Os Minions

junho 25, 2015

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Por Janaina Pereira

Aposta para as férias da garotada, a animação Os Minions – em cartaz a partir dessa quinta (25) – traz de volta os simpáticos personagens que fizeram sucesso em Meu Malvado Favorito. Dessa vez, somos levados a conhecer a origem das pequenas criaturas amarelas, ao mesmo tempo em que acompanhamos a evolução dos seres vivos na Terra.  Os pequerruchos tentam servir, sempre da melhor forma, alguém de caráter duvidoso, mas essa jornada é muito maior do que eles podiam imaginar.

O roteiro coloca os fofos bonequinhos amarelos lado a lado com figuras conhecidas da história mundial, como Napoleão Bonaparte. A ideia funciona, até que os protagonistas ficam sem líderes malvados para seguir. É quando Kevin, Bob e Stuart saem em busca de um novo chefe.

Eles vão parar na Nova York dos anos 1960, e lá vivem diversas aventuras até chegarem em Orlando, na Convenção dos Vilões, onde se tornam capangas da maior vilã da época, Scarlet Overkill (voz de Sandra Bullock no original e Adriana Esteves na versão nacional). Graças a Scarlet, os pequenos viajam para Londres e se metem em várias confusões para roubar a coroa da Rainha Elizabeth, grande objetivo da vida da vilã.

É neste trecho que o filme ganha o seu momento mágico: a impecável trilha sonora de rock da década de 60, com direito aos maiores clássicos de Beatles, The Doors, The Who, e outros. Chega a ser inacreditável que a versão nacional tenha optado por Michel Teló como o cantor e compositor do tema do filme em português, diante de uma trilha sonora arrebatadora. Mas há (mal) gosto para tudo.

Na dublagem brasileira, destaque para o ator Vladimir Brichta, que se sai muito bem como o marido de Scarlet, Herb. Sua voz está praticamente irreconhecível, em um ótimo exercício de interpretação. Já Adriana Esteves se esforça, mas não consegue dar a vilania necessária para sua Scarlet Overkill.

No final das contas, Os Minions é um filme infantil, que garante risadas e diversão para a garotada e deixa os adultos encantados com o melhor da cena londrina roqueira. Impossível não comparar com o fenomenal Divertida Mente, já em cartaz e alçado a clássico desde sua estreia avassaladora no Festival de Cannes. Ainda que os pequenos amarelinhos sejam simpáticos e fofos, eles perdem em roteiro para a animação da Pixar.

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Por Janaina Pereira

Quando Steven Spielberg apareceu com seu Jurassic Park – então ainda chamado de Parque dos Dinossauros entre os brasileiros – em 1993, o cinema de entretenimento ganhava uma nova dimensão. A recriação impressionante dos dinossauros, os efeitos especiais inovadores e o roteiro (baseado no livro de Michael Crichton) sobre um parque com aqueles que foram extintos faz tantos séculos … sem dúvida marcaram uma geração. Até hoje é possível ouvir histórias de crianças e adolescentes dos anos 1990 que sonhavam ser paleontólogo. Dois outros filmes se seguiram – em 1997 e 2001 – e só agora um novo longa da franquia está sendo lançado. Para velhos e novos fãs, eis que surge Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros, que estreia nesta quinta (11).

O novo longa é totalmente influenciado pelo primeiro filme, o que por si só já garante a nostalgia dos adultos que forem assisti-lo. Para uma nova geração, será a descoberta (assustadora, mas divertida) de todo o potencial dos dinossauros de Spielberg – agora apenas produtor. A direção ficou com o desconhecido Colin Trevorrow, que apenas dá um ritmo mais acelerado para a repaginada trama.

Com as novas tecnologias, Jurassic World é, à primeira vista, um espetáculo visual de tirar o fôlego. São sequências impressionantes, muita ação, e todos os clichês possíveis: desde o mocinho bronco, mas de bom coração, até a mocinha dondoca, mas pronta para a aventura sem desmanchar a escova. Para conquistar uma nova geração, saem Sam Neil e Laura Dern – o casal protagonista do original de 1993 – e entram Chris Pratt (com visual a la Indiana Jones, já preparando o público para a retomada de outra franquia de sucesso de Spielberg) e Bryce Dallas Howard, que causa comoção no público feminino ao passar boa parte do filme correndo de salto alto e com figurino branco praticamente intocável. Isso sem falar no cabelo que só dá uma bagunçadinha na reta final.

Dito isso, vamos à trama: na ilha Nublar, finalmente o sonhado Parque dos Dinossauros está aberto e é um sucesso. Mas, para manter a atenção do público, é preciso sempre ter novas atrações, e a equipe de geneticistas comandada pelo Dr. Henry Wu ( B.D.Wong) passa a fazer experiências genéticas, criando novas espécies. Um desses ‘novos dinossauros’ é Indominus Rex, que mistura o DNA de vários dinossauros. Desde o princípio Indominus parece ter um instinto mais perverso que os demais, o que leva Simon Masrani (Irrfan Khan), o novo dono do parque, a pedir que Owen Grady (Chris Patt), um ex-militar que reside na ilha e estuda os velociraptors, investigue se o local de exibição do novo dinossauro é seguro.

Grady, que de cara mostra uma relação de amor e ódio com Claire (Bryce Dallas Howard), a chefe de operações do parque, logo percebe que as coisas não estão nada tranquilas por ali, e uma série de situações leva pânico ao local, colocando em risco a vida dos sobrinhos de Claire (Nick Robinson e Ty Simpkins) e de todos os visitantes.

Spoiler: É bem interessante como o filme mostra o instinto predador do ser humano, em cenas em que o público delira ao ver uma das atrações do parque: dinossauros fazendo suas refeições – é, comendo os animais. Mas legal mesmo são as cenas que resgatam o primeiro filme, com o famoso jipe e até o logo do Jurassic Park em destaque. Ou quando nos deparamos com o dinossauro-mor dos longas anteriores, T-Rex, tentando salvar o território e mostrando quem é que manda naquele parque.

No final das contas, Jurassic World é uma grande aventura bem no estilo de Steven Spielberg, que soube usar os melhores recursos para fazer um filme ainda mais eletrizante do que o original. Então se você esquecer os clichês, vai se divertir como se fosse a primeira vez nesse parque.

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por Janaina Pereira

Pense num filme sensível, que fale sobre o primeiro amor. Mas não é um primeiro amor qualquer: o protagonista é cego, nunca beijou uma menina e se depara com um sentimento profundo por um menino que acaba de chegar ao seu colégio. Os detalhes poderiam fazer de Hoje eu quero voltar sozinho , estreia desta quinta, dia 10, mais um filme sobre adolescentes, ou mais uma história de amor entre meninos, mas não é nada disso. O primeiro longa-metragem de Daniel Ribeiro (que também assina o roteiro) é, na verdade, uma história de amor tão comum que qualquer um de nós poderia ter vivido – e escrita de modo tão inteligente que torna o filme um dos grandes destaques do cinema nacional recente.

O filme nasceu do premiado curta de nome parecido –  Eu não quero voltar sozinho – onde Ribeiro já explorava o universo adolescente, e apresentava Leonardo (Ghilherme Lobo), o protagonista, e seus amigos Giovana (Tess Amorim) e Gabriel (Fabio Audi). No longa, Leonardo, adolescente cego que está em busca de seu lugar, planeja libertar-se do cotidiano fazendo uma viagem de intercâmbio. Ele quer ser mais independente, mas precisa lidar com a superproteção da mãe. A notícia cai como uma bomba no colo de sua inseparável melhor amiga, Giovana, mas a chegada de Gabriel, um novo aluno na escola, desperta sentimentos até então desconhecidos em Leonardo.

Diante de uma história simples, o roteiro de Daniel Ribeiro explora as emoções e sensações dos personagens. Desde a dança desengonçada de Leonardo às birras de Giovana com a amizade de Leo e Gabriel, tudo flui numa leveza que conquista de imediato o espectador. Nem mesmo as cenas de bullying (Leonardo é o único cego em seu colégio, e volta e meia um grupo de meninos implica com ele) querem dar lição de moral nas pessoas. O filme não foi feito com esta intenção – definitivamente o que vemos na tela é algo para nos identificarmos, sem o intuito de chocar ninguém. Ser cego e gay não é o que faz do protagonista um personagem que nos chame atenção – é o amor que ele tem pela vida, é a busca pela liberdade e realização de sonhos que movem seu universo. Vale a pena ressaltar que o ator Ghilherme Lobo não é cego, portanto sua interpretação absolutamente convincente é um grande destaque do filme.

A direção minimalista de Ribeiro coloca poesia em algumas cenas fundamentais – como os momentos em que Gabriel trata Leonardo como se ele enxergasse tudo, ou quando os dois vão ao cinema. A naturalidade como isso é apresentado, sem choques para ambos os personagens, fascina. E se eu contar mais vou estragar o melhor de Eu não quero voltar sozinho: o filme surpreende a cada cena, e a sensação que temos quando ele acaba é uma saudade imensa da adolescência e de como era legal viver aquelas emoções.

Vencedor de dois prêmios no Festival de Berlim deste ano – melhor filme da mostra Panorama, pela Fipresci (Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica) e prêmio Teddy de melhor filme com temática ou personagens LGBTs –  Hoje eu quero voltar sozinho também foi o segundo filme preferido do público do festival pelo voto popular. A boa repercussão contribuiu para que o filme seja distribuído para 14 países, incluindo Estados Unidos, França, Alemanha, Itália e Reino Unido. Agora é esperar que o Brasil corresponda, e prestigie o talento não só do diretor e roteirista, como de toda a equipe do filme. Afinal, a produção cinematográfica brasileira merece novos caminhos e Daniel Ribeiro e companhia encontraram um ótimo rumo: o do cinema sem exageros, onde a sensibilidade e a delicadeza falam mais alto.

Rivalidades no Oscar 2014

fevereiro 28, 2014

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Por Janaina Pereira

 

Mais uma edição do Oscar acontece no próximo dia 2, e alguns duelos entre os indicados estão sendo muito aguardados. Como o ano passado teve uma boa safra de produções, está difícil saber quem vai vencer em algumas categorias. É o caso dos indicados a melhor filme, onde 12 anos de Escravidão e Gravidade concorrem com igualdade de condições, sendo seguidos de perto por Trapaça. Os diretores destes filmes, concorrentes entre si também em sua respectiva categoria, também travam um bom duelo. Embora David O. Russel – diretor de Trapaça – corra por fora na disputa, quando se trata de Oscar tudo é possível. Mas, aqui, o favorito parece mesmo ser Alfonso Cuáron, que pode levar o prêmio de diretor mas ver o seu Gravidade não ganhar como melhor filme. Assim como o inglês Steve McQueen pode não se tornar o primeiro negro a ganhar o prêmio de diretor, mas pode vencer com seu filme 12 anos de Escravidão. Ou vice-versa. Nesta rivalidade, o mais difícil parece ser uma vitória dupla – para filme e diretor. A tendência é a Academia de Hollywood amenizar a disputa dando um prêmio para cada um.

Entre os atores uma das mais fortes rivalidades coloca de um lado Leonardo Di Caprio e do outro Matthew McConaughey. Embora McConaughey seja o favorito por seu desempenho em Clube de Compras Dallas, cresce uma corrente que acha que Di Caprio (indicado por O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese) já passou da hora de vencer – o ator soma quatro indicações, sem contar as várias ‘não indicações’ ao longo dos anos. Muitos críticos de cinema apontam uma certa perseguição da Academia com Leo, mas até o público entrou nessa briga, lançando vários ‘memes’ em que Leonardo Di Caprio aparece como injustiçado por não ter a estatueta dourada.

Na categoria ator coadjuvante a disputa está entre Jared Leto (por Clube de Compras Dallas) e Michael Fassbender (por 12 anos de Escravidão). Até o final do ano passado, a atuação de Fassbender era apontada como uma das melhores dos últimos tempos no cinema. Porém, Leto parece ter arrebatado a crítica com seu transexual vítima da Aids, e vem conquistando todos os prêmios da temporada.

Entre as mulheres, algumas curiosidades: ninguém deve tirar o Oscar das mãos de Cate Blanchett. Uma rara unanimidade por sua atuação em Blue Jasmine, de Woody Allen, Cate deve levar sua segunda estatueta para casa – ela ganhou como coadjuvante por O Aviador (2004), de Martin Scorsese. Porém, a loira deve ficar atenta à sua maior rival – ninguém menos que Judi Dench, que contracenou com Cate em Notas sobre um Escândalo, que, aliás, rendeu indicação as duas no ano de 2007 – Judi como atriz, Cate como coadjuvante.

Outro fato curioso é o duelo velado de duas das maiores estrelas do cinema americano: Julia Roberts e Sandra Bullock. Julia já era famosa quando Sandra apareceu na telona e a crítica começou a comparar o trabalho de ambas. Na época, Julia Roberts alegou que Sandra não podia ser “uma nova Julia” porque era mais velha que ela. As atrizes sempre foram campeãs de bilheteria mas demoraram a ter seu lugar ao sol no Oscar. Julia ganhou em 2001 por Erin Brockovich e Sandra levou a melhor em 2011 por Um Sonho Possível (depois de 20 anos de carreira e em sua primeira indicação). A crítica sempre apostou que elas nunca mais seriam indicadas. E este ano lá estão elas de volta, só que em categorias diferentes: Sandra concorre como atriz por Gravidade e Julia como coadjuvante por Álbum de Família.

A rivalidade mais acirrada, porém, é entre as atrizes coadjuvantes. A estreante Lupita Nyong’o, 30 anos, disputa palmo a palmo o Oscar com a ‘veterana’ Jennifer Lawrence, 23 anos. Lupita é a revelação de 12 anos de Escravidão, e tem a seu favor um filme forte e muito bem cotado nas premiações. Porém, Jennifer, que faz uma alcóolatra em Trapaça, é a queridinha do cinema americano, e já está em sua terceira indicação – e não podemos esquecer que o Oscar de melhor atriz do ano passado foi dela. Elas dividem os holofotes nesta temporada de premiações: ora uma ganha um prêmio aqui, ora a outra ganha ali. Façam suas apostas.

12 anos de Escravidão

fevereiro 18, 2014

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por Janaina Pereira

 

Steve McQueen é um dos melhores cineastas da atualidade. No entanto, o inglês, homônimo do falecido ator americano, não é conhecido do ‘grande público’ no Brasil. Seus dois primeiros filmes – Hunger e Shame – foram exibidos em festivais de cinema (Cannes e Veneza, respectivamente) com muito sucesso, e lançaram aos olhos do mundo o ator alemão Michael Fassbender. Com uma história real americana, McQueen vem chamando a atenção do público e da crítica e parece que, finalmente, será reconhecido também em solo tupiniquim. Porque 12 anos de Escravidão (12 years a Slave), seu novo filme que estreia nesta sexta, 21, é uma das melhores produções dos últimos tempos.

Baseado no livro homônimo de Solomon Northup, o longa conta a história do próprio Solomon (interpretado de forma ímpar por Chiwetel Ejiofor, de Coisas Belas e Sujas), violinista negro e alforriado em Saratoga, Estado de Nova York. Em 1841 ele foi sequestrado em Washington e vendido como escravo na Louisiana. Acompanhamos sua saga ao longo de 12 anos, quando passa por alguns senhores de escravo até chegar às mãos do cruel Epps (o sempre brilhante Michael Fassbender, de Shame), que açoita os escravos sem dó nem piedade.

Em sua sangrenta jornada, Solomon tenta esconder que sabe ler e escrever, para que sua formação não lhe custe a própria vida. Ele vê negros morrendo por nada, e tenta compreender o porquê da escravidão. Ainda assim, se mantém aparentemente passivo diante dos constantes abusos físicos que Patsey (a estreante Lupita Nyong’o) sofre de Epps, e a forma como isso vira agressão pelas mãos da esposa do senhor de escravos (Sarah Paulson, de Amor Bandido). 

A passividade, porém, é puro instinto de sobrevivência. Não reagir com o corpo é corroer a alma e expressar no olhar. E aí entra a força da interpretação de Chiwetel Ejiofor – desde já uma das mais marcantes da história do cinema. Enquanto no dia-a-dia ele parece aceitar aquela vida injusta, seus olhos dizem outra coisa.  O desespero, o pavor e o pedido de socorro que são vistos claramente no olhar de Solomon/ Ejiofor fazem o espectador querer entrar na tela para salvá-lo. Reparem na cena do enterro de um escravo, onde Solomon canta e parece colocar para fora, pela primeira vez, a sua dor, expressa pelas palavras da música, e não apenas pelo olhar.  

No ótimo elenco que tem nomes como Benedict Cumberbatch (Star Trek Além da Escuridão), Paul Giamatti (Tudo pelo Poder), Paul Dano (Os Suspeitos) e (o também produtor do longa) Brad Pitt (Guerra Mundial Z),  Michael Fassbender (parceiro de McQueen em todos os seus filmes) mais uma vez mostra porque é um dos melhores atores do mundo, e dá ao público outra atuação visceral e memorável. Já a revelação Lupita Nyong’o aparece o suficiente para garantir seu (merecido) Oscar de coadjuvante – o longa foi indicado em nove categorias, entre elas melhor filme, diretor, ator (Ejiofor) e ator coadjuvante (Fassbender). 

Destacam-se também a trilha sonora de Hans Zimmer, a fotografia, o roteiro no ritmo certo e a direção impecável de Steve McQueen. 

Muito se fala que 12 anos de Escravidão é um filme violento, uma espécie de Paixão de Cristo (filme de Mel Gibson) dos escravos. Discordo. A produção traz à tona uma história real sobre sequestro de escravos livres, algo que eu – e a maioria da humanidade – sequer imaginava que um dia tivesse acontecido. A violência de fato está lá – e sabemos que isso foi real – e vem num crescente, explodindo na cena em que Epps resolve castigar Patsey, já na parte final do filme.  Não há nada de desnecessário ou abusivo nas cenas de sangue e lágrimas: McQueen apenas mostra corajosamente o que de fato aconteceu. 

Perdendo terreno na corrida para o Oscar para Gravidade e Trapaça, é de se espantar que alguém ainda tenha dúvidas de que 12 anos de Escravidão é o filme do ano. O tema é árido, existem cenas difíceis, mas diante de uma humanidade que insiste na discriminação – de negros, mulheres, homossexuais, judeus, idosos – este é o filme mais importante produzido nos últimos anos.  

Se você tiver que escolher um filme, um único filme para assistir, veja 12 anos de Escravidão. Você vai ficar emocionalmente abalado, pode até chorar e ficar angustiado, mas ele é necessário para o mundo em que vivemos. E se eu puder descrevê-lo em uma palavra, digo a vocês que 12 anos de Escravidão é devastador.

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por Janaina Pereira

O italiano Paolo Sorrentino, diretor dos premiados Il Divo (2008) e Aqui é o meu lugar (2011), viveu dias intensos no começo de outubro, no Rio de Janeiro. Convidado a participar do Festival do Rio, onde seu filme A Grande Beleza (La grande bellezza) foi apresentado, o diretor também filmou na Cidade Maravilhosa um dos episódios do filme Rio, Eu te Amo, previsto para estrear em 2014. Durante o Festival, Sorrentino participou de um debate após a première do longa, que é o candidato apresentado pela Itália para concorrer a uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar. A Grande Beleza foi exibido em Cannes este ano com muito sucesso, mas não levou nenhum prêmio. No Festival do Rio, teve salas lotadas em todas as suas exibições, e foi apontado como um dos melhores do evento. Sua estreia em circuito – São Paulo, Rio e Brasília – acontece nesta sexta, 20.

Já o longa metragem em episódios Rio, Eu te Amo foi rodado por Sorrentino na praia carioca de Grumari. Ele participa do filme ao lado de outros diretores estrangeiros, como a libanesa Nadine Labaki e o mexicano Guillermo Arriaga, e os brasileiros Fernando Meirelles, José Padilha e Andrucha Waddington. O filme faz parte da franquia Cities of Love, que já exibiu Paris, Eu te Amo e Nova York, Eu te Amo.

Aos 43 anos, sendo 20 deles dedicados à sétima arte, o cineasta é considerado um dos mais importantes cineastas da nova geração do cinema italiano. Durante o Festival do Rio, ele conversou com um pequeno grupo de jornalistas, onde estávamos presente. Na entrevista, o diretor fala da atual produção de seu país, das comparações que A Grande Beleza recebeu com A Doce Vida de Fellini e da experiência de filmar no Rio de Janeiro.

A Grande Beleza é o representante italiano à indicação para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Como recebeu a notícia?
Paolo Sorrentino – Estou feliz e honrado. Mas, para nós, europeus, o Oscar é uma premiação que sempre parece um pouco distante. Sabemos que, na verdade, não passa de um jogo. Um grande jogo.

O cinema italiano está em uma boa fase, e tem recebido premiações em muitos festivais pelo mundo. O que o senhor acha disso?
PS – A Itália teve um passado cinematográfico com grandes gênios. Isso, para os diretores das novas gerações, é complicado, porque gera uma cobrança desnecessária em relação ao nosso trabalho. A premiação é importante para dar visibilidade a esta geração.

Em A Grande Beleza, os personagens parecem amar e odiar Roma ao mesmo tempo. Você, como napolitano, também tem este sentimento?
PS – Acho que esse é um sentimento controverso e que todas as pessoas em todas as grandes cidades do mundo podem entender. Toda metrópole tem atrações e problemas. Mas para mim, em particular, é fácil viver em Roma e eu realmente amo a cidade, com todos os seus encantos e defeitos.

E a atmosfera de sonho e decadência da sociedade romana que permeia todo o filme?
PS – Alguns personagens foram, de fato, inspirados em pessoas reais, mas a ideia era fazer um painel de Roma e sua fauna noturna como um todo. É uma mistura de sonho com realidade. O filme foi pensado assim, porque Roma pode ser uma cidade dos sonhos, com suas belezas e sensações, mas também com algo de falso; por isso, essa atmosfera de sonho.

A crítica o tem comparado ao filme a A Doce Vida de Federico Fellini.
PS – Sim, é verdade que ambos falam do mesmo tema, mas têm estilos diferentes. E, definitivamente, eu não sou Fellini.

Como surgiu o convite para participar do longa Rio, Eu te amo?
PS – O convite surgiu de um dos produtores, que me falou sobre o filme e perguntou se eu estaria interessado em participar.

Como é o episódio que o senhor dirige?
PS – Meu episódio fala sobre um casal de turistas americanos: a atriz inglesa Emily Mortimer e o americano Basil Hoffman, que está vivendo uma relação muito complicada. Eles se odeiam, vêm ao Rio e o marido resolve envolver a esposa em algo bastante perigoso. Filmamos durante dois dias em uma praia e já comecei a montagem. É uma história que não daria para ser um longa-metragem, então acho que, como curta, dentro de um filme sobre a cidade do Rio, é o ideal.

A Grande Beleza

novembro 6, 2013

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por Janaina Pereira

Roma é uma das cidades que mais amo neste mundo. Mas, quando estive lá, saí com a sensação de que não teria condições emocionais de voltar tão cedo. A cidade me absorveu por completo, me deixou esgotada com seu caos e beleza. Era tanta igreja, praça, museus, fontes, histórias … parecia que eu estava dentro de um livro. Eu me sentia, finalmente, fazendo parte da história do mundo. Ao mesmo tempo, Roma me sufocou não só pelo verão escaldante, mas pelos seus excessos. De informação, de situações, de romantismo, de felicidade, de coisas que vivi em suas ruas e que nunca mais terei de volta. E é exatamente essa sensação de ter tudo e não ter nada que o filme A Grande Beleza (La Grande Bellezza), de Paolo Sorrentino (Aqui é o meu lugar), mostra com precisão. O longa, indicado italiano a uma vaga na categoria filme estrangeiro do Oscar 2014, será exibido na 9ª edição do Festival Pirelli de Cinema Italiano, em São Paulo, de 29 de novembro a 5 de dezembro. A estreia em circuito nacional está prevista para dezembro.

Logo nos primeiros minutos do filme vemos uma grande festa para comemorar os 65 anos de Jep Gambardella (Toni Servillo). Ele é um escritor napolitano que mora em Roma, um tipo sarcástico que vive cercado de pessoas consideradas influentes. Mas Jep, na verdade, escreveu um livro que fez muito sucesso – e vive da fama desde então. Entrevista supostas celebridades aqui e ali, e não explica para ninguém o porquê de não ter escrito outro livro. Sua casa é o ponto de encontro de intelectuais e artistas, a ‘nata’ romana. Sob o ponto de vista de Jep, a trama se desenvolve mostrando um mundo de pessoas vazias; a aparência que sempre engana; o que parece ser, mas não é.

Há de tudo um pouco: Jep descobrindo que não quer mais sexo casual; tentando reviver sentimentos de afeto com a ajuda de uma stripper quarentona (um dos momentos mais sensíveis do filme); observando o culto à beleza nos dias de hoje (na ótima cena sobre o que as pessoas fazem para se manterem jovens e bonitas); destruindo verbalmente uma amiga que posa de superior aos outros; e sonhando com um amor do passado, a mulher que o largou sem dizer o porquê, e que, talvez, tenha feito ele perder um pouco da fé na humanidade. A fé, aliás, é um dos destaques no trecho final do filme, na impecável cena do jantar com o cardeal que um dia será Papa, onde Jep questiona a espiritualidade daqueles que supostamente vivem pela fé. E é justamente no julgamento sobre a fé que Jep revela o motivo de não escrever mais livros, algo que justifica todo o seu olhar cínico e irônico para o mundo.

No meio de tantas reflexões, Roma aparece como um personagem importante e, se transportarmos as situações para as metrópoles mundo a fora, facilmente conseguiremos nos identificar. A cena em que um dos amigos de Jep, depois de finalmente conseguir sucesso no teatro, resolve ir embora da cidade – argumentando que Roma o decepcionou – mostra o quanto as contradições das metrópoles se fazem cada vez mais presente: às vezes estas cidades nos dão exatamente o que queremos, e aí descobrimos que nada daquilo valeu a pena.

A Grande Beleza tem roteiro de Paolo Sorrentino e Umberto Contarello, em que as imagens de Roma são pontuadas por uma ótima trilha sonora (com música de Lele Marchitelli) e pela elaborada edição de som da brasileira Silvia Moraes. Para contrapor a superficialidade das pessoas, cores vivas no figurino do protagonista, criado por Daniela Ciancio, e sequências cheias de intensidade, na montagem de Cristiano Travaglioli. O longa conta também com a atuação brilhante de um dos maiores atores italianos, Toni Servillo (A bela que dorme) e a direção impecável de Sorrentino, que faz de Roma um personagem tão marcante quanto Jep Gambardella. Ainda que não tenha sido lembrado com o carinho que merece no Festival de Cannes deste ano, o filme foi exibido com sucesso no Festival do Rio, e é, sem dúvida, um dos melhores do ano.

No final da história, fica a pergunta: onde está a grande beleza da vida? Num mundo de contradições, onde o que é bonito para uns pode ser horrível para outros, de repente essa beleza nem existe mais. Por isso não se espante se sair do cinema com uma sensação de tristeza e melancolia, porque talvez seja exatamente isto que o mundo de hoje tem para nos oferecer.

Thor: O Mundo Sombrio

novembro 1, 2013

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Por Pedro Costa de Biasi

O impacto de Os Vingadores na franquia da Marvel nos cinemas foi tão fulminante que gerou um modelo de sucesso. Por mais que Homem de Ferrofosse construído sobre o humor de Robert Downey Jr., foi só com a reunião dos super-heróis que certa veia cômica foi explorada a contento, como proposta fundamental do filme. O primeiro Thor deu passos tímidos nessa direção, mas sua (ocasional) graça residia praticamente na exploração de uma piada única, sem a disposição anárquica de transformar qualquer tipo de cena ou personagem em fonte de comédia. Eis que Thor: O Mundo Sombrio, que estreou nesta sexta, 1, explora suas possibilidades de diversão não apenas nesse quesito, mas também em outro aspecto muito mais lúdico. 

A história começa com um prólogo que não poderia ser mais esquemático, mas certamente poderia ter saído mais destrambelhado. Milênios atrás, Malekith (Christopher Eccleston), um Elfo Negro do mundo de Svartalfheim, tentou usar uma substância chamada Éter para cobrir todo o universo com a escuridão. Após ser derrotado, ele foge, e sua arma é levada pelos Asgardianos, que a enterram no lugar mais profundo e seguro possível. Nos dias atuais, Thor (Chris Hemsworth) está tentando retomar a paz nos nove mundos após os eventos deOs Vingadores, enquanto Jane Foster (Natalie Portman) identifica, na Terra, uma anomalia inexplicável que cria portais para outras dimensões. Quando uma dessas fendas no espaço desperta o Éter e, com ele, os Elfos Negros, o Deus do Trovão precisa impedir os avanços de Malekith para proteger todos os mundos. O problema é que, para isso, ele precisará da ajuda de Loki (Tom Hiddleston), que é prisioneiro em Asgard pelo que fez na Terra. 

De início, é importante tirar algo do caminho: O Mundo Sombrio do título pode fazer sentido dentro da trama, mas em questão de tom, o filme é muito diferente do que os cartazes podem indicar. Não é por acaso que Joss Whedon teve uma participação (limitada e relativamente sorrateira) no roteiro. Não é difícil adivinhar quais cenas tiveram seu dedo, já que alguns dos diálogos têm seu característico humor desavergonhado. Mas a verdade é que, salvo o primeiro terço, mais ou menos, de projeção, o filme é repleto de piadas e brincadeiras espirituosas. Se os esforços cômicos de Thor se limitavam a explorar o protagonista como peixe fora d’água, e todo o resto era solenidade exacerbada, a sequência certamente capitaliza na fórmula de Os Vingadores e se vale da comédia em todo tipo de situação, passando a bem-vinda sensação de uma aventura despreocupada. 

Nem sempre essa proposta é bem manuseada, e o elemento que causa os piores resultados é a pavorosa montagem de Dan Lebental e Wyatt Smith. O primeiro filme foi drenado pela forçada seriedade da apresentação de sua mitologia, mas, aqui, a falta de cuidado com os momentos devidamente dramáticos beira o lamentável. Quando alguém apontou que a continuação deveria equilibrar humor e drama, essa pessoa certamente não quis dizer que os editores deveriam enganchar uma cena cômica (e fácil de realocar em vários outros momentos da narrativa) logo atrás do momento mais trágico da franquia até então. A desastrosa piada é com Erik Selvig (Stellan Skarsgard), que curiosamente protagoniza outra escolha bizarra da edição: em um lapso inexplicável, o noticiário em que ele aparece é exibido duas vezes. 

Embora a montagem seja o principal desastre da narrativa, o roteiro de Christopher Markus, Christopher Yost e Stephen McFeely não usufrui de uma unidade louvável. No quesito personagens, Odin (Anthony Hopkins) realmente incomoda por receber a função limitada de emperrar as ações de Thor através de acessos avulsos de teimosia e estreiteza de pensamento. Jane também não tem uma profundidade cativante, apenas a graça que seus clichês lhe permitem. Já os colegas guerreiros de Thor recebem exatamente tanta atenção quanto deveriam, e se tornam meras ferramentas da ação. Loki, por sua vez, ganha bastante estofo por sua qualidade temerária, de alguém que não tem mais nada a perder, mas também por ter ótimas oportunidades de exercitar seu sarcasmo. Aliás, é curioso como ele foi tratado de forma sardônica quando era vilão, ao passo que Malekith não tem um momento sequer como figura ridícula ou cômica. Este antagonista sério é mais uma intrigante variação em uma fauna de personagens tão diversos que é difícil vê-los como parte do mesmo filme. 

Pelo menos essa disposição à variedade rende um clímax fabuloso. Trata-se do maior (mas não único) arroubo lúdico do filme, superando os constantes gracejos e tiradas verbais. A batalha final tem muito a ver com a de Homem de Ferro 3, na medida em que ambas se assemelham à cena inicial de Toy Story 3. O filme realmente se dá a permissão de assumir a tendência infantil de boa parte dos filmes de super-herói. Assistir a Thor arrebentar inimigos através de portais espaciais imprevisíveis não é muito diferente de ver Andy criando histórias nonsense com seus brinquedos. Deliciosamente tragado por seu universo fantasioso, o novo Thor aproveita seu orçamento como uma criança com bonequinhos de heróis e vilões aproveita sua imaginação, e o resultado é contagiante. 

Os roteiristas também se abstêm de responsabilidades restritivas de outras formas. Quando o assunto são as teorias quânticas de Jane, os diálogos são vagos, para dizer o mínimo. Uma postura totalmente válida para uma pseudociência tão disparatada. Já nos casos em que um ou outro elemento de fato precisam de uma explicação vagabunda qualquer, os diálogos expositivos são distribuídos por outras cenas, quase como se os realizadores acreditassem nas capacidades dos espectadores. Quem acompanha a produção de Hollywood sabe que não é uma pequena conquista. Além disso, o diretor Alan Taylor, que já deita e rola nas variações tresloucadas da narrativa, também não se restringe no quesito visual. Este é sem dúvida o filme mais bonito da Marvel, com tratamentos de cor variados e uma direção de arte decidida em suas escolhas estrambóticas. 

O que torna Thor: O Mundo Sombrio um bom programa não é sua regularidade ou o domínio das técnicas – estas qualidades com certeza faltam –, mas sua predisposição à diversão. É um pouco exagerado dizer que uma aventura despreocupada como essa é uma ousadia na Hollywood de hoje em dia, já que outro filme recente teve resultados ainda mais saborosos. Mas, ondeCírculo de Fogo aliou a experiência lúdica com o espetáculo grandiloquente que só o cinema pode oferecer, Thor manteve a escala relativamente modesta e deixou a imaginação acrescentar elementos e misturá-los ao sabor do entretenimento.

O Conselheiro do Crime

outubro 26, 2013

conselheiro

Por Pedro Costa de Biasi

É inevitável que todo filme carregue diversas facetas dentro de si. Alguns dobram essas características diversas em sua história, sejam elas patentes ou ocultas. O Conselheiro do Crime, que estreou nesta sexta, 25, é um caso curioso, em que vários filmes diferentes coabitam nem sempre em harmonia. Há uma quantidade considerável de tramas e personagens, que se desenvolvem em cenas que não poderiam ser mais distintas umas das outras. É difícil determinar se tudo é calculado, mas, de uma maneira ou de outra, há instantes tão instigantes e potentes que a coerência do todo ganha outra relevância. 

O Conselheiro do título é um advogado chamado apenas de Doutor (Michael Fassbender), que está em um apaixonado relacionamento com Laura (Penélope Cruz). Ele decide se arriscar em uma passagem pelo crime, idealizada como breve, junto de seu amigo Reiner (Javier Bardem), já experiente no submundo das drogas. Ele ajudará a transportar um grande carregamento de cocaína, mas nunca de forma direta, apenas através do filho de sua cliente. Embora pareça uma empreitada rotineira e sem grandes riscos, o advogado descobre gradualmente qual o nível de seu envolvimento quando a situação começa a fugir de controle. 

Não é surpresa que o gênero do filme ondule pelo romance, pelo drama e pelo thriller criminal. Interessante, mesmo, é como o roteiro de Cormac McCarthy se apresenta como uma tragédia antes de outra perspectiva, sub-reptícia, ser denunciada. É verdade que a chave para essa trama paralela é a omissão de detalhes da história, mas há simbologias e sinais (não tão sutis) espalhados pela narrativa que apontam obliquamente para o jogo que de fato está sendo jogado. Justo; essa reviravolta acontece à revelia do protagonista e de seus próximos, e McCarthy usa as informações como iscas para pescar o espectador, emparelhando o que este e os personagens sabem. 

A palavra é “pescar”, mesmo, como na frieza do esporte, e não como no eufemismo glamourizado do “fisgar”. Não é exagero dizer que dar de cara com o desfecho do imbróglio é uma experiência semelhante à do peixe que é içado água afora, indefeso e sem ar. Este é um filme em que a brutalidade caminha a passos que aparentam erráticos, variando da angustiante violência gráfica à horripilante sugestão. Claro que, nessa caminhada irregular, há desvios e paradas que desviam do curso. É difícil, por exemplo, reconhecer o mérito de toda a “subtrama” do caminhão que carrega as drogas. É como se essa ilustração em cenas evitasse diálogos expositivos para compensar a tendência do filme à digressão verbal. 

No entanto, essa destroncada história – pontuada por uma amostra prematura dos horrendos métodos de violência em operação no submundo do tráfico – não tem como função principal explanar a história, mas sim atestar a distância do protagonista em relação a seu ato. O roteiro não liga o desastre no transporte das drogas ao Doutor através de minucioso rastreamento, mas de forma direta, numa única linha. As forças que operam por detrás do cenário são seres oniscientes, capazes de encontrar quaisquer informações e, é claro, agir de forma implacável para atingir todos os envolvidos. 

Não há elegância em qualquer aspecto da trama; as pontas não se juntam de forma intrincada e cuidadosamente confeccionada, mas como decorrência inevitável de um deus castigador atento para suas criaturas desviantes. É verdade que nem todos esses chefões manipuladores estão totalmente ocultos, mas mesmo quando um deles se mostra, é como uma figura não dilapidada, cheia de arestas – morais, comportamentais, procedimentais – e desconstruída em suas idiossincrasias mais gratuitas. Não por acaso, uma de suas cenas é a mais cômica num filme quase destituído de graça. Também há de se especular se a estranha e estilizada trilha sonora de Daniel Pemberton não foi criada em cima dessa personagem, assim como a fotografia de Dariusz Wolski, de uma beleza inusitada para um filme tão cru. 

Falando em elementos centrífugos, é importante voltar aos monólogos nos quais McCarthy tanto se esmera. Todos são relacionados a algum aspecto da criminalidade, mas os resultados são irregulares e não raro esbarram na gratuidade. O roteirista também não resiste a incluir cenas inteiras dedicadas a amostras sobressalentes de cinismo – com destaque para a horrível cena com John Leguizamo. Toda a história converge para a mesma realidade desumana, e este tipo de excesso, ao contrário dos já citados, soa mais como indulgência solta do que como resíduo da narrativa. No entanto, em uma das mais intensas cenas de Fassbender, seu personagem recebe um conselho por telefone, uma exaustiva, mas fútil exploração moral de suas escolhas. O solilóquio, que poderia ser um caso de “dourar a pílula”, se eleva do puro preciosismo por representar, em seu âmago, uma mensagem que é o puro embelezamento da inevitabilidade e do terrível conformismo. 

O fato é que o filme carrega fortes dissonâncias – enaltecidas frontalmente pelo elenco e pelo diretor Ridley Scott –, mas elas quase sempre têm sua razão de ser. Na história, a situação só fica fora de controle quando esse controle é substituído por outro. Neste sentido, curiosamente, o longa aproxima-se do oposto do cinema dos irmãos Coen – que já filmaram um texto de McCarthy com belos resultados. Há sempre alguém no controle de tudo, seja das mercadorias ou das vidas dos envolvidos. Que o resultado final da obra beire o caótico e o errático é um testamento para as reais intenções por trás do roteiro. O tema principal é o domínio, incluindo aí o caos controlado e as formas brutais e grosseiras como determinada ordem é reassegurada. Frustrar-se com a desordem de O Conselheiro do Crime é apenas reflexo natural de se esperar dominar com uma só corrente um cão de três cabeças.

O Conselheiro do Crime

outubro 26, 2013

conselheiro

por Janaina Pereira

Michael Fassbender, Javier Barden, Penélope Cruz, Brad Pitt e Cameron Diaz. Com um elenco deste, mesmo se quisesse e fizesse um esforço danado, Ridley Scott não tinha como fazer um filme ruim. E de fato seu novo filme, O Conselheiro do Crime (The Counselor), que chegou aos cinemas sexta, 25, e é estrelado por esta constelação, está longe de ser horrível, mas também é a prova de que grande elenco nem sempre é sinônimo de grande filme.

O roteiro original é do consagrado escritor Cormac McCarthy, autor do livro Onde os fracos não tem vez, que foi adaptado pelos irmãos Coen para o cinema. Como roteirista, McCarthy resolve fazer uma trama de aparência complexa mas que, ao ser desvendada, mostra-se muito simples. Michael Fassbender vive um advogado sem nome (a legenda o identifica como “doutor”,que é a forma como chamamos, no Brasil, os profissionais do direito, mas na verdade ele é o ‘counselor’ do título original), apaixonado por sua noiva (Penélope Cruz). Ao se envolver num esquema de transporte de drogas, com a ajuda de dois criminosos experientes (Javier Bardem e Brad Pitt), ele coloca em risco a sua vida e de sua noiva.

Fassbender, como sempre, tem boa atuação, especialmente nas cenas com Bardem e Pitt. Penélope Cruz, no entanto, é apenas enfeite; sua personagem tem uma única função e não exige maiores esforços da atriz. Já Cameron Diaz, a misteriosa namorada de Javier Bardem na trama, é quem manda e desmanda em cena, mostrando versatilidade na interpretação de uma vilã dissimulada. Sem dúvida a melhor e mais bem construída personagem do roteiro intrincado de Cormac McCarthy.

Ainda que não seja um grande filme, O Conselheiro do Crime pode ser uma boa distração para quem não for muito exigente.

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