como sempre, a atriz surpreende juntamente com sua personagem. Aliás, o filme é daqueles que, para ser realmente bom, não dá para contar muito a história.

Vamos ao que pode ser dito: Michael (David Kross, quando jovem, e o ótimo Ralph Fiennes, quando mais velho) relembra momentos de sua adolescência e de seu relacionamento com a misteriosa Hanna (Winslet), uma mulher mais velha por quem se apaixona. O romance é interrompido, sem maiores explicações, por Hanna, mas anos depois eles voltam a se encontrar em uma situação inesperada. É quando Michael percebe que a entrada desta mulher em sua vida mudaria sua história para sempre.

Se eu contar mais estrago toda a graça do filme. Mas posso dizer que é uma história ao mesmo tempo forte e delicada, cruel e afetuosa. David Hare adaptou o romance com bastante lirismo. No começo, parece uma história de amor proibida entre um adolescente e uma balzaquiana – com direito a várias cenas de nudez de Kate e do novato David Kross. Mas a partir da metade da história tudo muda, e no final a platéia já se rendeu à trama.

Mas… por que a Kate Winslet merece o Oscar? Não acho que ela está melhor que a Meryl Streep em Dúvida, mas consegue transmitir toda a frieza e doçura da sua personagem apenas com sua expressão facial. Além de ser uma das raras atrizes que não tem vaidade, e fica feia e velha nos filmes sem a menor cerimônia. E se não fosse só isso, mostra, mais uma vez, que é grandiosa, porque ela é, com toda certeza, o nome do filme.

Estreia prevista para 6 de fevereiro.