Os Especialistas

novembro 30, 2011

Por Pedro Costa di Biasi

Os Especialistas, que estreia nesta sexta-feira, poderia ser apenas mais um seguidor do cinismo corrente no gênero ação. O filme é cínico de maneira particular, embora tão certinha quanto de costume, e dialoga com Os Mercenários. Porém, diferentemente do verniz camarada que recobre os assassinos de aluguel de Stallone, aqui eles só encontram qualquer tipo de harmonia se se agarram à ideia de largar o ofício.
O protagonista Danny Bryce (Jason Statham), ao cumprir um contrato com Hunter (Robert DeNiro), Meiers (Aden Young) e Davies (Dominic Purcell), assassina o alvo e descobre no ato que, logo ao lado da vítima,  uma criança assistia a tudo. Ele diz que vai desistir, e decide viver com Anne (Yvonne Strahovski) na Austrália. Ao descobrir que o Sheikh Amir (Rodney Afif) capturou Hunter por falhar em uma missão, Danny se une com os velhos companheiros para terminar o serviço: matar os três membros do Serviço Aéreo Especial (SAS) britânico que assassinaram os filhos do Sheikh. No encalço dos três está Spike Logan (Clive Owen).
É um roteiro de temas polêmicos, como missões obscuras do SAS (força armada real e ainda operante) que causaram o desejo de retaliação em Amir, interesses ainda mais secretos – representados pelo Agente (Adewale Akinnuoye-Agbaje) que administra a missão de Danny – e o envolvimento dos Homens-pena, ex-agentes do SAS que tentam proteger seus colegas da morte pelas mãos dos mercenários. Tudo vem do livro de Sir Ranulph Fiennes, The Feather Men, no qual o filme foi baseado.
Parte da polêmica vem da dificuldade em estabelecer se a obra de Fiennes é uma ficção (como ele mesmo já assumiu algumas vezes), ou se a plausível influência de grandes instituições distorceu certos fatos para que parecessem mentiras divulgadas por um autor sedento por atenção. E, até onde vão os interesses do filme, pouco importa. As principais questões do roteiro de Matt Sherring giram em torno da atividade de matador de aluguel.
O roteirista empresta elementos de Rambo IV e Os Mercenários, já que o ofício vem com uma maldição intrínseca. Entretanto, as diferenças são claras: tanto a vampirização de John Rambo para resolver conflitos armados quanto os tormentos dos mercenários descartáveis apontam para a manutenção perpétua de suas ações facínoras. Aqui, a via de fuga é simples, e só por conta de valores (outro tema de Stallone) o caminho sofre percalços. Essa facilidade tem relação direta com outra referência.
Os Especialistas também é partes Michael Mann (particularmente os dois últimos do cineasta, Miami Vice e Inimigos Públicos), pois Anne é um esforço do protagonista para delinear uma pessoa que lhe sirva de eixo. Mas, se John Dillinger e Sonny buscavam no sexo oposto uma constância e um foco para ações ainda em curso, o tedioso idílio de Danny rompe bruscamente com a profissão. Assim, a tensão é pífia: basta Danny cumprir sua última missão e a fuga perfeita pode ser simplesmente repetida.
Claro que não fica por aí, já que outros elementos são fundamentais. E o diretor Gary McKendry sabe filmar ação. Nos confrontos e na realização dos assassinatos, que devem parecer acidentes, ele joga bem com as expectativas – posto que a decupagem e a edição não atrapalham -, alternando o controle da situação ora a um lado, ora a outro, gerando uma constante e bem-vinda incerteza. (A perseguição automobilística de Spike e Danny é a exceção.)
Uma cena interessante logo na primeira parte do filme mostra Danny e Hunter tentando escapar do cativeiro do Sheikh, apenas para arrombarem uma porta e receberem aplausos por seu espetáculo fútil. Talvez seja o instante que propõe de forma mais interessante como a ocupação de matador incapacita decisões ou escapatória. O próprio personagem de Spike, que luta desesperadamente para encontrar sua relevância, é outro indicador desse impasse. Para McKendry, porém, importa mais uma menção triste, brevíssima, a Sergio Leone.
Enquanto os homens de Os Especialistas parecem problemáticos, alheios aos movimentos políticos que os rodeiam, atentos a fins e valores e presos a fortunas traçadas de antemão, como os de Três Homens Em Conflito, o filme vai bem. Quando toda a tensão se desmancha em favor da máxima “boas-intenções-geram-bons-resultados”, com resoluções condizentes (vide a última frase dos letreiros finais), pouco resta.

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