Estamos Juntos
junho 2, 2011
por Pedro Costa de Biasi
O paulistano frio, focado em seu trabalho, distante: Estamos Juntos pretende problematizar essa figura do lugar-comum. Não em um nível externo, mas puramente interno, criando conflitos para alterar o ângulo pelo qual Carmem (Leandra Leal) pode ser observada.
Vinda de uma cidade do interior do Rio de Janeiro, ela está se empenhando em sua carreira de médica. Desacostumada a sair e encontrar pessoas, negando até a companhia do amigo gay Murilo (Cauã Reymond), ela vive para seu trabalho. A pessoa que mais vê é o homem com quem mora (Lee Taylor). Apesar de resistir, ela começa a viver mudanças: o envolvimento com Juan (Nazareno Casero), o trabalho voluntário em uma comunidade de Sem-Teto e um mal-estar cada vez mais frequente que a faz suspeitar de uma doença séria.
Como dito, o interesse do diretor Toni Venturi não é propor uma reflexão sobre a insensibilidade paulistana ou com a natureza desse estereótipo. A razão das rupturas que atingem Carmem é de ordem causal e dramatúrgica. E, por mais que haja doses de pieguice ao largo dessa dramaturgia, muitas das boas escolhas de Venturi e do roteirista Hilton Lacerda também se constroem na mais básica interação entre os atores.
Há naturalidade dos diálogos e nas cenas, uma qualidade da encenação que cineastas brasileiros frequentemente erram. Sem os gaguejos de uma espontaneidade forçada e sem a entoação mecânica das falas, mas também longe de comprometer o entendimento, o contato entre os personagens ganha firmeza por soar tão verdadeiro. Até mesmo em instantes menos singelos, como a briga de Carmem com Murilo e a discussão com Juan, Reymond e Casero passam a franca insegurança da surpresa.
Venturi é menos feliz em sua proposta visual. Esbarrando em recursos pobres de instabilidade imagética, como planos-detalhe movimentados e irregularidades no foco, ele é vítima dos mesmos vícios do “Cinema-visceral” que atrapalharam Feliz Natal, embora, felizmente, não tenha cometido tamanhos excessos. A variação dessa filmagem derivativa para tomadas mais clássicas, algumas bem elegantes, chama a atenção.
Isto porque , desde o começo mas com intensidade crescente ao longo da projeção, sua falta de enfoque vai se escancarando. Os temas não se somam a um todo, e criam uma justaposição irregular de discursos políticos, sociais, culturais e até mesmo estéticos. O movimento dos Sem-Teto é apenas uma das atividades de Carmem, e se mistura com outras partículas de rotina como as conversas misteriosas com o personagem de Taylor e os encontros com Juan. A trama é sobre abertura afetiva, relações domésticas, tensões sociais e estereótipos sociais.
O único eixo é a protagonista, e chega a ser tocante a honestidade de admitir que todas essas ideias e intenções foram acopladas para produzir uma existência plural. Não digo que as questões sócio-culturais foram escolhidas de modo aleatório, pois algum interesse Lacerda e Venturi nutriam por elas. Porém, a construção de uma vida tão natural em sua disparidade envigora o retrato de Carmem.
O final acaba fragilizado, já que a proposta de manter a problematização no nível narrativo encontra óbvias inconsistências no momento de tecer as soluções dramatúrgicas. São saídas pobres, ainda mais no caso de dúvidas que podiam permanecer em aberto. Adicionar mais uma camada (distinta, inerente e própria) à vida de Carmem é uma opção natural, mas não se compara à possibilidade de deixar a dúvida sobre como se compõe a personagem.
Por conta desse gostinho de surpresa, como resposta à fala da protagonista (“Tudo anda tão sem surpresa”), Estamos Juntos acaba resvalando na banalidade que impregna a filmagem de Venturi. Felizmente, a narrativa e a encenação têm tanta vivacidade e tanta desordem que confeccionam uma experiência mundana muito gratificante.
Bruna Surfistinha
fevereiro 25, 2011
por Paloma Ornelas
A vida é uma gangorra. Uma hora se está por cima, na outra não. Assim foi a vida de Bruna Surfistinha. A história já é conhecida. Raquel Pacheco era uma adolescente comum adotada por uma família rica, mal compreendida por eles e sofria bullying no colégio. Em meio a essa conturbada realidade resolveu sair de casa e cair literalmente na vida. Sob a ótica de uma garota de programa sem meias palavras ou meias ações surge Bruna Surfistinha. Diferente de outras tantas histórias sobre prostituição Bruna não entrou nessa vida por necessidade, ela mergulhou no universo do sexo para se descobrir e saber quem era.
Além das escolhas que a garota fez e as transformações que acarretaram em sua vida, a grande questão apresentada pelo roteiro – o filme estreia hoje em grande circuito – é o modo como Bruna resolve se ‘conhecer’ melhor. Era realmente necessário chegar ao fundo do poço por vias de álcool e drogas para se descobrir? Não seria mais fácil procurar um terapeuta? Essas são questões que somente a própria Surfistinha pode responder, o que fica claro é uma certa lição de auto ajuda que não chega a prejudicar o filme no todo, mas dá a narrativa um tom meio piegas no final das contas que destoa da personalidade de sua protagonista.
Bruna foi somente Bruna Surfistinha por ter o diferencial das outras garotas de programa e não excluir clientes, ter um blog bombado, saber se vender como ninguém, não se arrepender da atividade que abraçou e virar uma celebridade da internet como muitas vezes sua real pessoa criadora afirmou. Bruna é o alter ego de Raquel, é o contrário do que ela era. Na realidade Raquel não se descobre, ela dá vida a uma espécie de ser imbatível, inabalável, desejado, popular características opostas a sua verdadeira pessoa. Ela faz uma viagem ao submundo do sexo e das drogas para no fim achar a mesma garota que foi um dia. Mas, isso só foi possível pelos altos e baixos por quais ela passou, porque a vida é uma gangorra.
O longa é feito para Deborah Secco brilhar e é justamente isso o que acontece. Na televisão Deborah em seus personagens mais sensuais não conseguiu mostrar seu potencial de atuação da mesma maneira como acontece nesse trabalho. Competente logo nas primeiras cenas acompanhamos a transição da menina ingênua para a garota de programa descolada naturalmente. Misto de despudorada, erótica, cínica, engraçada, vulgar a atriz imprime ritmo do começo ao fim do filme captando as nuances da personagem de modo impecável.
Agradeça a Deborah, Bruna Surfistinha, por tornar sua personagem mais humana, menos robótica, menos máquina. Agradeça por defender o papel de forma tão competente e demonstrar na telona o que é trabalhar com prazer.
Nosso Lar
agosto 31, 2010
por Pedro Costa de Biasi
Falar que Nosso Lar - estreia desta sexta, dia 4, baseado no mais popular livro do médium Chico Xavier - é moralista, doutrinador e antiquado é um jeito de perder outras questões de vista. Sim, os três adjetivos servem mais ou menos bem para descrever o filme de Wagner de Assis, mas não é construtivo se limitar a entender a proposta. O moralismo não é mais ou menos pronunciado que o normal só porque a temática é religiosa, e o roteiro é honesto em sua abordagem ideológica. Esta, por outro lado, se confunde com outro processo que se pode aproveitar sem nenhum laço doutrinário.
Mas, primeiro, a história: André Luiz (Renato Prieto) morre. Seu espírito desperta no Umbral, uma paisagem desolada e escura, repleta de almas desesperadas. Depois de muito sofrimento, ele faz uma oração e é resgatado por moradores do Nosso Lar, uma cidade espiritual situada 50 km acima da Terra. Lá ele conhece a existência após a vida e o funcionamento da sociedade das almas.
Sem a necessidade alguma de se identificar com o pensamento espírita, o espectador pode abordar a história como quem conhece um universo fantástico. Por mais que seja uma crença, Nosso Lar é um território que ninguém pode alcançar, a não ser depois de abrir mão do corpo, da boca que relata e das mãos que documentam. É uma mistura homogênea e ambígua entre verdade inalcançável e ficção.
Pode-se argumentar que a apropriação da crença como fantasia e vice-versa também ocorre em filmes como Irmãos de Fé e Maria – Mãe do Filho de Deus, mas há diferenças. Enquanto as parábolas cristãs se firmam no passado mesmo quando querem tratar do presente, Nosso Lar abarca presente e futuro. A descoberta da cidade das almas só ocorre após a vida, e o aprendizado é constante, sempre direcionado para frente. Até a arquitetura futurista passa a noção de avanço e desapego ao que já passou.
A inexistência física afrouxa os laços com a realidade em que vivemos, e até mesmo com a História ou com o futuro de nossa vivência. Não importa o que foi real na vida terrena, e sim o que será real depois dela – ou mesmo entre uma encarnação e outra. Quando Assis escolhe manter a trama nos anos 30 e 40, é apenas para criar uma interessante tensão envolvendo a II Guerra Mundial.
Infelizmente, quando a dramaturgia demanda um cruzamento entre a vida mundana e a espiritual, o roteiro de Assis se desequilibra. André Luiz é chamado de “suicida inconsciente”, por causa de seus hábitos degradantes, mas esse conceito é espiritual. Dessa forma, nunca se explica a ausência de orações dos familiares após sua morte, uma vez que tudo que o filme mostra são cenas de família-margarina.
Embora carismático, Prieto também atrapalha na construção do personagem, pois às vezes lhe falta a intensidade para transformar um sorriso ou um choro no gesto forte que deveria ser. O razoável elenco oferece uma atuação vibrante, de Rosanne Mulholland como Eloisa, mas sua personalidade desafiadora acaba sufocada por truques de roteiro baratos.
Todos são vítimas daquela encenação travada que caracteriza muitos filmes brasileiros. Assis ainda trabalha mal os embates ideológicos, não raro saltando para conciliações apressadas que não fazem jus ao crescimento de André – e até exagerando o impacto de questionamentos rasos de Eloisa. Resta o bom uso da trilha do sempre ótimo Phillip Glass, que constrói o deslumbramento e a proposta empreendedora do mundo espiritual.
Em vez de agregar valores negativos ao vilão e positivos ao herói, no caso de Nosso Lar, os valores dentro de cada um fazem esse papel. Tirando essa diferença, a produção pode ser classificada como uma mediana aventura de fantasia: um filme cheio de efeitos visuais ambientado em uma realidade alternativa de onde brotam tensões, mistérios e lições de vida.
Coletiva: Cabeça a Prêmio
agosto 18, 2010
por Pedro Costa de Biasi
Uma coletiva realizada no CineSesc reuniu jornalistas e elenco da produção Cabeça a Prêmio, que estreia nessa sexta, 20. Estiveram presentes Marçal Aquino, autor do livro homônimo em que o filme foi inspirado; Felipe Braga, roteirista da adaptação; Paulo Schmidt, produtor; Marco Ricca, diretor; e os atores Otávio Müller, Fulvio Stefanini, Cássio Gabus Mendes e Eduardo Moscovis.
Moscovis nem citou que era ator: “Eduardo Moscovis, amigo do Cássio”. Todos os entrevistados faziam questão de se referir uns aos outros como amigos. O diretor Marco Ricca se disse sortudo por ter contado com atores tão talentosos dispostos a trabalhar em seu primeiro longa.
“Fui cercado de uma equipe impressionante”, elogiou, agora também se referindo aos outros profissionais com quem trabalhou. “Não só a gente, como a equipe toda fazia questão de estar ali”, acrescentou Moscovis.
O filme acompanha personagens angustiados, apresentados a partir do desmoronamento de uma situação estável. “Parece que o universo conspira contra esses personagens”, disse Ricca, sobre o enfoque da trama. “(O filme) É angustiante porque a vida é angustiante”, completou, deixando claro que é essa sensação que espera causar no público.
Com um filme voltado para os personagens, o trabalho dos atores foi muito valorizado. Perguntado sobre a base de uma boa interpretação, Fulvio Stefanini disse: “O essencial é ter um bom personagem. Tem que ser um pouco irresponsável, arriscar. O trabalho de ator é o risco que a gente corre.”
A produção, orçada em R$ 4 milhões e 300 mil, foi rodada principalmente no município de Cidrolândia (MT). A pré-produção durou três meses e as filmagens ocuparam sete semanas. Apesar disso, a equipe passou seis meses na cidade, com viagens esporádicas para visitar suas famílias. Iniciado em 2007, o projeto foi finalizado em três anos, tempo relativamente curto para um filme nacional.
O principal problema enfrentado por Ricca foi a captação de recursos. “A iniciativa privada não está fácil. Os editais também, são feitos por amigos de amigos de amigos”, desabafou. O diretor revelou ainda que discorda do modo como o BNDES oferece fundos para o cinema brasileiro. Faz pouco tempo que o cineasta recebeu a primeira parcela do valor prometido para a realização do filme. “Os caras dão o dinheiro quando eles querem”, criticou.
Cabeça a Prêmio estreia nos cinemas brasileiros nessa sexta-feira, dia 20.
Cabeça a Prêmio
agosto 17, 2010
por Pedro Costa de Biasi
Tudo em Cabeça A Prêmio, produção nacional dirigida por Marco Ricca que estreia sexta, dia 20, se movimenta para sair do lugar. Muitos percalços depois, o caminho leva de volta ao ponto de onde partira. No entanto, o desvio usado para fugir das situações originais as reencontra potencializadas. De uma condição antes estável, então em seus primeiros estágios de desmoronamento, cai-se nas consequências mais extremas. O filme não é só sobre a derrocada de pessoas e sobre suas tentativas de escapar, mas também sobre a moralidade intrínseca a tais temas.
Os vários personagens se mantêm atrelados à família de um rico criador de gado, Miro (Fulvio Stefanini). O ciúme que sente da filha Elaine (Alice Braga) ameaça a relação da moça com o piloto de seu pai, Denis (Daniel Hendler). Ele voa pelas fronteiras do Brasil com cargas ilícitas. A presença do irmão do fazendeiro, Abílio (Otávio Müller), atrapalha os negócios, tornando a relação familiar tensa. Para proteger seus entes queridos, Miro mantém o capanga Albano (Cássio Gabus Mendes) e contrata Brito (Eduardo Moscovis), que tem seus próprios dramas.
No mundo ríspido que o diretor Marco Ricca constrói, os afetos não têm vez. O romance proibido de Denis e Elaine, assim como a aproximação entre Brito e Marlene (Via Negromonte) nunca alcançam a plenitude. Não é um ou outro obstáculo, mas toda a existência naquele universo que restringe as emoções humanas. Apenas um dos personagens é capaz de mudar algo com seus “sentimentos”, e a natureza dessa mudança explicita as regras do jogo.
Também é curioso como o carinho que Elaine recebe do pai não raro soa incestuoso, mesmo que só na imaginação do espectador. Outro bom indício de como funciona a moral do roteiro de Ricca e Felipe Braga está na forma como Miro tenta cuidar da família. A incapacidade de perceber os problemas da esposa Jussara (Ana Braga) contrasta com a proteção que sufoca Elaine.
O aspecto que mais enfraquece o corpo da obra é sua estrutura. Embora a trama se desdobre entre os personagens e seus anseios, a trajetória cíclica nunca é perdida de vista. Esse processo de fuga perde a força na medida em que elementos banais (o romance Romeu/Denis e Julieta/Elaine, o doentio ciúme paterno, as estranhezas de Brito) unem, fragilmente, as formas gerais que Ricca e Felipe Braga pretendem criar.
A moral básica da história também acaba danificada. A ausência de uma conclusão definitiva oferece possibilidades que remetem à natureza moralista do roteiro – que não é um defeito. O problema é que, entre corroborar o moralismo, negá-lo, afastar a catarse e duvidar de sua existência, o filme parece fugir de sua postura original de reagir à desumanidade. Tudo aponta para um final, e, quando ele surge, coloca em xeque coisas cuja integridade nunca foi enfrentada, talvez para evitar a alcunha de “moralista”.
De outra maneira, pareceria apenas uma continuação da linguagem interessante criada pelo roteirista e pelo diretor. Apesar da predominância das entrelinhas e dos subentendidos, nenhuma informação se perde por falta de clareza, resultando em uma alternativa muito bem-vinda a uma narrativa expositiva. A encenação inteligente de Ricca oferece tempo e espaço para as tensões se desenvolverem em silêncio, indo além do campo/contracampo tanto em olhares unidirecionais quanto em planos abertos.
A valorização do elenco também é notável, dando muito mais liberdade de imagem que outro ator-diretor, Selton Mello, deu em sua estreia. A intensidade dos intérpretes é capturada com eficiência, independentemente do formato da cena. Embora não haja elos fracos, merecem destaque as valorosas participações de Ana Braga e de Negromonte, assim como Alice Braga, que vai se intensificando ao longo da história.
Com uma potência nítida em cena, Gabus Mendes traz um cinismo efusivo e Moscovis rebate com uma postura lacônica mas muitíssimo expressiva. Cada um tem suas hesitações, mas Albano representa uma conivência com o “lado errado”, enquanto o “bom” Brito se esforça para escapar de um círculo vicioso em que a frieza afasta a ternura, levando a mais frieza. Os dois representam o que há de mais brilhante no elenco, o que diz muito sobre a posição dos roteiristas perante sua obra.
É triste que o final, nas variações que consciente ou inconscientemente possibilita, acabe drenando parte da firmeza de um conto de moral bem construído e recheado de ótimos atores.
400 contra 1
agosto 8, 2010
por Alice Jones
O cinema brasileiro cada vez mais se confunde com a tríade violência- favela – pobreza. 400 contra 1 — A história do Comando Vermelho, de Caco Souza, é mais um filme para entrar nesta lista e, provavelmente, vai ficar no final dela. O longa já está sendo exibido desde a últiam sexta, dia 6.
Baseado na autobiografia de William da Silva Lima, um dos articuladores do Comando Vermelho, considerada a maior facção criminosa do país, 400 contra 1 tenta relatar os acontecimentos que levaram a criação do grupo. A locação principal é a prisão de Ilha Grande, onde William (o sempre competente Daniel de Oliveira) é levado preso pela segunda vez.
Quando chega lá o rapaz percebe que as coisas mudaram e os presos ‘normais’ estavam separados dos presos políticos. A partir daí se desenrola a história, contada de forma não linear e extremamente confusa.
400 contra 1 também possui uma narração em off fraca, que se limita a repetir o que está sendo exibido nas telas, ou seja, totalmente desnecessária. O foco da trama – que seria mostrar que o Comando Vermelho era, inicialmente, uma tentativa de melhorar as condições entre os presidiários, construindo principalmente uma união entre eles – acaba perdido numa trama lenta, com diálogos fracos e monótonos.
Bem que o diretor tentou fazer um filme cult, com trilha sonora pop, mas isso – e algumas atuações regulares – não salvaram a história.
Entrevista: Quincas Berro D´Água
maio 21, 2010

Por Diego Estrella
A coletiva de imprensa para o lançamento do filme Quincas Berro D’Água - que estreia hoje - contou com a participação do diretor Sérgio Machado, do elenco, do diretor de arte, Adrian Cooper, e do compositor da trilha sonora, Beto Villares. Os membros do elenco presentes foram a trupe principal do enredo, Paulo José (Quincas), Flávio Bauraqui (Pastinha), Irandhir Santos (Cabo Martim), Luis Miranda (Pé de Vento) e Frank Menezes (Curió).
A conversa com os jornalistas foi marcada por um tom informal, com inúmeras brincadeiras entre o elenco e o diretor. De início, Sérgio Machado explicou que sua relação com Jorge Amado existe desde o começo de sua carreira, quando o escritor o apresentou a Walter Salles, com quem o diretor trabalha até hoje. O livro A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água é, segundo ele, o melhor livro do escritor.
“O tema central é a morte, mas [o filme] fala o tempo todo da vida”, explicou. E essa idéia foi reforçada depois por Frank Menezes ao falar que o filme é uma homenagem à amizade e à vida. A amizade, aliás, estava também fora das câmeras. Para cada declaração, sempre havia uma interrupção, principalmente de Paulo José, roubando a cenas com um comentário bem humorado, e que logo se transformava em uma conversa entre amigos lembrando bons momentos. Resultado de um grupo que passou dois meses se preparando para gravar.
Sobre a ambientação, Machado disse que a idéia era fazer um filme que se passasse nos anos 1950, mas com a linguagem cinematográfica atual, complementado por Adrian Cooper, que afirmou que Salvador continua como era há cinco décadas. Os detalhes na elaboração do filme foram meticulosos. O diretor afirmou que toda a produção levou dois anos, e lembra que determinadas cenas, como a do barco na tempestade, levaram meses até serem terminadas.
O perfeccionismo de Machado, aliás, foi além. Ele chegou a fazer 500 páginas de anotações com detalhes como a tampinha de garrafa que o Cabo Martim usa como medalha, um detalhe que passa praticamente despercebido ao público.
Sobre a música, Beto Villares deixou claro que não tiveram intenção de se prender a ritmos baianos ou da época da história, apesar da música parecer vinda de um circo. Eles chegaram a pedir para os músicos desafinarem um pouco, para ajudar no tom cômico, meio patético. Machado lembrou diversos ritmos usados: maracatu, reggae, sambarock, até mambo. Nenhum ritmo tipicamente baiano, porém. Villares lembra que não havia intenção de se prender à época e ao local em que estavam.
Apesar do resultado final ser cômico, o diretor afirmou que o humor veio de cenas intensas e dramáticas, do desencontro entre o ridículo da situação e a seriedade com que os personagens era interpretados. Paulo José comparou-os com o vagabundo de Chaplin. Para ele, os personagens eram sujos, suados, mas agem de maneira fina, aristocrata. E esse limiar entre o ridículo e o sério foi um desafio para Frank Menezes, com uma carreira longa como humorista, interpretando um personagem vestido de palhaço, mas triste.
Entrevista: Marcelo Gomes e Karim Ainouz
maio 3, 2010
Por Janaina Pereira
Os aclamados diretores Marcelo Gomes, de Cinema, Aspirinas e Urubus, e Karim Ainouz, de O Céu de Suely, estão de volta. Eles assinam a direção do introspectivo Viajo porque preciso, volto porque te amo, que estreia nesta sexta, dia 7.
O longa narra a solitária viagem pelo sertão nordestino feita por um geólogo, José Renato, que não aparece em momento algum do filme. Só ouvimos a sua voz, ou melhor, do ator Idanhir Santos, que o ‘interpreta’, e acompanhamos com seu olhar as andanças para esquecer a mulher que ama, mas que o abandonou.
Em entrevista exclusiva ao Cinemmarte, Gomes e Karim falam sobre o filme que nos leva a uma viagem pelo sertão nordestino mas que, acima de tudo, é uma grande história de amor.
Cinemmarte - Como surgiu a ideia dessa parceria para realizar Viajo porque preciso, volto porque te amo?
Marcelo Gomes – Quando eu e Karim nos conhecemos logo percebemos uma afinidade e, a partir daí, começamos a trabalhar juntos. Ele me ajudou no roteiro de Cinema, Aspirinas e Urubus, e eu o ajudei no roteiro de Madame Satã. Já faz alguns anos que tivemos a ideia de fazer esse filme viajando pelo sertão, uma coisa meio a flor da pele, destruindo estereótipos. Viajo porque preciso,volto porque te amo, na verdade, é meio que um filme de guerrilha, feito com poucas pessoas.
Karim Ainouz – A gente fez a viagem mas não tinha ideia de como seria o filme. Avaliando as imagens que captamos vimos que elas falavam de um lugar isolado e tinham um gosto de abandono. Foi aí que pensamos que seria bonito o personagem ter essa sensação de abandono, e surgiu a ideia do protagonista estar saindo de um processo de separação. Até pensamos em colocar traços do personagem em trechos do filme, mas chegamos a conclusão de que seria mais bonito ele não aparecer.
Cinemmarte - Até que ponto o olhar do personagem sobre o sertão é o olhar de cada um de vocês?
MG – Mesmo o personagem sendo ficcional a gente acaba emprestando várias coisas a ele. Ele tem o meu conhecimento da região e, ao mesmo tempo, o meu desconhecimento. Ele descobre pessoas, lugares, um novo sertão diferente do que ele pensava. E, a medida que o personagem descobre tudo isso, eu vou aprendendo com o filme também.
KA – Têm algumas coisas em comum, mas o que o personagem faz é abrir os olhos e ter este olhar do sertão de agora. Quisemos que ele fosse um geólogo porque isso faz com que ele tenha relação física com o lugar. Ele viaja para descobrir aqueles lugares, embora os locais por onde ele passa nem sempre soem familiares. Ele olha as paisagens, e é quando sente falta da mulher que ama, mas também olha as pessoas.
Cinemmarte - O filme passou pelo Festival de Veneza, Festival do Rio, Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e agora finalmente chega ao circuito. Qual a expectativa em relação ao público que vai ver o filme?
MG – O público que prestigia nossos filmes certamente vai assistir, mas espero que ele alcance outro público também, de pessoas que podem nem conhecer nosso trabalho mas vão interessadas na história. Porque o filme conta uma grande história de amor, e histórias de amor são universais. O cinema instiga nossa imaginação e o objetivo do filme também é fazer o espectador compartilhar da viagem do personagem, lembrar de suas próprias viagens e se emocionar com essas lembranças. A magia do cinema é isso, esse compartilhamento. Espero também que as pessoas observem os silêncios que a história tem, pois esses silêncios são os pensamentos dos diretores, do personagem e do público.
KA – O filme propõe uma nova forma de narrar e tem um frescor só dele. Nossa grande dúvida era se as pessoas vão embarcar nessa viagem e ter afeto pelo personagem. Pelo que vimos nos festivais, parte do público não embarca e não se identifica com o protagonista, mas a outra parte olha e diz: “Eu sou o personagem que está viajando”. Muita gente já foi abandonado e caiu na estrada para esquecer, e é aí que está a identificação. Tem gente que esquece que o personagem não está lá. A proposta do filme é ‘senta aqui nessa sala escura e viaja comigo.’ Isso é muito particular dele, é como se o protagonista pegasse na mão do espectador e o levasse para viajar junto. Mas o cinema não é, verdadeiramente, uma pequena viagem? Sempre comparei o cinema a duas coisas: viagem e roda gigante. E no final até conseguimos ter uma imagem de roda gigante!
Cinemmarte - Qual o próximo projeto de vocês?
MG – Sempre quis fazer um filme sobre jovens, mas especificamente sobre o jovem recém saído da faculdade, na faixa de 23 a 25 anos, que não tem perspectiva, não sabe o que fazer da vida profissional e tem uma relação de amor e ódio com o Brasil. Também queria fazer um filme sobre Recife, a cidade em que sempre vivi. Resolvi unir as duas coisas e, a partir de outubro, começo a filmar. O título provisório é Era uma vez Verônica. Será um filme urbano, nada de road movie, e espero concluir até o início do ano que vem.
KA – Estou trabalhando agora na continuação da série Alice para a HBO e começando a filmar Praia do futuro, entre Fortaleza e Berlim. Tenho para 2011 um projeto no Japão, um filme sobre uma brasileira que vai morar lá. Para o ano que vem também vou filmar uma história baseada na música Olhos nos Olhos, do Chico Buarque. É sobre um casal que, depois de 20 anos juntos, ele abandona a mulher deixando apenas uma carta. A reação da mulher, que vai ser interpretada pela Alessandra Negrini, nas 24 horas após esse abandono é o eixo do filme.
Leia crítica de Viajo porque preciso, volto porque te amo.
Viajo porque preciso, Volto porque te amo
abril 26, 2010
por Janaina Pereira
Viajo porque preciso, Volto porque te amo tem um dos títulos mais significativos que já vi. E o filme também tem uma marca pessoal e intransferível.
Os aclamados Marcelo Gomes e Karin Ainouz conseguem uma narrativa ímpar com a história do geólogo José Renato (Irandhir Santos), enviado para realizar uma pesquisa de campo durante a qual terá que atravessar todo o Sertão, região semi-desértica, isolada, situada no Nordeste do Brasil.
Mas onde está o protagonista no filme? A gente não vê. Ele está lá, com sua voz marcante, mas seu rosto fica na imaginação de cada um. O que fica claro são os sentimentos do personagem: a solidão e a mágoa se confundem com a paisagem árida pela qual ele passa.
Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo se estrutura como diário, ou impressões, de viagem. Sob a onipresente voz off de Irandhir Santos – que comenta as imagens, rememora o passado e fala diretamente com sua amada, Joana – Karim Aïnouz e Marcelo Gomes se utilizam de diversos suportes de captação para registrar as cenas através do ponto de vista do geólogo: 16mm, 35mm, Super-8, câmera digital, máquina fotográfica.
As múltiplas imagens (que os diretores coletaram entre 1999 e 2009) são fragmentadas, efêmeras e instáveis, tais quais os sentimentos conflituosos do personagem em relação à esposa – que ao mesmo tempo ama e odeia, que ora deseja retornar para casa, ora prefere que a pesquisa de campo nunca termine.
Viajo porque preciso, Volto porque te amo é uma viagem original e inesquecível, uma busca de um homem em torno de si mesmo e da saudade que o corrói, mas também o movimenta.
As Melhores Coisas do Mundo
abril 15, 2010

por Janaina Pereira
Filmes que retraram os jovens de uma época são bastante comuns mundo afora, mas não por aqui. Sim, nós brasileiros nunca sabemos bem que juventude é essa que nos cerca. A cineasta Laís Bordansky (Bicho de Sete Cabeças) encontrou o tom certo para falar dos meninos e das meninas desta década no honestíssimo As melhores coisas do mundo.
Previsível, mas fofo, o longa é um retrato da galera que vive o mundo real e virtual de formas intensas, fazendo desta geração uma mistura de alienação e excesso de informações – o que torna estes jovens extremamente contraditórios.
Inspirado no livro Mano, de Gilberto Dimeinstein e Heloisa Prieto, a história conta como é a vida de Mano (Francisco Miguez), do ponto de vista do rapaz. Virgem, apaixonado pela menina mais bonita do colégio e melhor amigo da menina que adora andar com meninos, ele é o clichê da juventude em pessoa. No entanto seu mundo parece virar de ponta cabeça quando o pai abandona a mãe para ficar com outro homem. Ao mesmo tempo, ele percebe que a história de amor do irmão mais velho pode não ser para sempre.
Contando com atores conhecidos do público como Denise Fraga, Caio Blat e Paulo Vilhena, e novatos como o protagonista Fernando Miguez e o novo ídolo da garotada Fiuk (xerox do pai, Fábio Jr), o longa conquista por sua sinceridade a flor da pele.
As melhores coisas do mundo não faz estardalhaço sobre os jovens de hoje, apenas mostra a juventude exatamente como ela é: cheia de conflitos e defeitos, mas com aquela sensação de que pode mudar o mundo. Vai me dizer que você não foi assim quando jovem? Pois é.







